Hoje, primeiro de abril, temos mais um lastimoso aniversário do golpe civil-militar que impetrou mais de duas décadas de regime ditatorial no país. A recente acolhida pelo STF de denúncia de golpe de estado pelo ex-presidente e seu grupo próximo, incluindo não apenas ministros militares, mas o próprio ministro da Justiça, além de acusações de tramas mortais contra um presidente eleito, seu vice e de um presidente do TSE, não deixa de trazer à lembrança os horrores do período de exceção. As merecidas premiações ao filme “Ainda estou aqui” e seu sucesso de público também reforçam o debate sobre os crimes da ditadura, nos colocando em meio à dinâmica contraditória da história: a película é uma produção da empresa de comunicação que, nos anos 1960, fora um dos principais sustentáculos do regime ditatorial.
Minha família não sofreu os baques e quedas causados pela tormenta bafejada por fardados e engravatados que sujeitavam a vida democrática da nação. Não tive parentes desaparecidos ou torturados.
Contudo, existia o vendedor de enciclopédias.
Era um homem pardo, meio calvo, andar contido, semblante recolhido em si. Aparecia, aos sábados, à tarde, regulando com o horário no qual já havia sido executada a feira semanal e o casal ainda poderia ter alguma disposição (e dinheiro) para mais uma compra. Numa mala de couro com armações em madeira (que devia pesar bastante), trazia exemplares de livros para mostrar à clientela. Sabendo de crianças nas casas, apresentava-lhes seus livros mais coloridos, editados especificamente para esse público.
Tinha contos de fadas, livros com bichos e enciclopédias. Contudo, não as carregava completas em sua bagagem: carregar as mais requisitadas pelos subúrbios de Recife seria fardo probo para uma carroça. Aqueles compêndios portavam sóbrias capas duras gravadas com frisos, letras e números dourados. O livreiro itinerante trazia um exemplar especial de cada uma delas: um único volume com a vistosa capa que lhe caracterizava, contendo um apanhado distribuído dos verbetes que mais poderiam atrair o interesse dos leitores. Dentre as opções, a mais cobiçada era a Enciclopédia Barsa, cuja distinta amostra era zelosamente exibida pelo vendedor e cautelosamente almejada por meus pais: era também a mais dispendiosa.
Se comprava alguma obra, mas, ainda não uma enciclopédia. Essa só foi adquirida quando todos os filhos da casa estavam em idade escolar: o benefício nos trabalhos de classe de toda a prole valia o custo do investimento.
Meus pais conheciam aquele homem de outras circunstâncias, mas isso nunca ficou muito claro na época. Uma conversa e outra escutada de soslaio depois de sua visita, me informavam que ele havia perdido algum emprego público, que passara um tempo injustamente preso, que circulava meio clandestino e que vender livros foi a opção de sustento que lhe restou. Anos depois, findo o regime, resgatando cenas do passado em conversas dominicais com a família, me dei conta de que o vendedor de enciclopédias foi um perseguido político. Havia participado de organizações sindicais e movimentos operários, inclusive perto de onde morávamos: a então estatal Rede Ferroviária tinha uma de suas grandes oficinas no bairro de Areias que, nos idos de 1960, era lócus de mobilização de trabalhadores.
Meu pai era ferroviário e torcedor do Santa Cruz Futebol Clube, também esteve presente nas movimentações operárias, e minha mãe, estudante de magistério, fora alfabetizadora no Movimento de Cultura Popular.
O homem dos livros chegou depois de 1972, ano do lançamento da prometida Transamazônica, período do repressor governo de Garrastazu Médici, ano do tetra campeonato pernambucano do Tricolor do Arruda e da inauguração de seu estádio.
No âmbito das comemorações tricolores naquele ano, Seu Elias me confecciona uma bandeira do Brasil, sendo o verde oliva trocado pelo vermelho, o amarelo do losango substituído pelo branco e, no lugar do globo azul, um globo preto. Empunhando essa versão da flâmula nacional, saímos no que seria a comemoração dos feitos do Santa Cruz em direção à casa da minha avó. Porém, antes mesmo de chegarmos à metade do percurso, a genitora da minha mãe nos esperava no meio do trajeto: situação única nas infinitas vezes que se deixava a criança na casa que funcionava como berçário exclusivo dos netos enquanto pais e mães seguiam para seus empregos.
Aparentando ter sido alertada sobre aquele inusitado cortejo, grave e lépida, minha avó toma a bandeira de mim, num sopapo, fundindo cores e mastro em uma massa única. Criança, ainda em vigência das fases iniciais da maturação cognitiva atribuídas por Piaget, não entendi nada do que se passava, apesar de ainda ter viva a imagem do rosto alarmado de Dona Laura e da sarabanda que ela dá em meu pai.
Só entendi aquilo tudo anos depois. Ainda hoje não consigo definir as motivações de Seu Elias. Mas entendo plenamente a motivação de minha avó: o tenebroso medo.
Ditadura é assim: o regime do pavor e do temor. E seu triunfo se dá quando o terror se instala nos corações.
Neste primeiro de abril, está em julgamento, repito, o plano para matar um presidente eleito, seu vice e um ministro do Supremo Tribunal.
Quão profundo se instalaria o terror nos corações em um regime derivado de um golpe que se iniciaria assim?
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Foto da Capa: Memorial da Democracia