É de Braúlio Bessa, no seu poema “O homem e o cachorro”, a bela formulação: “Eu nunca vi um cachorro desmatando uma floresta, maltratando seu planeta e o pouco que lhe resta. Não polui rio nem mar, também nunca vai marchar para começar uma guerra, por dinheiro, ambição, racismo, religião ou um pedaço de terra”. Esse maravilhoso texto é concluído com o poeta expressando sua indignação: “Eu nunca vou entender a tamanha pretensão de um homem que se diz mais sabido que um cão. Em nossa sociedade, infestada de vaidade e sentimentos banais, para o homem poder crescer, precisaria viver igualzinho aos animais.”
Nós, brasileiros, ficamos chocados com o episódio no qual o cachorro Orelha foi vítima de maus-tratos, vindo a falecer, em Santa Catarina. Alguns dias depois desse assassinato, estarrecidos, tivemos notícia de que aqui em Pernambuco, deu-se o crime contra o cão Coragem, que vivia no Curado IV, em Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife. O canino que foi encontrado com ferimentos nos testículos e em uma das patas após passar oito dias desaparecido. E o Caramelo? Para este, houve tentativa de afogamento na Praia Brava. O caso envolveu arremessos e investidas de afogamento no mar. Maus-tratos e abuso contra cachorros são crimes federais no Brasil, com penas de reclusão de 2 a 5 anos, multa e proibição da guarda, de acordo com a Lei 9.605/1998, alterada pela Lei 14.064/2020.
Dados da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco registraram mais de uma ocorrência de crueldade contra animais por dia no estado em 2025, com 277 casos envolvendo cães e gatos protocolados em períodos recentes. O programa televisivo Fantástico informou que “de espancamento a tiros e enforcamento: casos de maus-tratos contra animais crescem 1.400% em 4 anos no país”. Dados do CNJ apontam um crescimento de 21,2% de casos em comparação ao ano de 2024, ocorrendo em média, 13 novos casos de maus-tratos por dia. Segundo a IUCN – União Internacional para a Conservação da Natureza, a cada ano são extintas 140 mil espécies, quase 24 estão ameaçadas de desbarate.
Não é de hoje que estamos sendo violentos com os animais, basta pensar em exemplos como espetáculos tauromáquicos tradicionais e brigas de rinha. Parece claro que os dados chamam a atenção em razão do aumento das denúncias e da ocorrência de eventos de grande visibilidade, como os três inicialmente referenciados. Contudo, ainda temos uma legislação muito branda no que concerne ao assunto e casos diversos de incúria de animais. Só para se ter uma ideia, estima-se que cerca de 30 milhões de animais domésticos vivam em situação de abandono no Brasil.
Animais domésticos e cães comunitários são de grande importância para o ecossistema e ocupam espaço importante em várias dimensões da vida humana. Porém, vivemos numa sociedade cada vez mais violenta. A vida parece não valer mais nada, tudo assumiu uma feição de banalização. A desigualdade social e econômica cada vez maior propicia o aumento da violência em geral, refletindo no tratamento dado aos animais.
A preservação e o cuidado com os animais domésticos (como cães, gatos e animais de produção) são fundamentais porque eles desempenham papéis essenciais na saúde física e mental dos seres humanos, além de sustentarem sistemas de produção de alimentos e o equilíbrio social. Eles não são apenas companheiros, mas parte integrante da nossa civilização, saúde e bem-estar.
O requinte com o qual os cachorros foram maltratados causa espécie a qualquer cidadão minimamente esclarecido. Os três animais poderiam muito bem ser uma criança ou um ancião, um morador de rua. Não importa! Num contexto em que se mata uma pessoa para tomar seu celular. Numa sociedade onde se joga comida de boa qualidade no lixo às custas da fome e da miséria de tantos e tantos, o que esperar?
Não me contive com os noticiários que retrataram os casos aqui rapidamente mencionados. Fique a cogitar o que conduz uma pessoa, seja ela um adolescente ou um adulto, de qualquer classe social, a provocar sofrimento nos animais. Recordei que o filósofo australiano Peter Singer, em sua obra “Libertação Animal” (1975), introduz o conceito “especismo” para relatar os interesses dos membros da espécie humana contra outras. Trata-se de uma discriminação injustificável baseada na espécie, considerando animais não humanos inferiores e descartáveis, equiparando-se moralmente ao racismo ou sexismo. Singer argumenta que, se um animal sofre, não há justificativa moral para ignorar esse sofrimento. O sofrimento animal deve ser levado em conta na mesma medida que o sofrimento humano. É bom não esquecer que Singer fundamenta sua ética em uma perspectiva utilitarista, baseada na capacidade de sofrer (senciência), e não na igualdade ontológica entre humanos e animais.
Hoje, falamos tanto na ética do cuidado. Vários de nós têm defendido que o cuidado é um modo de ser e um valor essencial para a preservação da vida e contra a indiferença social. Nutrimos a clara consciência de que o egoísmo desenfreado apenas vai nos destruindo mais e mais. Percebemos que os recursos da natureza são esgotáveis, por isso precisamos preservá-los se quisermos usá-los para o nosso bem. A ética do cuidado no horizonte do ecossistema sugere uma mudança da dominação para a responsabilidade, considerando a Terra como “casa comum”.
A ética do cuidado nos remete ao tema da sustentabilidade, do qual nos fala Leff (2021), um crítico da racionalidade econômica moderna, defensor da tese de que a crise ambiental é uma crise de racionalidade. Ele nos explica que “a sustentabilidade implica construir fronteiras e estabelecer limites ao sistema econômico, ainda que a própria racionalidade econômica tenha mostrado sua indisposição e sua incapacidade para se recompor, internalizando as condições termodinâmicas e ecológicas da vida. A sustentabilidade tornou-se, assim, um sonho impossível […]”. Em conclusão, é viável ponderar, com ele, que os maus-tratos animais podem ser vistos como expressão dessa mesma racionalidade instrumental.
Ruiz e Maciel (2020), ao lembrar que na década de 1970 a defesa dos direitos humanos se uniu à defesa do meio ambiente, propiciaram indagar a percepção da Terra como grande zoológico ou museu a céu aberto para fins de exploração, explicam que o contraponto dessa inquirição se espelhou “na preocupação com a transgeracionalidade dos direitos humanos e ambientais, para que as futuras gerações tivessem acesso a meio ambiente ecologicamente equilibrado. O Outro que ainda não está entre nós, as futuras gerações, nos interpela eticamente”. Nossa era tem travado imensa batalha buscando reverter os danos daqueles que podem impactar irreversivelmente a vida do planeta Terra.
Orelha, Caramelo e Coragem podem ser apenas nefastos sinais da falta de sensibilidade, de consciência, de educação, que não devem jamais ser toleradas. Absurdamente, podem ser muito mais, pois retratam o avanço da ganância, da opulência, da ambição, desrespeitando a vida em todas as suas formas e possibilidades.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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Foto da Capa: Rovena Rosa / Agência Brasil

