É nos dias frios do inverno trazidos pelo mês de julho a época em que mais fortemente me vêm à memória as manhãs da minha infância e adolescência. Quando eu acordava para ir à escola, minha mãe estava de pé há horas, trabalhando na produção de pães e quitutes. Essa era apenas parte da sua jornada de trabalho, pois, clareado o dia, lá ia ela, professora da rede estadual de ensino, lecionar e levar produtos para vender.
Esse é o exemplo mais simbólico de empreendedorismo que carrego comigo. Nada do empreendedor romantizado muitas vezes na literatura ou nos conteúdos das redes sociais. Mas, sim, da pessoa que vai dormir cansada e acorda cansada, às 4 da manhã, zero grau, para fazer o que tem que ser feito, porque é preciso. Maria Salete Freitas da Silva é minha mãe e minha referência, também no empreendedorismo.
Costumo dizer que o empreendedor de periferia não cria a própria empresa, mas o próprio emprego, dada a imensa dificuldade de acessar o mercado de trabalho e conquistar mobilidade social. Mas nossa história não é única, somos tantos e tão plurais.
Um estudo do Instituto Nós mostra que 40% dos empreendedores de periferia o fazem por necessidade, e cerca de 60% de quem empreende nas comunidades são mulheres. Neste mês, que chamamos Julho das Pretas, para além dos negócios, o foco está em ressaltar a força e o impacto das mulheres pretas no Brasil e no mundo, embalado pelo dia 25, em que celebramos o Dia da Mulher Afrolatino-americana, Afrocaribenha e da Diáspora e o Dia de Tereza de Benguela.
Fato interessante é que muitas mulheres, como minha mãe, não se consideram empreendedoras. Se percebem apenas como alguém que faz o necessário. Maria Salete tinha o objetivo de aumentar a renda da família, de melhorar a nossa casa e, até mesmo, poder viajar, algo que sempre amou!
Hoje, está aposentada como servidora pública da educação. Formada em Letras, foi a primeira pessoa da família a fazer uma graduação. Apesar disso, o salário de “profe”, quando não atrasado, era insuficiente para dar conta das despesas da casa. Seus sonhos sempre foram para além do sobreviver, mas sim do poder viver e proporcionar a nós uma vida melhor. E olha que a mão boa da ancestralidade lhe deu habilidade para produzir pães deliciosos, bolos, pizzas, roscas, panetones. Só de lembrar, hummmmm… uma delícia!
Contrapondo com o sabor dessas delícias de uma recordação infanto-juvenil, estava o frio, o cansaço, as madrugadas, por vezes sozinha, e em tantas outras acompanhada da minha tia Marlene. “No inverno, o pão demora mais a crescer”, ela dizia. Sendo assim, quanto mais frio, mais cedo precisava levantar.
E você, quantas Marias Saletes conhece? Que estuda, ensina, trabalha, empreende, materna e ainda acolhe a família com muito afeto?
Fiz a minha trajetória na área de tecnologia, área majoritariamente masculina, patriarcal e restritiva. Porém, esse quadro está mudando e trago aqui alguns nomes de mulheres pretas em TI para que você possa conhecer suas histórias e se inspirar, pois, afinal, o julho é das Pretas!
Com 20 anos de atuação no ecossistema de Tecnologia e Inovação, é especialista em Curadoria e Experiências de Engajamento para times de tecnologia com foco em Diversidade e Inclusão de Raça e Gênero. Fundadora e diretora executiva AfrOya Tech Hub, é uma das personalidades negras mais influentes da Lusofonia pela Bantumen/Powerlist. Reconhecida como Linkedin Top Voice em Inteligência Artificial 2023, atua como palestrante e mentora de comunidades, de startups e de profissionais de TI. Também atua como pesquisadora independente em Governança da Internet, Ética e Justiça em Inteligência Artificial, com o tema Discriminação Algorítmica nas plataformas de empregabilidade.
Tais Ribeiro
Também conhecida como Tata Ribeiro, é uma ativista pela inclusão de pessoas negras e mulheres no campo da tecnologia, com foco na área de jogos. Ela é a idealizadora do Black XP Game Jam, um evento que busca promover a diversidade e representatividade na indústria de jogos, indo além da etnia dos personagens e dos consumidores. Designer, product manager na AimoTech, é doutora em Educação e mestre em Gestão e Tecnologias Educacionais. Atua ativamente para que a diversidade seja refletida em todas as etapas da produção de jogos, desde a criação até o consumo, segundo o Scream Labs.
Formada em Ciências da Computação pela PUC-Rio, foi pesquisadora assistente do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getúlio Vargas (CTS-FGV), no qual publicou o artigo Deepfakes: ferramenta antidemocrática. Mestranda em Inteligência Artificial na Unicamp, está se dedicando à pesquisa sobre justiça algorítmica. Foi membro do Conselho de Transparência das Eleições 2022 e do grupo de transição de telecomunicações do Governo Lula. Também integra o Conselho de Segurança do TikTok Brasil desde 2021. Colunista da revista MIT Technology Review, foi incluída na lista Forbes 30 Under 30 da Forbes Brasil.
Kizzy Terra
Cientista de dados, palestrante e co-fundadora do canal no YouTube Programação Dinâmica. É conhecida por seus vídeos sobre programação, ciência de dados e novas tecnologias. Engenheira de Computação pelo Instituto Militar de Engenharia (IME) e mestre em Matemática Aplicada pela FGV-RJ. Além disso, Kizzy tem experiência em pesquisa, tendo trabalhado no IPEA e IBGE e atuado como cientista de dados sênior na Cyberlabs. Também é professora no Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP).
Fausto Vanin é um agente de transformação digital que utiliza a tecnologia para impulsionar mudanças sociais. Com doutorado em Computação Aplicada e certificação em Inovação e Estratégia pelo MIT Sloan School of Management, ele é cofundador da OnePercent, empresa referência em blockchain, e da Lanceiros, que desenvolve soluções tecnológicas com foco na redução de desigualdades. Também é mentor, palestrante, e voluntário em organizações do terceiro setor, como Odabá, Aldeia da Fraternidade e Social Good Brasil. @faustovanin
Todos os textos dos membros da Odabá estão AQUI.
Foto da Capa: Maria Salete, Acervo Pessoal do Autor.

