Eu não sei se na bolha de vocês vem acontecendo o mesmo, mas na minha, de repente, todo mundo parece estar desesperado de nostalgia por 2016. Gente que publica fotos da época, gente que narra o que estava fazendo há uma década. Nas minhas redes sociais começaram a aparecer relatos saudosos sobre viagens feitas em 2016, sobre possibilidades ponderadas e concretizadas ou alteradas mais tarde. Uma poderosa e completamente absurda saudade de um período que, para muitos, marca o limiar a partir do qual não era mais possível retornar e onde começaram os problemas que hoje nos assolam.
Minha primeira reação foi me perguntar “Por que agora?” e “Por que 2016?”. 2015, terminado em um número cinco que sinalizava o meio da década e, portanto, carregava maior potencial simbólico, não teve nada disso em 2025. Então por que em 2016? Como se essa cultura dos memes, cada vez mais hostil para um racionalista como eu, tivesse alguma lógica.
Minha primeira explicação possível para isso talvez fosse uma certa nostalgia desesperada às vésperas do fim do mundo. A extrema direita em ascensão mundial encurralou qualquer voz de dissenso – algumas vezes pela força, mas no geral também orquestrando muito bem ações em nós diplomáticos e estratégicos, nos quais o contraponto é muito possível. Não adianta muito a opinião de quem reconhece que Maduro era um autoritário sem remissão, mas também pensa que seu sequestro foi ilegal, quando parte da comunidade venezuelana no exílio se sentiu aliviada com sua saída. Nem todos serão capachos como a Nobel de aluguel María Corina Machado, que está tentando comprar um mandato junto a Trump transferindo a homenagem. Muitos, a maioria, perderam familiares e se viram escorraçados do próprio país. O sequestro segue sendo ilegal e absurdo, um precedente do qual nos arrependeremos, mas o sofrimento em nome do qual ele é cinicamente reivindicado é real. Essa, aliás, é uma posição impopular na era da polarização por alinhamento.
E assim Trump, legitimado por uma ação, parte para a próxima, contra o Irã, por exemplo, com a comemoração meio delirante de quem acha uma boa ideia que se toque fogo nos aiatolás. E os aiatolás são sim um regime sangrento e autoritário, e o pior, teocrático. Não que eu ache que uma teocracia extremista cristã disfarçada como os atuais Estados Unidos ou um estado religioso na prática como Israel vão representar alternativa melhor em qualquer quadro… Claro, há também a aventura mais recente da demência trumpista, a Groenlândia, um território de um aliado onde vigora um regime perfeitamente normal, e ainda assim talvez receba uma invasão de presente. Fico imaginando o que o pessoal do “mal maior” vai argumentar nessa daí.
Ou seja, para dizer em bom português, estamos todos bastante fodidos, o que talvez justifique essa onda de nostalgia por 10 anos atrás, quando esse quadro ainda não era definitivo, embora os óculos róseos da memória acrítica talvez prefiram não lembrar que esse quadro já se desenhava (Temer começou 2016 na presidência do Brasil e Trump terminou o mesmo ano eleito nos EUA. Bolsonaro também já punha as mangas de fora como possível candidato após haver, no ano anterior, feito o panegírico de um torturador na tribuna do Congresso sem que nada lhe acontecesse).
Por isso tenho a impressão de que parte dessa nostalgia é um pouco escapismo diante do desespero, uma tentativa alucinada de uma última alegria alienada antes do fogo e do sangue. Falo alienada sem querer ofender, mas é a impressão que tenho quando o saudosismo é direcionado a um ano que teve, como todos, sua ampla cota de desastres e tragédias, como o acidente que contou, entre as 71 pessoas mortas, com quase todo o time da Chapecoense, na Colômbia (foto de capa); o atentado que resultou em 49 mortes na boate Pulse, em Orlando, nos EUA; outro em Bruxelas, assumido pelo Estado Islâmico, com uns 30 mortos e 300 feridos; um terremoto que deixou 280 mortos na Itália e um furacão que terminou com mais de 500 mortos no Haiti. Também 2016 foi o ano em que a situação mais se deteriorou durante os conflitos na Síria, com Aleppo como o centro de uma carnificina continuada. Essas retrospectivas saudosas ignoram tudo isso…
Outras razões
Aliás, curiosamente, enquanto eu ainda trabalhava neste texto, mais alguém teve a mesma impressão e perplexidade, porque a ZH publicou na terça-feira esta reportagem sobre o mesmo tópico: o texto, assinado por alguém chamado Isadora Garcia (não é da minha época lá dentro, acho), traz explicações ensaiadas por dois especialistas (ambas meio genéricas, na minha opinião, valeriam para qualquer outra coisa) e apresenta alguns dados que me fizeram desviar a reflexão para outro ponto da questão.
