Tauã Brito é confeiteira e tem um jeito doce de falar. A jovem senhora foi ao Instituto Médico Legal para reconhecer o corpo do filho de 20 anos, uma das mais de 120 vítimas da operação policial que levou imagens de guerra da nossa cidade maravilhosa para o restante do mundo. Em entrevista para a Rádio Itatiaia, em vídeo veiculado por vários outros órgãos de imprensa, ela conta que queria ter feito ele se entregar.
“Ele me mandou mensagem pedindo para tirar ele e que ele estava encurralado. Muitos que tentaram se entregar morreram. Na mente dele, eu acho que ele pensou: “Se a minha mãe estiver aqui, eles vão me levar preso”. Tauã não conseguiu chegar a tempo na área da mata. A troca de tiros não permitiu. Ela diz que encontrou o corpo por volta de uma hora da manhã, com um tiro na cabeça, uma marca de corda num braço e o outro cortado.
“Como mãe, eu nunca apoiei a vida que meu filho levou. Eu sou uma mãe negra, solteira, sou uma microempreendedora que luta todo dia para criar os meus dois filhos – eu tenho ele e uma menina – eu trabalho. Eu nunca apoiei a vida que meu filho levava, a escolha que ele fez, mas, como mãe, eu nunca ia virar as costas para ele. Eu tô vendo muita gente falando sobre uma entrevista da mãe de um dos policiais que morreram e a dor dela não é diferente da minha, porque ela é mãe como eu e como todas as outras mães dos corpos que estavam lá. A gente também precisa ser ouvido. A gente também precisa que aconteça mudança porque pra governar um estado, não é só chegar dentro de uma favela e ficar tirando vida, é muito mais do que isso. É dar oportunidade, dar visão, para que eles (crianças, jovens) possam ver coisas diferentes do que a realidade de uma favela. E isso ele não faz. Foi um estrago o que ele fez, não foi uma operação bem-sucedida, não. Isso aí que o governador fez foi vergonhoso.”
Às vezes não há o que escrever, o que dizer. Em meio a tantas opiniões, discursos, análises, a socio-hipocrisia… Há momentos em que só resta mudar de estação, de canal, já que a realidade parece não ter remédio.
Saio para caminhar, aproveitando o tempo antes do próximo ciclone tropical anunciado. De uma pequena casa, espremida entre edifícios altos, assoma o som de uma canção. A voz rouca, inconfundível, Elza Soares canta Chico Buarque: “Quando, seu moço, nasceu meu rebento / Não era o momento dele rebentar / Já foi nascendo com cara de fome / E eu não tinha nem nome para lhe dar / Como fui levando, não sei lhe explicar / Fui assim levando ele a me levar / E na sua meninice ele um dia me disse / Que chegava lá… // O guri no mato, acho que tá rindo / Acho que tá lindo de papo pro ar / Desde o começo, eu não disse, seu moço / Ele disse que chegava lá / Olha aí, olha aí / Olha aí, ai o meu guri, olha aí / Olha aí, é o meu guri”.
Todos os textos de Fernando Neubarth estão AQUI.
Foto da Capa: Christiano Junior / Escrava de ganho vendedora, 1864-1865. Rio de Janeiro, RJ - Acervo Museu Histórico Nacional.

