Era a última sexta-feira do mês de julho. Fechei minha agenda de consultas e fui a Porto Alegre, pois há semanas acalentava o desejo de visitar um lugar muito especial, o qual só conhecia por fotos nas redes sociais ou pela descrição em textos. Meu coração estava cheio de expectativa. Sabia que seria um dia de encontros inspiradores, de vozes que ecoam força e sabedoria, e de histórias que tecem a rica tapeçaria da nossa ancestralidade. E assim, fui guiada a um lugar mágico, repleto de conhecimento e memória: a tão sonhada Biblioteca do Negro Professora Yvanilda De Oliveira Belegante. Cada estante, cada livro, parecia sussurrar segredos de um passado vibrante e de um futuro a ser construído.
Lá, fui recebida por Clélia, a idealizadora e responsável pelo espaço, uma mulher cuja alegria irradia em um sorriso largo e acolhedor. Seu abraço foi um convite para entrar, não apenas na biblioteca recém-reaberta e cuidada com esmero, mas em sua história, em seu mundo de sonhos realizados e futuros projetos.
Clélia me contou que a Biblioteca do Negro é mais que um acervo: é um legado, um espaço vivo para preservar e celebrar a história e a cultura do povo negro. Entre revistas, livros e jornais antigos, me senti renovada. Em cada página, “escutei” lutas e vitórias.
Com os olhos brilhando, Clélia falou de seu pai, Arlindo. Falou de suas lutas, sonhos e projeções. Entre uma gargalhada e outra, falou que foi ele quem, desde cedo, acendeu nela a chama da leitura e o desejo insaciável por conhecimento. Em minha respeitosa análise, ele a ensinou que os livros são luminárias em tempos de escuridão.
Embora não o tenha conhecido, senti que Arlindo acreditava que cada livro era uma porta para um novo mundo, uma ferramenta poderosa para entender as injustiças e lutar por dias melhores. E que, para ele, o estudo sempre foi a chave para a liberdade e a transformação.
Enquanto Clélia falava, meus olhos inquietos percorriam as máscaras africanas, as bonecas negras, o cachimbo de Preto Velho e o tambor de batuque que adornam o espaço, cada peça contando uma história de ancestralidade e resistência. Me senti plena com tanta riqueza cultural…
A biblioteca, abrigada coerentemente na Casa Odabá, não é apenas um lugar de livros, mas um ponto de encontro, de afeto, onde pude me reunir e compartilhar saberes, fortalecer laços e estar com outras que ali sustentam a posição de inspirar umas às outras a continuar a jornada.
Saí com o coração transbordando de gratidão e inspiração. A história de Clélia, a paixão de seu pai e a existência da Biblioteca do Negro me mostraram a força da educação e das memórias.
Que a luz dessas histórias continue a nos guiar, nos impulsionando a ler, a aprender e a lutar por um mundo mais justo, honrando o legado de todos aqueles que nos precederam.
Agradeço e saúdo Clélia Paim, mulher forte e encantadora, por me receber com tamanha afabilidade em um dia incrível. Sou grata por você me permitir fazer parte de sua história e me receber naquela sexta-feira, 25 de julho, tão significativa para nós: Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e Dia de Tereza de Benguela.
Clélia: nessa semana, em que é celebrado o dia dos pais, em memória ao seu pai, Arlindo Paim, registro que seus sonhos hoje realizados acolhem e dão lugar também a esta jovem pesquisadora.
Camila Araujo é psicóloga clínica (CRP 07/26551). Mestranda em Psicanálise Clínica e Cultura na UFRGS. Especialista em Psicanálise e Relações de Gênero: Ética, Clínica e Política pelo IPPERG; Especialista em Problemas do Desenvolvimento na Infância e Adolescência pelo Centro Lydia Coriat; E em, Neurociências, Educação e Desenvolvimento Infantil pela PUCRS. Idealizadora e Membro do (Re)começar Espaço Interdisciplinar. Instagram: psico_camilaaraujo
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Foto da Capa: Odabá / Divulgação

