A mãe estava nas últimas esperanças de, dentre as crias que saíram de seu ventre, ver aquela, em especial, tomar jeito na vida. Lamentava… Não podia sossegar a cabeça, pois, apesar da pouca quantidade para os costumes do lugar, essa peça de sua prole requisitava-a atenta todos os dias, fora assim desde muito pequena. Desde o princípio, a mãe notara seus desconjuntamentos. Cedo percebera o peculiar que havia naquela natureza; seu instinto (aquela pragmática sensibilidade que as acompanha) dizia para si que o melhor era aceitar as desacomodações daquela criança.
Mas isso não a impedia de tentar colocar prumo no seu espalhamento. Pois, continuadamente, para apreensão da mãe, atanazava-a para saber quando teria carnes como a dela. Sempre traquinara com seus vestidos, sempre mexia nas caixinhas de suas irmãs. E, agora, deixando a infância, cada vez mais desabrochava de si o desejo de corpo de mulher.
A progenitora fez de tudo para retardar o gozo dessa chegada: costumeiramente lhe dava muito serviço, às vezes, muito mais do que para seus outros irmãos. Era aquela cria que, ainda miúda, já apeava as montarias, capinava contas de roçado e abastecia de água os tonéis da casa. Porém, não adiantava: forte, ligeira e sapeca, esta criatura saída de sua barriga socorria a todos os fardos, sem deixar de atender aos caprichos da feminina puberdade que se avizinhava. Cabelos ao leite da babosa, pele ao banho de fina lama branca e, aos domingos e dias santos, roupas engomadas (por ela mesma) rescindindo o perfume de ramos de alfazema, cuidadosamente distribuídos pelo caixote de madeira que lhe servia de baú.
Numa época, a mãe procurou até a ajuda do padre: foi ver se ele não teria algum serviço na igreja ou na sacristia com o qual uma quase criança pudesse se envolver. Lá já ajudavam algumas meninas e meninos. E pensava: quem sabe se o convívio com o povo de credo não enredasse a chegada do reino da carne?
Os meninos ajudavam, geralmente, nos serviços da missa, e as meninas no cuidado com o templo e imagens. Dentre este rebanho, aquela ovelha se interessou por tudo: era a voz mais alta a puxar os cantos, era a mão mais hábil no asseio das imagens, era a vista mais caprichada para os arranjos florais e para o esmero com a indumentária do pároco.
Em um primeiro momento, a mãe estava toda em alegria, pois, segundo o clérigo, dado a esse esmero, aquela alma era requisitada com frequência para estar em sua companhia.
Mas, depois de um tempo, os instintos da genitora desgostaram do muito gosto do padre… A contragosto do vigário, a mãe encerra essa fase.
No entanto, neste transcurso, chega o inevitável momento em que o sangue jorra na morada do espírito, inundando o íntimo de desejos juvenis. Florescendo (movidos por uma força que transcende músculos, entranhas e ossos), cabelos, rosto, dorso, quadril, pernas, olhos, voz, gestos compunham um desabrochado corpo feminino.
Agora, não tinha mais jeito, a mãe não podia mais desviar aquela criatura do destino que lhe era natural. A força vital daquelas carnes não encontrava nada que conseguisse frear a vontade de seu gozo pleno. A mãe, sabedora da sina que caía sobre as mulheres daquele lugar, temia pelo destino da nova mulher que surgia diante de si. A genitora via que esta alma não caberia no caçuá que os homens dali pelejam para botar as mulheres, não via o que de bom poderiam fazer com sua cria.
A verdade do que anunciava seu coração materno fora fortemente constatada quando, já plena em feminilidade, sua filial inicia seus primeiros passos na caminhada ao bem-querer.
(Continua…)
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