Neste texto, comentei que vinha identificando a tendência com alguma recorrência em minha bolha imediata – mas essa era uma impressão, e uma impressão é tão boa quanto qualquer outra coisa para iniciar uma crônica. Já a reportagem traz alguns números tirados das estatísticas do Centro de Criativos do TikTok (disponível aqui). Segundo os dados da plataforma apresentados pelo texto, nos últimos 30 dias, foram registrados no TikTok 682 mil posts com a hashtag “2016” – 30 mil deles no Brasil. E aí eu tive a impressão radicalmente contrária à que eu havia tido quando comecei este artigo. Achei que seriam mais.
É o problema de a reportagem simplesmente jogar os números sem contexto. Os dados não parecem grande coisa diante do volume maciço de conteúdo produzido apenas nessa plataforma: 900 milhões de postagens por mês, umas 30 milhões por dia, 66 mil por minuto. Diante disso, 682 mil posts em um mês é quase nada. Se não estivesse meio tarde pra mudar de assunto, talvez eu desistisse desse assunto.
Ao mesmo tempo, ao analisar as métricas apresentadas por esse centro de estatísticas, acho que encontro outro motivo para esse meme. Entre os usuários que embarcaram na “tendência”, segundo a mesma fonte estatística, 78% têm entre 18 e 24 anos. Aí consigo estabelecer uma possível raiz para esse meme em específico; é, talvez, uma das primeiras ondas de nostalgia a atingir a chamada “Geração Z”. Pessoas que eram praticamente crianças em 2016 hoje se veem como maiores de idade, e o choque dessa descoberta os leva de volta ao que eram, ao que gostavam, ouviam; é uma onda de nostalgia capitaneada por crianças. Se elas sabem ou não que ainda terão muitas outras nas décadas de vida que ainda têm pela frente – se, como eu aventei antes, o mundo não acabar primeiro, ainda veremos.
E eu com isso?
Bom, para não dizer que eu só falei mal do meme, vai minha própria interpretação dele. O que eu estava fazendo em 2016? Reconfigurando perspectivas profissionais. Quando o ano começou, eu fazia parte da equipe que fazia, na redação de Zero Hora, o Caderno PrOA, sem exagero ou cabotinismo, um dos melhores suplementos jornalísticos produzidos no jornalismo do RS na última década. Éramos eu, editor assistente, Cláudia Laitano, editora, e Letícia Duarte e Paulo Germano como repórteres. Diagramação de Rafael Ocaña e Thais Longaray. As reportagens eram de altíssima qualidade, o time de colunistas tinha novas e arejadas vozes e o design gráfico era arrojado e experimental. Trouxemos também como articulistas novas vozes e sempre buscávamos o comentário de nomes abalizados que tentassem fugir da turma que o jornal costumava ouvir sempre (pela própria natureza do trabalho no jornalismo diário. Se você tem uma fonte de alguma credibilidade que costuma responder rápido e estar disponível, a tendência é você ligar sempre para ela. Nos forçamos a romper esse hábito). Às vezes as coisas batiam na trave, mas é esse o saldo da verdadeira ousadia, e ousávamos.
