Uma mulher daqui da cidade de Natal (RN) foi agredida há alguns dias por um homem com quem mantinha relacionamento, em um elevador do prédio em que morava. Nesse ato, o homem a agrediu com sessenta socos, registrados pela câmera de segurança do elevador onde ocorreu tal episódio. Na distopia para a qual somos arrastados por tal episódio, causou especial admiração nas redes sociais em que a cena viralizou a quantidade de socos, desferidos num espaço de tempo de pouco mais de um minuto. Uns e outros comentavam que “sessenta” teria sido demais da conta, o que permitiria supor que “dez”, talvez “cinco”, teria sido aceitável… Horror. Aliás, defendo que de fato houve sessenta socos e mais um – aquele que foi desferido em mim, em você, leitora ou leitor, em quem mais seja.
Há alguns anos, um dos meus filhos, então um garoto de seus 12 anos, me perguntou à queima-roupa, num percurso de carro em que estávamos eu e ele, se “ser um homem heterossexual era uma coisa ruim”. A pergunta, em princípio, me impactou, mas depois pude entender de onde tinha surgido, tendo em vista as irmãs feministas-militantes irascíveis, suas conversas entre elas e com amigas, suas avaliações do quão tóxicos seriam esses tais “homens heterotops”. A resposta ao meu filho buscou ser sincera, honesta, e não foi fácil. Comentei com ele que, cinquenta anos atrás, talvez a pergunta que eu faria a meu pai (se tivesse havido espaço para tais tipos de pergunta em nosso relacionamento) teria sido se “ser um homem homossexual era uma coisa ruim”. Os tempos mudaram drasticamente. Disse a meu filho que nós, homens, não somos definidos por nossa identidade de gênero, mas que havíamos cometido alguns erros graves, tínhamos tido alguns comportamentos lamentáveis, notadamente em relação às mulheres. E o convidei a pensar sobre isso, para continuarmos a conversa. Continuamos a pensar sobre os caminhos para desconstruir essa avaliação negativa acerca dos “homens heterossexuais”, sem necessariamente deixar de sê-lo.
Como lidar com uma cena disseminada em redes sociais de um homem, em elevador social de condomínio residencial, que agride uma mulher, outrora sua namorada, sem se importar com a câmera de segurança neste elevador? Que a agride com sessenta socos, todos no rosto, que exigiram cirurgias especializadas para reconstituição do que restou desse rosto?
Vamos por camadas. Do ponto de vista do regramento social, trata-se de delito tipificado, pelo qual o agressor já foi detido e desceu aos infernos do sistema prisional brasileiro, queixando-se, através de seu advogado, que vem sofrendo maus-tratos e ameaças de outros apenados. Queixas que, pelo que ouço e leio aqui e ali, não despertam solidariedade e compaixão, pelo contrário. Do ponto de vista da microcultura masculina que se manifesta nos redutos que ainda persistem (como percursos em táxis e assemelhados, oficinas mecânicas, mesas de bar em happy-hours masculinas, dentre outros), a agressão que tomou as redes é “errada”, mesmo que se considere que às vezes as mulheres “exageram” (o que pode ser lido, aqui, como “fazem por merecer”); nesse contexto, o problema não é a agressão, mas o exagero, a “dosimetria”… Cabe mencionar que, nesses contextos sociais de final de expediente, se constata, aqui e ali, mulheres que aparentemente compartilham a perspectiva de que “homem não deve bater em mulher, mas tem mulher que não tem noção”… Do ponto de vista, aliás, de algumas mães de homens agressores de mulheres, eles teriam sido vítimas de situações-limite, levados à loucura por mulheres sádicas terríveis (o agressor potiguar chegou a alegar “crise de claustrofobia no elevador” agravada pelas agressões verbais na altercação com a mulher agredida…). Há, ainda, mulheres feministas radicais, defensoras da repressão drástica de atos de agressão de mulheres por homens, abarcando desde a chamada castração química até penas alongadas de cadeia, em crimes configurados como hediondos. O espectro ainda abarca os “acadêmicos”, a ressaltar o caráter processual de violência social e intrafamiliar, que produziria esses homens agressores, meros frutos de uma estrutura social destroçada, em que muitos dos agressores têm passado de agredidos.
