A proximidade da campanha eleitoral e os resultados de pesquisas mostrando que 63% dos brasileiros não confiam nos partidos políticos me trazem uma indagação.
Os resultados das eleições de 2026 vão consolidar o nosso caminho no rumo da democracia que garante mais igualdade, dignidade e liberdade, que começou a ser trilhado em 1989, ou teremos um novo tropeço, como o que aconteceu em 2018?
Naquele ano, depois de quatro vitórias consecutivas do PT (duas com Lula e duas com Dilma), o Brasil vivia sob o governo Michel Temer, o vice que assumira a Presidência da República no lugar da impichada Dilma Rousseff.
O cenário – marcado por altos índices de desemprego, crescimento baixo e lento do PIB, alto déficit fiscal, uma reforma trabalhista que precarizou alguns direitos dos empregados e ainda sob os efeitos colaterais das denúncias de corrupção da Operação Lava Jato – levou o povo a deixar de lado qualquer comprometimento político e experimentar o que se apresentava como a grande novidade, alguém que prometia mudar “tudo isso que está aí…”, materializado na figura de Jair Bolsonaro, que, logo se viu, de novo não tinha nada.
Ao contrário, era a personificação do antipolítico, que ataca o sistema para se beneficiar dele e desestabilizar as instituições democráticas em proveito próprio. O Brasil passou quatro anos de negativismo científico, político, cultural e flertando, perigosamente, com um golpismo atávico de alguns integrantes do governo.
Vendo em Bolsonaro o condutor de uma locomotiva a puxar o trem no rumo que lhe agradava, a direita embarcou no comboio e chegou a Brasília com os vagões lotados. Em 2018, o Congresso Nacional passou pela maior renovação desde 1990.
A bancada do PSL, partido que abrigou Bolsonaro, pulou de um deputado eleito em 2014, para 52. Outros partidos de direita também desembarcaram na Praça dos Três Poderes com muitos passageiros, como o PP, que elegeu 50 deputados, e o DEM, com 29 representantes.
O PT viu seu vagão chegar à Câmara com 56 deputados, 12 a menos que os 68 eleitos em 2014.
No Senado Federal, em 2018, a renovação foi de mais de 87%, com vitória da direita.
Bolsonaro já não é mais o maquinista. Mas o trem do bolsonarismo, ainda que sem comando, segue sua viagem. E lotado, apesar da vitória de Lula em 2022, que trouxe um pouco de luz à política e repôs o trem da democracia nos trilhos.
Na última eleição para a Câmara, a direita ficou – outra vez – com maioria folgada. Só o PL – hoje partido de Bolsonaro – elegeu 99 deputados. Ao todo, a direita e a extrema direita elegeram mais de 320 dos 513 deputados. E nessa soma eu não inclui os 42 do MDB. O PT elegeu 68 deputados federais.
E chegamos à véspera de mais uma eleição. Com alguns sacolejos no caminho. Mas chegamos. E Lula é candidato à reeleição. Com chances efetivas de vitória, apontam as pesquisas de opinião.
As vitórias da direita nas duas últimas eleições parlamentares mostram que o bolsonarismo é maior que Bolsonaro. O ex-capitão perdeu a eleição em 2022. O bolsonarismo elegeu as maiores bancadas na Câmara dos Deputados e no Senado.
Sem Bolsonaro e com vários candidatos – nenhum com a força política dele – querendo ocupar o seu lugar, a direita vai apostar todas as fichas na eleição parlamentar. Em 2026, 54 mandatos de senadores estarão em disputa. A direita já tem maioria lá. Quer ampliar, inclusive para ter poder de votar nos tão sonhados impeachments de ministros do STF.
E se o atual Congresso Nacional é ruim, o próximo, como dizia Ulysses Guimarães, pode ser pior. As pesquisas mostram que 63% dos brasileiros não confiam nos partidos políticos.
Na outra ponta, segundo pesquisa da Quaest, 73% confiam na Igreja Católica, 71% na Polícia Militar, 70% confiam nas Forças Armadas e 65% confiam nas Igrejas Evangélicas.
O cenário perfeito para o discurso fácil com que o governador do Rio defendeu a operação no Complexo do Alemão e que ganhou apoio da maioria dos brasileiros, apesar das 121 mortes: bandido bom é bandido morto e Deus protege os bons…
A democracia brasileira já deu todas as provas de que é forte. O povo já disse que não quer mais ditaduras. Está na hora de políticos entenderem que a insatisfação do eleitorado com o desempenho de cada um deles pode se transformar em descrença no projeto democrático e levá-lo a aderir a alternativas autoritárias.
A eleição de 2026 pode deixar a marca da renovação democrática ou a do retrocesso à velha política. A direita já escolheu o seu caminho: vai usar a violência e a criminalidade como mães de todos os nossos males e apontar a força como único antídoto para eles.
À esquerda, os democratas precisarão de coragem para apresentar sua receita de combate à criminalidade e neutralizar os efeitos colaterais do tratamento que a direita vai aplicar – especialmente nas periferias – sob a justificativa de enfrentamento ao crime.
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Foto da Capa: Lula Marques / Agência Brasil