O caderno nasceu fruto de uma conjuntura e morreu fruto de outra. Na esteira das manifestações de 2013, a ZH criou o PrOA em 2014 dentro de um projeto de cortejar a parte progressista da sociedade que ameaçava apedrejar suas janelas, mas quando a maré política mudou em 2016, o veículo resolveu atender às cada vez mais agressivas avaliações feitas pela fatia mais conservadora de seus assinantes e eliminou o caderno, substituído pelo DOC, outro bom suplemento, com uma proposta diversa e menos “experimental” – fui, então, transferido para a equipe que editava esse novo caderno.
Sobre avaliações negativas do PrOA, aliás, guardo com orgulho na memória um comentário feito por algum leitor energúmeno em alguma das nossas reportagens de então, nas quais falávamos muito de direitos humanos no exato momento em que a onda neofascista bozoloide se erguia no horizonte: “Esse caderno PROA devia se chamar PiROcA, já que só se fala de veadagem“. Não saberia dizer de quem foi esse comentário porque a ZH online, a cada nova reforma de sistema, simplesmente perde todos os comentários, então não tenho como recuperar a identidade desse luminar da raça humana; só agradeço à acurada percepção.
Voltar-se para esse meme agora dá também um certo desespero, não só pela inevitável passagem do tempo, mas pela forma como a vida que vivi (e um pouco a vida que todos vivemos, o que talvez seja outra boa explicação para o fenômeno) torna, às vezes, essa passagem imperceptível. Livros que eu li no ano de lançamento e que jurava que haviam aparecido há no máximo seis anos completaram uma década, como Simpatia pelo demônio, de Bernardo Carvalho; Enclausurado, de Ian McEwan; ou O Reino, de Emmanuel Carrère.
O maravilhoso Blackstar, álbum de despedida de David Bowie, é também da mesma época. Até A Moon Shaped Pool, do Radiohead, que eu jurava que havia saído logo antes da pandemia, descubro que tem 10 anos com as postagens desse meme. Talvez essa seja outra das razões para tanta gente ter embarcado nele: a pandemia e seus anos de suplício e lockdown e mortes desnecessárias amplificadas pela responsabilidade oficial podem ter zoado de maneira irremediável a noção do tempo de muita gente, inclusive eu, e coisas que a gente pensava ter sido ontem na verdade ocorreram há 10 anos, e isso é um choque.
Foi também meu último ano de cobertura presencial da Flip – a homenageada do ano era Ana Cristina César, e ainda assim, assisti perplexo à palestra de abertura ser com três caras: Eucanaã Ferraz, Armando Freitas Filho e Walter Carvalho. Na época, essa questão em particular não chegou a provocar uma grande estranheza porque já havia uma outra polêmica dominando as conversas antes de a festa se iniciar: como a curadoria do evento havia conseguido montar uma ampla e numerosa programação sem que houvesse participação de quase nenhum autor ou autora negros.
Em 2016, também fiz muitas entrevistas com grandes personagens, algumas delas eu reli para este texto e acho que até ficaram bem boas – não é mérito meu, e sim do que os entrevistados tinham a dizer, mas posso compartilhar o mérito de haver, pelo menos, feito algumas perguntas apropriadas. David Grossman (menos conhecido internacionalmente do que seu amigo Amos Oz, mas autor de alguns dos melhores livros sobre uma perspectiva pacifista do conflito Israel-Palestina, como A Mulher Foge), Ian McEwan (que havia recém-lançado o já mencionado Hamlet intrauterino Enclausurado), Mario Vargas Llosa (um dos meus escritores favoritos, mas já naquela época um peixe na água que morria pela boca), Peter Sloterdijk (um filósofo de direita que naquele tempo já se manifestava tão preocupado com a extrema direita em ascensão quanto qualquer esquerdista. Essa entrevista em particular foi feita em parceria com a já mencionada Letícia Duarte).
E com tudo isso, 2016 ainda foi o ano em que o Inter terminou rebaixado para a Série B do Brasileirão, então em hipótese alguma vocês vão me pegar saudosista desse ano em particular.
Se você me perguntar, eu sinto saudade mesmo é de 2006, mas isso fica para outra coluna, talvez quando rolar outro meme.
Todos os textos de Carlos André Moreira estão AQUI.
Foto da Capa: Acidente da Chapecoense / Polícia de Antióquia / Agência Brasil

