Você já reparou que, na eleição, só quem não pode errar é o eleitor?
Como assim? Todo mundo erra.
Erra, mas o peso do erro não é igual. Se o eleito errar, ele segue no cargo. Se o eleitor errar, ele segue pagando.
Pagando como?
No transporte que não chega, no hospital lotado, no imposto que sobe, na escola que piora. O erro do eleito vira rotina. O do eleitor vira castigo prolongado.
Mas o político também sofre pressão, críticas…
Sofre ruído. O eleitor sofre consequência. Crítica não tira mandato; consequência tira comida da mesa, tempo de vida no trânsito, dignidade no atendimento público.
Então votar é quase um teste sem segunda chamada? Exatamente. O eleitor pode passar quatro anos errando com foro, cargo e salário. O eleitor passa quatro anos ajustando a própria vida ao erro que escolheu.
É mesmo… E isso explica por que promessas vazias são tão perigosas. E porque memória curta é um luxo que o eleitor não pode ter. Quem esquece, repete. Quem repete, sofre de novo. Mas ninguém acerta sempre…
Verdade… por isso não se vota em perfeição, se vota em responsabilidade. Em histórico, em compromisso verificável, em quem entende que errar custa caro… É mais caro para o eleitor e para o país do que para o eleito individualmente. No fim, a urna é silenciosa, mas o resultado faz barulho por anos. E é por isso que o erro do eleitor ecoa mais alto: ele não termina na apuração. Começa ali. Então escolher bem não é heroísmo. É sobrevivência cívica.
É. Porque, na democracia, o mandato é do eleito — mas a conta é do eleitor.
Meto a minha colher nesse mexido aí sobre a eleição deste ano. Este 2026 é, sem dúvida, o que começa mais tenso desde a volta da eleição direta. Pela décima vez seguida, vamos votar para Presidente da República. Se somarmos a esse período o tempo de governo de José Sarney, temos 41 anos de democracia. O mais longo da história. E, apesar dos pesares, talvez, também, o mais feliz.
A tensão vem de dentro do Congresso. A direita não se conforma com a condenação de seus líderes pela tentativa de golpe em janeiro de 2023. Surtou com o veto do Lula ao projeto de anistia disfarçada de redução das penas aos golpistas e pela mão (direita) do senador Esperidião Amin, no mesmo dia em que Lula vetou o chamado Projeto da Dosimetria, correu para apresentar uma proposta de anistia ampla, geral e irrestrita aos golpistas…
Apesar de as pesquisas mostrarem que 50% dos brasileiros consideram que Bolsonaro merece estar preso, há quem tema que a maioria direitista no Congresso Nacional, eleita em 2018 e reeleita em 2022, derrube o veto de Lula e, quem sabe, aprove o projeto do ainda senador catarinense.
Mas uma coisa é atuar nos bastidores a favor da libertação dos condenados pelo 8 de janeiro de 23, outra é aparecer, durante a campanha eleitoral, defendendo os golpistas. Então vamos ver muito jogo de cena e pouca ação firme em favor dos condenados…
Com seu líder debilitado politicamente desde a intentona de janeiro de 2023 e impedido de disputar eleição por decisão da Justiça, a direita vai fingir um esforço para viabilizar a candidatura de Flávio Bolsonaro contra Lula e, de verdade, trabalhar para manter e até, quem sabe, ampliar a maioria que tem no Congresso Nacional desde o advento do bolsonarismo em 2018. Equívoco eleitoral que o povo paga até hoje.
Com o poder que foi entregue a eles por Bolsonaro na gestão 2019/2022, os representantes do conservadorismo extremado na Câmara e no Senado só precisam manter ou ampliar suas bancadas para garantir os meios de pressão e obter concessões do Poder Executivo, principalmente as financeiras…
Na campanha, vão gritar contra o STF, muito mais para segurar os votos de quem ainda crê no bolsonarismo do que, efetivamente, para forçar qualquer mudança no Poder Judiciário. A mesma gritaria que vão manter contra Lula até que – convencidos da derrota – diminuam a voz para agradecer a oferta de algum ministério…
Enfim, a eleição deste ano é a mais importante desde a redemocratização. Além de dizer quem será o presidente, vamos escolher as mulheres e os homens que vão decidir o rumo da República no Congresso Nacional.
A direita – sem candidato viável à Presidência da República – vai jogar todas as fichas na eleição ao Senado e à Câmara. Por isso, como diz um dos contricantes do diálogo ali em cima, este ano estamos tratando da sobrevivência cívica. O resultado da eleição pode nos levar, de mãos dadas, na direção da utopia, ou nos empurrar – pelas costas – no abismo da distopia.
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Foto da Capa: Rodolfo Stuckert / Acervo Câmara dos Deputados

