A adultização é um processo no qual crianças e adolescentes são expostos a conteúdos inadequados ou forçados a comportamentos impróprios para suas idades. O termo se popularizou recentemente com o vídeo do influenciador Felipe Bressanin, ou Felca, que expõe diversos perfis e vídeos de crianças e jovens adultizados. A temática abordada por Felca provocou uma intensa discussão entre internautas, políticos, blogueiros e a população brasileira nas últimas semanas.
Embora o tema esteja muito popular na mídia, observei que apenas adultos têm falado sobre ele. Então, inspirada pela pesquisa e pelo trabalho tão importante do Felca, decidi mostrar a minha perspectiva, de adolescente de dezessete anos, sobre o problema da adultização.
Há uma frase adaptada dos escritos do autor moçambicano Mia Couto que diz: “A infância é um território sagrado. Quem a invade sem permissão, destrói templos de sonhos.” Acredito que ela corrobore com o que sempre pensei, pois, para mim, a infância representa um espaço muito especial, é nela que desenvolvemos a imaginação e temos os primeiros sonhos, esperanças e enxergamos o mundo pela primeira vez. Por causa disso, eu nunca quis apressar uma determinada etapa da minha vida, mas conheço muitas pessoas que, na infância, queriam se tornar adultos depressa.
Na adolescência, essa questão é ainda mais evidente, digo isso porque conheço muita gente que quer viver como adulta, apesar da pouca idade. Trago um exemplo que não costuma ser muito discutido, na verdade, acredito que nunca li algo que expusesse isto. Nunca fui muito adepta às redes sociais, mas as utilizo para compartilhar os meus trabalhos de escrita e anunciar lançamentos literários, funcionando como uma ferramenta de divulgação.
Percebo que muitas vezes sou ignorada por tratar apenas desses assuntos e não compartilhar muito da minha vida pessoal, até porque não acho um ambiente seguro para isso, por esta razão mantenho o meu perfil no Instagram privado. Porém, já perdi as contas de quantas vezes vi colegas e amigas, todas com menos de dezoito anos, postando fotos de biquíni, recebendo muito mais retorno e elogios, até incentivo de homens adultos para continuarem com as postagens.
É claro que eu não estou pedindo likes, pois, como disse anteriormente, nunca fui muito de usar redes e elas não me influenciam, nem na minha vida pessoal, tampouco no meu trabalho como escritora. Mas será que essas meninas, recebendo um reconhecimento excessivo somente quando mostram as partes do corpo, não são induzidas por adultos a pensarem que apenas serão admiradas ao se exporem seminuas nas redes sociais? Será que a sociedade não está passando o recado de que só temos apoio e valor quando divulgamos o nosso corpo e não os nossos pensamentos?
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Foto da Capa: Freepik

