Suíte Tóquio é o segundo romance da curitibana Giovana Madalosso, que estreou na literatura com o livro de contos A teta racional, de 2016, e já havia publicado um primeiro romance chamado Tudo pode ser roubado, em 2018. É também uma narrativa ágil que discute, em ritmo de thriller, as disparidades sociais da atual condição feminina no tempo e lugar específicos deste Brasil da segunda década do século XXI.
O romance é narrado alternadamente pelos pontos de vista de Fernanda, uma executiva paulistana de um canal internacional de TV, e Maju, a babá que cuida de Cora, filha de Fernanda e do marido desta, Cacá. Logo na primeira cena, se estabelece o conflito que vai direcionar o andamento de todo o livro: Maju rapta a menina de quatro anos e foge com ela. O crime da babá é o ponto de inflexão que constrói a narrativa e parece cindir o tempo das duas mulheres em direções opostas.
Estrutura
Cada capítulo do ponto de vista de Maju é narrado no presente, urgente, direto e rápido. O plano elaborado pela babá é pegar um ônibus de manhã cedo em São Paulo em direção a Presidente Prudente e, de lá, fazer uma baldeação com a menina até sua cidade natal, Mandaguaçu, no Paraná, onde pretende criar a criança como sua com um novo nome. A menina, que confia nela como parte já estabelecida de sua vida, é convencida a embarcar na viagem como uma “aventura”. No meio do caminho, entretanto, as coisas começam a dar errado para a babá. Um primeiro contratempo na estrada precipita uma escalada de imprevistos e mesmo de perigos.
Os capítulos que abordam a história pelo ponto de vista de Fernanda se lançam mais em direção ao passado. Após ela e o marido darem falta da filha, o marido rapidamente começa a tomar os procedimentos necessários com a autoridade de quem conhece a rotina da filha. Esse choque, misturado ao do sequestro, faz Fernanda revisitar seu passado, tentando entender como ela parece ter se tornado uma turista não só em sua própria casa, como em sua própria família. Fernanda ganha bem como produtora de um canal internacional com um estúdio no Brasil. O marido, mais para se manter ocupado do que pelo dinheiro, se tornou um paisagista criador de terrários. Além de absorvida pelo trabalho, Fernanda não tem muito tempo ou paciência para a filha, também pelo turbulento fluxo de suas emoções – está tendo um caso com uma diretora contratada para fazer alguns documentários sobre vida natural para o canal em que trabalha. A figura dessa diretora, Yara, viajada, independente, desapegada, é irresistível para Fernanda não apenas no sentido erótico, mas como uma provocação de outra vida que não é a sua, mais livre e menos atrelada aos compromissos e comodidades burgueses que ela ergueu em torno de si.
Quando Fernanda recebe uma oferta de promoção no emprego, que terá como resultado ter contato constante com os escritórios da produtora em Los Angeles – trabalhando, portanto, em horários erráticos que obedecem às idiossincrasias do fuso americano, ela faz para Maju a proposta de morar a maior parte da semana em sua casa, e é aí que ela estabelece a “suíte Tóquio” do título: um quarto de empregada reformado, mas que ainda é tão minúsculo que a cosmopolita Fernanda o compara aos minúsculos quartos de hotel para pernoite de executivos japoneses – uma piada cuja ironia classista Fernanda não percebe, como, aliás, não percebe muitos outros conflitos de classe na sua relação com a babá.
Casa-grande e senzala
É vasta a literatura sociológica sobre a simbologia do quarto de empregada na sociedade brasileira. Em uma tese de doutorado defendida no ano passado aqui mesmo na nossa UFRGS, a pesquisadora Luísa Sopas Rocha Brandão relata que a presença hegemônica dos “quartinhos de empregada” no projeto brasileiro de verticalização urbana é o resultado do transplante de ideias europeias para uma situação social específica do Brasil.
Boa parte da arquitetura nacional, incluindo a pública, conta Luísa Brandão em seu estudo, foi influenciada no século XX (e até hoje continua) pela ideia de verticalização do franco-suíço pioneiro da vanguarda modernista europeia Le Corbusier. Como quase todo modernista europeu, Le Corbusier era fascinado pelo conceito da máquina (já escrevi sobre isto aqui) e assim, sua ideia para a moradia urbana era a da “máquina de morar”, espaços minimalistas cheios de acessórios automáticos para atender às transformações de uma sociedade europeia em que a mão de obra para o serviço doméstico se reduzia, as mulheres começavam a trabalhar fora e o índice de natalidade começava uma queda vertiginosa. Transplantado para um Brasil em que as estruturas estabelecidas na época da escravidão ainda vigoravam, as mulheres ainda estavam majoritariamente confinadas ao espaço urbano e a mão de obra para o serviço doméstico se ampliava, quase sempre ocupada por mulheres negras, esse conceito deu origem a apartamentos que sonham em ser modernos e cosmopolitas, mas ainda carregam, como resquício direto da lógica da casa-grande e senzala, idiossincrasias urbanas tipicamente brasileiras. Não esquecer que, até pouco tempo, foi bastante intensa a resistência à profissionalização legal da profissão de empregada, e muitos “bondosos patrões” ainda tentam, inclusive hoje em dia, remunerar trabalho doméstico com moradia e alimentação — forma de salário indireto que encobre a exploração.
