
Dias atrás, caminhando na beira da praia, vejo de longe um cartaz que me chamou a atenção. Chego perto e quase não acreditei. A mensagem trazia o alerta da campanha contra a violência contra a mulher Na hora, tive um sentimento estranho, dúbio: poxa, o negócio tá tão sério que o governo do Estado resolveu se mobilizar; mas será que essa mensagem assim adianta alguma coisa? Ainda mais trazendo uma mensagem de que ali, na casinha do salva-vidas, seria um local seguro, protegido para uma mulher vítima de violência (vale lembrar que a casinha tem estado vazia nas últimas semanas). A peça trazia informações sobre serviços de atendimento à mulher no RS.
Confesso que me incomodou o tal cartaz. E também sobre o quanto nós, mulheres, integramos um sistema social onde tudo gira em função do patriarcado. Grande parte das vezes, nós mesmas não nos damos conta do quanto estamos emaranhadas nessa teia complexa de relações.
Hoje estou casada com um sujeito que me respeita, faz tarefas domésticas e é um ser humano que é compreensivo com a minha situação de mãe, profissional, sobrinha de uma tia idosa. Mas isso nem sempre foi assim. Antes de encontrá-lo, tive relações de vários matizes, muitas vezes abusivas, nas quais eu não podia ser o que sou. Alguns dizem que sou uma sortuda, uma privilegiada.
Só que para eu me relacionar com um tipo de homem que me respeita, considera o meu contexto, eu precisei mudar em vários aspectos. Até porque ter consciência das nossas escolhas requer uma série de investimentos em autoconhecimento. Entre saber o que é melhor para nós e tomar a decisão do que isso representa, é um caminho árduo, na boa parte das vezes, nada fácil de prosseguir.
Mas pior mesmo é quando outras mulheres recriminam que o meu marido, atualmente, sabe mais as coisas de casa do que eu. Ou seja, estamos nessa situação muito porque nós, mulheres, especialmente as de gerações mais antigas, ainda achamos que é papel do sexo feminino lavar louça e roupa, os papéis de cuidado que tradicionalmente foram exercidos por mulheres.
Comento sobre esse assunto porque entendo que o número absurdo de feminicídios, só neste ano no Estado, 20 mulheres foram assassinadas, 53% a mais que o ano passado é um indicador, uma ponta de um iceberg que tem profundas questões que foram sendo empurradas para debaixo do tapete ao longo do tempo. Desconfio que o cenário de polarização política também influencia esse cenário. A falta de tolerância, o discurso de ódio, de posse são elementos que têm atrapalhado muito a convivência entre as pessoas.
As mulheres de hoje não se sujeitam mais a imposições que eram corriqueiras em décadas passadas. Quantas mulheres não puderam trabalhar fora por imposição dos maridos? Quantas não têm amigas, relações com pessoas fora da família por determinação (implícitas, muitas vezes) de seus cônjuges? Perdi as contas de quantas viúvas reconheceram que só depois que os maridos morreram é que conseguiram ter a liberdade de fazer o que queriam.
Vivo cercada por mulheres que se mandam e outras que se sujeitam ao que os maridos definem para elas. A convivência entre distintas gerações com frequência provoca estranhamentos.
O fato é que hoje essa tensão em aceitar a violência, que pode ser de vários tipos (física, velada, patrimonial, financeira etc.), exige bastante não só de quem é vítima, mas de quem convive com essas supostas vítimas. Saber se posicionar, interpretar o que é um indício, uma prova de que algo pesado está por trás, é algo que requer lastro, sabedoria e discernimento, não só por parte de quem sofre, mas de quem é testemunha de contextos perversos.
Nem sei quantas vezes já presenciei situações embaraçosas envolvendo matizes diversos de violência de gênero. A começar pelo próprio urbanismo da cidade, que privilegia mais as vias por onde passam os carros do que as próprias calçadas, onde circulam carrinhos de bebês, cadeirantes, idosas etc.
O condomínio onde mora minha tia tem esse cartaz fixado na porta do elevador. E aí te pergunto: com a cultura em que estamos inseridas, como fica a relação entre vizinhos se a mulher depois acaba voltando para o agressor? Creio que todos nós precisamos de um letramento, sermos educados sobre como tratar contextos desse tipo.

Todas nós precisamos saber cuidar da saúde emocional e mental. Só atacar o problema depois que a agressão foi consumada ou a morte foi o caminho é igual a enxugar gelo. São necessárias medidas de políticas públicas socioeducativas em que todos, homens e mulheres, passem por formação, além de campanhas de cidadania envolvendo o direito de ser respeitada.
Nada fácil, nem na Bela Vista, nem na Bom Jesus. Não é uma questão de poder aquisitivo. Só sei que cada um que tem alguma noção do que tudo isso representa, pelo menos, deveria se preocupar em não perpetuar valores que só servem para benefício estrutural do machismo e do patriarcado. Combater a violência contra a mulher é dever de todos, inclusive das mulheres, né?
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Foto da Capa: Arquivo Pessoal

