A meu amigo Flávio Brayner.
Foi efetivamente Brayner quem motivou as pílulas de reflexão que se seguem, com sua carpintaria textual usual, na coluna semanal que mantém no jornal diário da cidade de Recife, o Jornal do Commercio, onde acabou de publicar texto intitulado “Uma vida numa sala de aula”. Nesse texto, Brayner percorre 50 anos de estrada profissional e existencial, que ele resume numa frase: “Fui e permanecerei professor. Nessa ou em qualquer outra vida que me for oferecida.”
Há momentos da vida, seja em função de colisões dramáticas (para usar a expressão conceitual proposta por Georges Politzer), seja em termos de processos mais lentos e paulatinos, como o envelhecimento, ocasião em que nós olhamos para dentro, para fora, para trás e para adiante e nos perguntamos o que fomos, o que fizemos, afinal.
Esta não é uma pergunta sem riscos. Will Rogers, um desses gurus (ou “coachs”) da contemporaneidade, que distribuem pílulas de sabedoria em no máximo 100 palavras, escreveu (tradução minha) que “mesmo que você tenha feito uma boa escolha de caminho, isso valerá pouco ou nada se você apenas se sentar no meio-fio, orgulhoso da sua escolha.” Esta máxima tem certo valor heurístico-existencial, apesar do jeitão de mantra em biscoitos de restaurante chinês-brasileiro. Isto posto, quais foram minhas trilhas de aprendizagem? Roland Barthes propôs haver uma idade em que se ensina o que se sabe; lembro, aliás, o quão sabido me avaliava no frescor do terço inicial da atividade docente. O mesmo Barthes sugere, contudo, que, em seguida, o docente em caminho de maturação passa sobretudo a ensinar o que não sabe; eu ousaria acrescentar que, nesta etapa, quando bem-sucedida, se ensinam os caminhos para construir conhecimento, em vez de se reproduzirem fórmulas. Na terceira e última etapa deste périplo de desenvolvimento de ensinantes, sempre segundo Barthes, se passa a desaprender. Não se trata aqui de algo simples, pois não se trata de regredir, de cancelar acervos acumulados. Trata-se, antes, de “deixar trabalhar o remanejamento imprevisível que o esquecimento impõe à sedimentação dos saberes”, que este autor vai denominar Sapientia: nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria, e o máximo de sabor possível (Roland Barthes, “Lição”, aula inaugural da cadeira de Semiologia Literária proferida por Barthes no Collège de France em 7 de janeiro de 1977). Eu avisei que não era simples.
Não ouso propor ter chegado nem perto desse Nirvana existencial da Sapientia barthiana. No máximo, aprendi a levar menos a sério alguns ensinamentos quase-religiosos, destes que organizam paradigmas, seitas acadêmico-científicas, panelinhas. Aprendi a paulatinamente substituir a noção de verdade pela noção de verossimilhança. E paro por aqui, pois isso não me parece pouco, apesar de não se tratar de processo concluído.
Quanto ao que ensinei, para além do compartilhamento do princípio da renúncia ao princípio da verdade (notadamente à verdade baseada na captura de dados empíricos do mundo exterior), avalio poder propor, como legado de que me orgulho, o caráter de ciência efetiva das ciências humanas – que, para muitos, não passariam de um faz-de-conta epistemológico risível. As ciências humanas são científicas na medida em que conseguem se aproximar do ideal do rigor (não da verdade!…). Um dos domínios das ciências humanas em que militei a vida inteira, a Psicologia, pode ser tão rigoroso quanto a Física ou a Biologia. Apesar de tudo, essas ciências possuem áreas de atuação bastante distintas: enquanto as ciências naturais se dedicam a buscar explicações, as ciências humanas — em especial a Psicologia — têm como objetivo principal alcançar a compreensão. Muitos outros, antes de mim, contribuíram para esta distinção crucial, com especial relevo para Wilhelm Diltey.
Busquei ainda ensinar uma psicologia que preenchesse os requisitos necessários à resistência face à superficialidade e utilitarismo pseudopragmático da contemporaneidade. A psicologia corre riscos imensos. Flávio Brayner, em sua coluna aludida acima, apresentou há não muito tempo o livro do colega pernambucano Spencer Hartman Jr., cujo título questiona se “É o fim da Psicologia – Em tempo de cinismo, ressentimento e (in)felicidades”. São tempos especialmente difíceis para a psicologia – tanto como ofício quanto como domínio de conhecimento. Somos hoje, no Brasil, uma comunidade de mais de 500 mil psicólogas e psicólogos, segundo dados atualizados fornecidos pelo Conselho Federal de Psicologia; ainda segundo esta entidade, o Brasil apresenta atualmente a maior concentração de psicólogas e psicólogos do mundo inteiro. Vejo esse dado com imensa preocupação, mas essa é uma outra conversa. O ponto, aqui, é o esforço que se faz necessário, e que procurei exercer, no sentido de não contribuir para a banalização da psicologia, para a sua perda de rigor científico, para seu fim, nos termos do grito de alerta do Prof. Spencer Hartman.
Procurei finalmente ensinar aos meus alunos e minhas alunas que o conhecimento é muito, mas não é tudo. Há pelo menos uma dimensão, um eixo cartesiano que cruza o eixo do conhecimento – o eixo do desenvolvimento ético-moral. Tais eixos – conhecimento e ética – constroem um plano cartesiano com quatro quadrantes: o quadrante dos que detêm acervo respeitável de conhecimento, mas são pessoas sórdidas; o quadrante dos sórdidos e de ignorância crassa; o quadrante das pessoas eticamente impecáveis, e de notório saber, e, finalmente, o quadrante dessas pessoas do bem, mas sem conhecimento notável a compartilhar. Busquei motivar meus alunos a buscar os quadrantes habitados por pessoas decentes e com acervo de conhecimento respeitável, mas evitar a sordidez a qualquer custo.
Pois a psicologia não flutua sobre o Bem e o Mal, mas antes recebe o tempo todo influxos de luz e de treva.
No final das contas, esse foi um dos pontos cruciais de meu aprendizado, e de meu ensino.
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Foto da Capa: Flavio Brayner / Reproduçao Anped