Ao reformar e deixar nos trinques o que continua sendo um quarto de empregada tradicional e nomeá-lo como “Suíte Tóquio”, relacionando o espaço a um tipo de aposento provisório típico do moderníssimo capitalismo corporativo japonês sem freios, Fernanda, a protagonista do romance de Giovana Madalosso, não deixa de estar ela própria se iludindo em uma tentativa moderna de suavizar a exploração com uma tirada cosmopolita que continua carregando o peso simbólico da desigualdade. Não à toa a “Suíte Tóquio” se tornará o símbolo do entrechoque definidor na vida da patroa e da empregada.
Duas vidas
A ausência constante de Maju, mantida na casa de Fernanda em tempo integral em jornadas de 15 dias, afeta e tira dos eixos o relacionamento que ela mantinha com um taxista de nome Lauro. O inevitável rompimento destrói o sonho que a babá vinha acalentando de ser mãe, representando um dos gatilhos para que ela empreenda o sequestro da menina. Maju se sente constantemente perturbada pela natureza transitória e ambígua do papel de uma babá, como fica claro ao relembrar como, em empregos anteriores, passou mais tempo com as crianças do que as próprias mães, apenas crianças criadas, virando uma nota de rodapé na vida de filhos que não são delas.
O livro é narrado de um modo ágil e muito bem estruturado. Tanto as partes de Maju quanto as de Fernanda são escritas em primeira pessoa, o que permite à autora exercitar uma sutileza e um domínio narrativo elogiáveis. Fernanda é uma mulher autocentrada que só é retirada de suas preocupações autocomplacentes quando percebe que a filha sumiu. Maju é uma mulher de formação mais simples, cresceu numa fazenda de produção de seda no interior paranaense e ainda carrega muitos dos valores e até dos preconceitos dessa origem mais simples, como a religiosidade e o estoicismo. Seu afeto pela menina Cora é real e transbordante, e será posto à prova à medida que as dificuldades da fuga se interpuserem no caminho de ambas. As duas vozes são diferenciadas por um ritmo sutil, mas não caricato, e o fato de a narrativa avançar tanto pela psique das duas personagens cria a oportunidade para que a autora as use como pretexto para montar um quadro da desigualdade social do país, fugindo de elementos óbvios. Fernanda é uma mulher rica, mas não correspondente ao estereótipo da dondoca fútil. Maju é uma mulher pobre de meia-idade que trabalhou para os outros a vida toda e não teve tempo de completar sua escolarização, mas é uma mulher com uma vida interior riquíssima.
O avesso do cuidado
Outro ponto digno de nota no livro é o quanto ele consegue fugir de um outro clichê recorrente em obras que abordam temas semelhantes. Já é quase um clichê a história da babá perfeita e impecável que se revela mais do que aparenta e se torna uma ameaça, modalidade recorrente da ficção contemporânea, principalmente no cinema, em que esse tropo funciona como uma perversão da figura clássica de Mary Poppins. Um exemplo que consegue se elevar muito acima da média desse tipo de história é o sombrio romance Canção de ninar, da autora franco-marroquina Leila Slimani, sobre uma babá de um jovem casal burguês que, certo dia, tem um colapso e assassina as crianças sob sua guarda.
No livro de Slimani, um jovem casal burguês decide contratar uma babá depois que a mulher, advogada, recebe uma proposta de emprego – o casal já tem dois filhos, Mila e Adam. Após um anúncio e algumas entrevistas, eles topam com o que parece um presente do acaso, a eficiente Louise, que também é uma excelente cozinheira e logo está excedendo suas funções, cuidando da casa como uma empregada doméstica – uma situação que vai ressoar, ou ao menos deveria, fortemente no Brasil das empregadas sem direitos trabalhistas “praticamente da família”. Quanto mais Louise se torna indispensável à comodidade de seus patrões, menos eles percebem que uma fissura profunda na psique e na vida da babá levará à tragédia.
Embora muitos elementos entre essas duas narrativas sejam comuns, como o contraponto de classe entre patrões e empregados, a angústia solitária da babá e a fratura gradual que sua condição vai provocando na psique da personagem, o que Suíte Tóquio faz, ao contrário do livro de Slimani, é manter o suspense alternando os pontos de vista sem precisar apelar aos elementos mais óbvios de thriller. Maju claramente está confusa e passando por maus momentos durante sua jornada, mas não está em um surto de violência, e mesmo suas decisões mal pensadas não deixam de levar em conta o zelo pela menina. Se Canção de ninar termina com a sua babá, a eficiente Louise, como uma incógnita deslizando no poço da loucura, a narrativa de Suíte Tóquio torna Maju uma personagem com mais dimensões e camadas, conseguindo até mesmo fazer com que o leitor, mesmo aquele vagamente horrorizado por seus atos, compreenda seus motivos.
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Foto da Capa: Giovana Madalosso / Rádio MEC

