Diz-se que nenhum tratado de anatomia ou manual de ética recrutou tantos jovens para a medicina quanto as páginas de um romance. A Cidadela (1937), do médico escocês A.J. Cronin, permanece como o maior catalisador vocacional da história da ciência médica moderna. Ele não oferece a promessa de riqueza ou o brilho asséptico dos hospitais tecnológicos; em vez disso, apresenta a profissão como uma aventura ética e uma ferramenta de ruptura social.
Guardo a forte impressão da primeira leitura, ocorrida há cinco décadas. O poder do livro reside na humanidade de Andrew Manson. Ao chegar às vilas mineiras do País de Gales, ele não encontra o prestígio imaginado, mas a dureza de um sistema que valoriza o costume em detrimento da ciência. Cronin descreve a angústia do jovem médico com uma crueza que atravessa gerações:
“Sinto-me como se estivesse batendo com a cabeça contra uma parede de borracha… Tudo é rotina, hábito e uma terrível complacência”.
Para o estudante de hoje, cercado de protocolos e exames de imagem, Manson recorda que o primeiro e mais importante instrumento de diagnóstico é a indignação. O personagem traduz o choque entre a pureza acadêmica e a realidade de uma engrenagem que, muitas vezes, privilegia o lucro diante do paciente.
O ponto de inflexão da obra é o episódio do bueiro infectado. Manson descobre que a epidemia de febre tifoide local não será resolvida com pílulas, mas com saneamento. Diante da inércia burocrática das autoridades — que alegavam “falta de verbas” — Manson e seu colega Denny decidem que a obrigação ética vai além do consultório e explodem o bueiro com dinamite.
Este ato não foi um crime, mas uma intervenção radical de saúde pública. Restaria às autoridades construir uma nova rede de esgotos. Manson compreendeu o que hoje chamamos de Determinantes Sociais da Saúde: de nada adianta curar o indivíduo se ele for devolvido ao ambiente que o adoeceu. Em um mundo de inteligência artificial e medicina de precisão, o bueiro de Manson nos lembra que a saúde de uma comunidade depende mais de saneamento, habitação e justiça social do que do mais caro dos fármacos.
O impacto de A Cidadela transcendeu a ficção. No Reino Unido, o escândalo gerado pela denúncia de Cronin sobre a corrupção médica e a precariedade do atendimento aos pobres foi o combustível para a criação do National Health Service (NHS) em 1948.
Essa herança é a espinha dorsal do nosso Sistema Único de Saúde (SUS), fruto da Constituição de 1988. Quando um jovem médico brasileiro atua na Estratégia Saúde da Família, ele revive o ideal mansoniano. Os princípios de universalidade e equidade do SUS são a resposta institucional ao desespero de Manson ao ver que a vida de um mineiro valia menos que a de um lorde. Ele resumiu seu compromisso em uma frase que deveria ser o mantra de cada calouro:
“Eu não quero ser apenas um médico de ‘boas maneiras’. Eu quero ser um médico que descobre a verdade e cura!”
Entre o NHS e o SUS, é imperativo citar o Murialdo. Idealizado a partir de 1972 pelo professor Ellis Alindo D’Arrigo Busnello (1932-2023), o projeto maturou em sua experiência na Universidade Johns Hopkins. Ao retornar, foi no Centro Médico São José do Murialdo, em Porto Alegre, que ele iniciou a grande transformação do modelo assistencial na Atenção Primária, instituindo práticas de Saúde Comunitária e formando profissionais pioneiros.
Muitos foram os responsáveis e idealistas de primeira hora: Isaac Lewin, Sérgio Pacheco Ruschel e Carlos Grossman, para citar alguns. Desde um estágio, quando ainda aluno, até o retorno como preceptor na residência, tive o privilégio de conviver com dezenas de multiprofissionais que integraram essa trajetória que, por sua grandeza, merece ser melhor registrada. Em todos, percebe-se um misto de orgulho e pertencimento, mas também a frustração pela miopia política que abandonou não a utopia, mas o sonho já materializado.
A proposta do Murialdo – de vanguarda até para os dias de hoje – foi visionária, antecipando o que estabelecemos por Medicina de Família e Comunidade. A estrutura contava com uma equipe técnica em que, além de médicos, enfermeiros e psicólogos, agregavam-se engenheiros, agrônomos e veterinários. O prontuário de família era o elo central: nele, cães, gatos e papagaios tinham suas identidades registradas, o que permitia orientar desde o cuidado com zoonoses até a correta construção de fossas sépticas.
Retomar A Cidadela em pleno século XXI é um ato de resistência. Em uma era onde a tecnologia ameaça mediar cada interação humana, Cronin nos devolve o estetoscópio como símbolo de escuta e empatia. Ele nos alerta que o maior risco do médico não é o erro técnico, mas o isolamento moral — aquele que ocorre quando paramos de lutar contra os “bueiros” do nosso tempo. O legado de Manson é a percepção de que o cuidado é a mais humana das ciências. Se o livro ainda recruta corações, é porque valida o ideal de que um médico, munido de rigor científico e coragem moral, pode mudar o mundo.
O SUS é a nossa cidadela. Eficiente, mas ainda um funil de base muito estreita. Preservá-lo em sua essência, aprimorar sua gestão com honestidade frente às realidades de um país continental e honrar o bueiro que Manson explodiu é, acima de tudo, permitir que todos possam respirar e viver.
Nota do Autor: Para Flavio José Kanter, colega, médico, amigo, em representação a todos que conhecem bem essa história.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