Falemos do sexagésimo primeiro soco, aquele que não foi desferido de fato, mas se dissolveu em cada um dos sessenta socos reais desferidos contra o rosto da mulher, e que nos atingiram a nós outros, observadores estupefatos desta cena social lamentável. De minha parte, senti este soco na cara em três planos: o retorno daqueles temores do “homo homini lupus” – o homem lobo do próprio homem – fera dentre as piores feras predadoras. O homem (aqui em termos de espécie humana) que traz em si o que há de pior, de mais selvagem, predador e violento em todo o reino animal – veleidades Iluministas aqui reduzidas a perfumarias a serem desconstruídas em elevadores de condomínios; em segundo plano, lutando contra o fantasma leporino, ou tentando pelo menos construir nuances, o papel social do “jovem macho mimado” ou “pit-boy”, capaz de reação violenta sempre que se sente, de alguma forma, contrariado; em terceiro e último plano, diretamente relacionado com o plano anterior, o “senhor de engenho dono de corações, mentes, genitálias e todo o resto”, não disponível para embates de visões de mundo. Planos de um a três conducentes à porrada, à barbárie, ao estupro, de onde o ataque às fantasias esperançosas de uma humanidade rumo à luz. E o incômodo do sexagésimo primeiro soco.
Não avançamos muito quanto à abordagem da questão da natureza deste sexagésimo-primeiro soco, como lidar com ele e com os outros sessenta socos. Por associação de ideias, recordei trecho de marchinha de carnaval da década de cinquenta do século passado, que os de minha geração conhecem: “Já se acabou o tempo / Que a mulher só dizia então / Xô galinha / Cala a boca menino / Ai ai não me dê mais não”. Tal marchinha, intitulada “Cala a boca, menino”, do genial compositor pernambucano de frevos Capiba, se inicia, aliás, de forma engajada, estabelecendo que “(…) numa mulher / Não se bate nem com uma flor / Loira ou morena / Não importa a cor / Não se bate nem com uma flor”. Só que ainda não, como mostram as estatísticas de homicídios e atos violentos em geral cometidos por homens contra mulheres, no Brasil contemporâneo.
Esgotadas as tentativas de busca de uma essência ontológica humana, oscilando entre anjos e demônios, ainda acredito na possibilidade civilizatória do Contrato Social, conducente a um arranjo rumo a posturas e papéis que, mesmo que pareçam não servir para todos e todas, devem servir de referência e padrão, SIM, para todos e todas. A história da humanidade é pródiga em registros desses acordos, como é o caso da Lei Mosaica estabelecida nos dez mandamentos gravados na pedra. Então é o seguinte: 1. Não matarás, nem distribuirás murros e sopapos ao redor; 2. Em caso de discordância, usar a palavra e não o tacape (mesmo com o tacape de prontidão sempre); 3. Persistindo o impasse, buscar mediação de alguém ungido para tal mediação; 4. Em caso de desobediência aos preceitos do Contrato, penalidades. 5. Em caso de desacordo ou oposição a casos de aplicação do Contrato, encaminhamento por caminhos estabelecidos pelo próprio Contrato, sem regressão à barbárie pré-contratual.
Não chegamos a nenhum insight original, ao final das contas. O antídoto para o mal-estar em relação aos sessenta e um socos é a retomada da sacralidade de nosso Contrato, com ênfase para a Lei Capiba, que estabelece que em mulher não se bate nem com uma flor. O que é corolário de lei maior, que estabelece que não se bate em ninguém, nem se ministram choques elétricos, nem se planeja assassinar opositores, mesmo que não sejam flores que se cheirem. Civilização é luta renhida e continuada para a qual todos estão incumbidos, não importando nuances de personalidade, tonalidade da pele, padrão cromossômico, identidades psicossociais, times de futebol de preferência. Fora disso, é a barbárie. Que ronda e rondará sempre, do trânsito urbano a elevadores em condomínios, passando por Congressos de representantes.

Minha liberdade começa quando a sua começa. Liberdade é bem coletivo sempre provisório.
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