Acabei de ler o novo romance de Chimamanda Ngozi Adichie, a premiada autora de “Americanah” e “Sejamos todos feministas”. “A Contagem dos Sonhos”, primeiro livro dela que leio, traz a história de quatro mulheres africanas que acabam indo para os Estados Unidos e criando uma relação interessante com o país. Com personalidades distintas, qualidades e defeitos, erros e acertos, suas vidas se entrelaçam. A cultura, os hábitos, os costumes, amores, saudades, desejos, crenças e o cotidiano que encaram são instigantes. Chimamanda olha para essas mulheres e suas realidades, questiona a natureza do amor e pergunta: “A felicidade real é possível ou é apenas passageira?”
“Devemos ser honestas com nós mesmos para amar e ser amados?” E assim propõe uma reflexão sobre suas escolhas, sobre filhas e mães, sobre o nosso mundo interconectado, mostrando outros aspectos da vida dos africanos nos Estados Unidos. “A contagem dos sonhos” diz mais. Pulsa com urgência emocional e observações pungentes e inflexíveis sobre a pandemia do coronavírus, sobre uma camareira vítima
de estupro e condenada, sobre o coração humano, às veze nem tão humano, e o nosso estar no mundo. Não é uma leitura fácil. E a linguagem poderosa confirma o status de uma das escritoras mais fascinantes e dinâmicas da cena literária hoje. O livro coloca mulheres feministas em cena, com sua força, experiências, fragilidades, questionamentos e caminhos escolhidos.
As quatro mulheres são Chiamaka, que vive nos EUA, escreve livros de viagem e, ao ficar sozinha durante a pandemia, passa a lembrar dos seus relacionamentos e avalia suas escolhas e arrependimentos. Zikora, uma advogada bem-sucedida, é sua melhor amiga e, após ter o coração partido, busca a ajuda de quem achou que menos precisava. Omelogor, prima de Chiamaka, expert em finanças na Nigéria, fica rica lavando dinheiro para políticos em um banco nigeriano e, cansada de viver envolvida com a corrupção, começa a questionar o quanto se conhece de verdade e vai para os Estados Unidos fazer pós-graduação. E Kadiatou, empregada de Chiamaka, que cria com orgulho a filha nos Estados Unidos e precisa lidar com uma provação que ameaça sua vida e tudo o que trabalhou para conseguir.
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Chimamanda nasceu em Enugu, na Nigéria, em 1977. Com livros publicados em mais de cinquenta idiomas, é autora dos romances “Hibisco roxo”, “Meio sol amarelo” e “Americanah” – vencedor do National Book Critics Circle Award e eleito um dos dez melhores livros de 2013 pela New York Times Book Review. Publicou também a coletânea de contos “No seu pescoço”; os ensaios “Sejamos todos feministas”, “Para educar crianças feministas” e “Notas sobre o luto”, além do livro “O lenço de cetim da mamãe”, escrito como Nwa Grace-James. Toda sua obra é da Companhia das Letras.
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