Os grandes escritores da minha vida são todos homens. Sou cria do século XX, em que poucas mulheres haviam sido publicadas. Portanto, na biblioteca de meu pai, da cidade e das escolas em que estudei, elas sempre foram a minoria. Uma grande minoria incapaz de alterar o meu mundo de menina e de adolescente em uma cidade do interior. Em 2021, quando elaborei um projeto de leituras e escrita a ser realizado dentro de um presídio, tive de pedir à coordenação para que eu pudesse reorganizar os livros que tinham, criando uma estante com os escritos por mulheres que lá já estavam, uma quantidade inexpressiva, com os que eu iria arrecadar. Não que a biblioteca tenha ficado excelente, mas, por diversas vezes, precisei de uma mala de rodinhas para dar conta do volume de exemplares que recebi.
Dostoiévski, que está entre esses grandes, disse: “A vida é mais fantástica do que qualquer fantasia”. Em que livro está essa frase, não sei. E considero meio missão impossível agora encontrá-la. Como referência, cito o Esculpir o Tempo, de Andrei Tarkovski. Ele a cita em um trecho em que reflete sobre a importância de encontrar significado naquilo que, mais que se observa, se contempla com calma, sem a ilusão de que podemos atropelar ou mesmo dar uma volta no tempo.
Eu gosto de pensar sobre o tempo em vários aspectos, principalmente em como ele se relaciona com a arte, os sonhos e as nossas experiências. Em 2007, acamada por causa de um problema de saúde perigoso, mergulhei no mundo de Fernando Pessoa, e dois livros me pegaram pela mão: Quando Fui Outro, organizado pelo escritor Luiz Ruffato, que vim a conhecer e a estimar alguns anos depois, e o Livro do Desassossego, composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa e meu heterônimo preferido desse português genial.
E o que disse Soares que me impactou tanto? Inumeráveis ideias. Na minha edição, publicada pela Companhia das Letras, são 509 páginas de textos. Mas é óbvio que tenho as minhas preferidas. Na página 231, está o que considero o coração do livro e da minha própria visão sobre esse mundinho em que, bípede, tento não sofrer uma debacle irreversível. Dizem alguns estudiosos de Pessoa que, em sua obra, ela aparece como um tema recorrente, pois está quase sempre presente a ideia de fragmentação do ser, da perda ou dissolução da identidade. Não sei. Sei que Bernardo Soares abre o trecho dizendo:
“Quanto mais avançamos na vida, mais nos convencemos de duas verdades que todavia se contradizem. A primeira é de que “perante a realidade da vida, soam pálidas todas as ficções da literatura e da arte” e a segunda é de que “sendo o desejo de toda alma nobre o percorrer a vida por inteiro, ter experiências de todas as coisas, de todos os lugares e de todos os sentimentos vividos, e sendo isso impossível, a vida só subjetivamente pode ser vivida por inteiro, só negada pode ser vivida na sua substância total”.
E aí me junto a Sêneca quando ele diz: “O que quer que um outro disser bem, é meu”. Tenho um temperamento convergente com tirar o melhor proveito de tudo o que chega até mim. A inteligência alheia me alegra. Sofro quando tenho de concordar com o Caetano Veloso naquela entrevista em que ele diz “você é burro”. Porém, tampouco me contenta impingir aos outros os meus pensamentos, mesmo porque eles mudam, se reconfiguram e, por vezes, se debatem entre si, como irmãos que, por se entenderem, podem entrar em conflito. Certa vez, me disse um psicanalista que não há nada de errado em se brigar desde que os envolvidos sejam pessoas que sabem fazer as pazes.
Fazer as pazes com a vida considero fundamental. A vida é uma criatura implicante, malvadinha quando não supermalvada e traiçoeira, que só funciona graças ao mal-entendido. “É mediante o mal-entendido universal que todos concordam. Pois, se, por falta de sorte, as pessoas se compreendessem umas às outras, jamais concordariam”. Quem disse isso? Baudelaire, que, com suas Flores do Mal, foi acusado de ultrajar a moral pública, muito mais subjetiva e mutante do que sonham os medíocres de carteirinha.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

