Quem já ultrapassou meio século de vida sabe que 60 é um bom número, que dirá 70, 80, 90… Mas essa soma dos anos vividos, além de contar suas histórias, vivências, aprendizados e intensidades, começa, numa ironia atrevida, a demonstrar que a adição dos números tem sua carga, exigências e dificuldades. Vai ficando mais ‘pesado’, de fato. Busco somar quantas crianças, adolescentes ou jovens adultos enfileirados dariam um idoso, todos com suas histórias e aprendizados reunidos como um só. Privilégio ter saúde e discernimento é o que se espera para dar conta dessas transformações e, ao olhar para trás, vislumbrar a perspectiva de ter formado gente do bem, construído coisas boas, inspirado a coragem em outros, apesar dos tantos vacilos comuns a todo o humano que tem na vida a própria evolução.
No dia 03 de fevereiro, li uma matéria da série “Envelhecer” (g1) que destaca o crescimento do mercado de trabalho para pessoas acima dos 60 anos. Nesta, o enfoque dirige o tema como uma realidade irreversível e coloca em xeque os preconceitos associados à idade. Com dados de 2023 da Fundação SEADE, ressalta que em São Paulo, o número de pessoas com mais de 60 anos ocupadas foi 55% maior do que em 2014. Esses números trazem a impressão de vivenciarmos um mundo paralelo com a idade da calma, do compromisso, da consciência de limites frente aos jovens trabalhadores de hoje, tão imediatistas, impacientes, exigentes. E, mesmo assim “limitados”, são esses velhos, em constante adaptação, ajustamentos, moldagens, paciência e uma certa inocência tecnológica que o mercado de trabalho busca. Dinossauros jogados a um mundo volúvel, apressado e aos teclados, que têm afinidade com a caligrafia, pesquisa em bibliotecas, telefone de manivela, ao ‘fio de bigode’. É como bater de frente com dois mundos. Talvez seja por um desses motivos que o velho começa a ficar em alta para o trabalho e as ideias. A bagagem desses dinossauros surge para despontar no jogo evolutivo que conecta pessoas, espaços, continentes, conceitos, respostas e natureza.
Acontece que esse paradoxo salvacionista tem um porém. O fato de envelhecer gera demandas para a possibilidade de manter ativo e lúcido qualquer ser humano no prolongamento da vida economicamente ativa. Traz à pauta muitos itens para assegurar a saúde, como dormir bem, evitar estresse, ter atividade física, ter uma boa alimentação e, então, evitar doenças degenerativas físicas e mentais. Quantos idosos conhecemos que cuidam do que comem para cuidar da saúde do corpo e da mente? É um processo a ser pensado somente para o idoso ou uma construção de vida para se tornar o idoso ativo?
A revista Nutrients, de fevereiro de 2023, publicou um artigo ressaltando o impacto do consumo de nozes na cognição ao longo da vida. Essa revisão discute as evidências mais recentes sobre os efeitos das nozes no desempenho cognitivo. Embora inconclusivas e limitadas, sugerem o papel positivo da ingestão contínua das nozes na manutenção da saúde mental e na prevenção do declínio cognitivo em indivíduos ao longo da vida, particularmente em idosos. Mesmo cientes das necessidades de mais estudos, o artigo ressalta que as oleaginosas são promissoras na manutenção do idoso saudável e no aumento da expectativa de vida.
É importante esclarecer que, apesar de os estudos falarem nas doenças neurodegenerativas relacionadas com as idades mais avançadas, o desenvolvimento cerebral e a saúde cognitiva são impactados ao longo da vida, desde a fase fetal na gravidez até a idade adulta. E, dentre os componentes do estilo de vida que influenciam a saúde cerebral, a nutrição apresenta grande potencial ao longo do crescimento do ser humano. Xeque! A saúde física e mental do idoso começa na criança e precisa de alimentação de qualidade! A velha dupla arroz e feijão sempre está em alta.
A realidade se repete e a alimentação da população é discutida continuamente no intuito de manter uma vida plena. Tanto no cérebro como em todo o desenvolvimento corporal, o que se come pode afetar diretamente ou indiretamente fatores de risco compartilhados por inúmeras doenças, assim como as cardiovasculares, influenciando na cognição e no risco de demência. Muitos estudos demonstram que o estresse oxidativo (que é um desequilíbrio entre a produção de substâncias oxidantes – radicais livres – e a capacidade natural do corpo de neutralizá-las para evitar danos nas células e DNA) e a inflamação desempenham um papel importante no início e na progressão de doenças neurodegenerativas, impactando na capacidade do idoso de viver e produzir. O artigo da Nutrients destaca que alimentos e padrões alimentares ricos em antioxidantes são estratégias potenciais para promover um envelhecimento saudável. Ressalta dados e estudos relacionados com o declínio cognitivo direcionado à idade entre adultos mais velhos de diversas populações com padrões alimentares à base de plantas ricas em antioxidantes, incluindo as nozes. Não é uma ação salvacionista, mas uma compreensão mais ampla para a boa e variada alimentação.
Então, para que servem os nutrientes das oleaginosas? Bom, vamos expandir as explicações. Basicamente, temos reações diárias e normais no corpo com os chamados processos oxidativos (que é a perda de elétrons por átomos, íons ou moléculas nos processos biológicos) como a respiração celular na geração de energia e inúmeras outras operações em nossas células, que mantêm o metabolismo do corpo humano. Essas ações geram moléculas instáveis que são os radicais livres. Eles, em pequenas quantidades, são transformados pelos nossos antioxidantes (fabricados pelo próprio corpo, como a glutationa) que dão conta de estabilizar e manter todo o organismo funcionando corretamente.
Porém, o excesso desses radicais livres gera o chamado estresse oxidativo, que acaba por prejudicar as nossas células, provocando doenças, inflamações, envelhecimento e mau funcionamento geral do organismo. Então, como mencionado, na maioria das vezes o nosso corpo dá conta de restaurar o equilíbrio, mas pelo estilo de vida, alimentação equivocada, doenças, poluição, agrotóxicos, estresse, idade e outros, os nossos ‘soldados’ não dão conta de todo o estresse oxidativo gerado e é necessária a inclusão externa de antioxidantes para auxiliar nesses processos. É aqui que as oleaginosas (e não só elas, mas uma enormidade de outros alimentos) entram, pois são ricas em fitoquímicos, fitosteróis, tocoferóis, polifenóis que atuam contra os agentes do estresse oxidativo e inibem as vias inflamatórias, ativam as vias antioxidantes, reduzindo inclusive a oxidação da LDL (com redução de processos aterogênicos e protegendo para doenças cardiovasculares).
É aí que as oleaginosas podem também ser auxiliares no envelhecimento saudável. Estudos apontam que a inclusão de +-30g/dia traz benefícios na manutenção do tamanho dos telômeros, na função cognitiva e na melhora das funções musculares. No que se refere à proteção dos telômeros (que são capas que protegem os cromossomos e refletem a idade cronológica pela diminuição do seu tamanho) e ao encurtamento deles (fato que tem sido associado a várias patologias neurodegenerativas, cardiovasculares, diabetes 2, hipertensão), as oleaginosas e seus compostos parecem atuar nas vias antioxidantes (Nrf2) que ativam enzimas e agem no aumento da citoproteção e inibição do processo inflamatório por redução da via do NFkB. Os estudos observacionais mostram a possibilidade da ação das oleaginosas na dieta, como a do tipo mediterrânea, auxiliando no aumento de telômeros (Nutrients Journal). Como também, na ação cognitiva, ao oferecer uma melhora no fluxo sanguíneo e cerebral e, com isso, o fornecimento de nutrientes com propriedades anti-inflamatórias ao cérebro, promovendo uma diminuição dos riscos de comprometimento cognitivo.
É preciso ter consciência de que não existe um alimento ou ingrediente milagroso, mas para ser um velho saudável é importante definir um conjunto de estratégias e uma alimentação básica de boa qualidade, livre de ultraprocessados e açúcares em excesso desde o ventre materno.
Denise Preussler dos Santos é jornalista (Unisinos), com mais de 180 artigos publicados em jornais do interior. Tem publicações na Revista Teias, Labrys, Revistas Eletrônicas Puc, Revista de Educação, Linguagem e Literatura-UEG Inhumas. É mestra em Educação (Ulbra) e terapeuta integrativa. Atualmente, cursa Nutrição (Uniasselvi).
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