Com as transformações que o conceito foi sofrendo ao longo de sua existência, às vezes fica fácil esquecer que a palavra “mídia”, no sentido mesmo que usamos para qualificar modalidades variadas de comunicação de massa profissional, tem na sua origem o termo “mediação”. Raiz que também se encontra quando se fala em “meios” de comunicação. Os meios nunca foram o fim, e sim uma ponte entre a informação e o público. Ao mesmo tempo, havia uma tensão nem sempre bem resolvida entre o meio como “intermediário” e o veículo como “protagonista”, que fazia a propaganda de seu papel como “curadoria da informação relevante” – um discurso que a imprensa tradicional tentou manter durante a ascensão da internet e suas multiplicidades de opções e impulsos e informação em uma aluvião impossível de acompanhar por inteiro. Hoje, claro, com a hegemonia da economia do algoritmo, os meios perderam até mesmo essa desculpa, todos correndo atrás do elemento mais sensacional e do clickbait mais eficiente.
Na área da cultura, esse caráter pretensamente “curatorial” dos “mídia” também produzia seus atritos entre os compromissos do “jornalismo cultural” e os da “crítica cultural”. São coisas distintas, deveriam ter seus espaços distintos, mas, na prática, disputam as migalhas do que ainda sobrou de parco interesse nos “meios”. O jornalismo tem compromisso com o factual, a “agenda”, o evento de lançamento, o disco mais recente, a série que está no ar agora, não na semana que vem. Isso sempre foi um problema para a crítica real, que não é bem um texto-ponte entre um fato e a audiência, como no jornalismo, mas sim um texto-espelho que produz novos sentidos a partir de uma reflexão da obra, ou mesmo um texto-lupa, amplificando detalhes a ponto de produzir uma nova visão de algo que já estava ali.
Crise da crítica
Tradicionalmente, o jornalismo tradicional privilegiou os compromissos factuais imediatos e a crítica foi se tornando mais estreita, menos detalhista, mais resenha do que crítica de fato – já que a crítica não tem esse tipo de compromisso com o “gancho” jornalístico e poderia ser de algo que se publicou há 200 anos, não do lançamento que estará na livraria na semana que vem. Assim, a crítica desse tipo de refugiou-se em publicações especializadas, acadêmicas e até elitizadas, a seu modo, como parecia querer mirar a extinta revista Bravo! em seu início, lembram? Só que a grana para financiar esse tipo de publicação minguou. A elite financeira brasileira foi se deteriorando na massa amorfa do bolsonarismo filisteu contemporâneo, então não há mais
Ultimamente, contudo, mesmo esse tipo de resenha e notícia pautada pelo interesse público de divulgação imediata parece estar em colapso. Cadernos culturais, programas sobre cultura, espaços de entrevistas e reflexões foram sendo erodidos. Percebi esse encolhimento enquanto estava engajado na divulgação da segunda edição de meu romance Tudo o que fizemos ao longo do mês passado. Fora espaços heroicos na internet e em rádios e TVs públicas, o campo parece ter secado e agora não há mais espaço nem para a mais rasa resenha – salvo casos em que o livro ou seu autor caem em algum outro critério de noticiabilidade, como o fato de o escritor ser bastante conhecido.
Esse resultado não nasce de um entendimento de que a arte tenha perdido relevância — pelo contrário, nunca se produziu tanto —, mas os meios tradicionais de validação entraram em colapso. Os cadernos de cultura encolheram, as revistas de crítica viraram raridade, e até as publicações acadêmicas, quando não se fecham em jargões, sofrem com as questões de acesso e distribuição, mesmo existindo hoje essa biblioteca de Babel da internet que, em tese, nos daria acesso ao conhecimento de todo o mundo, mas, na prática, nos deixa ler a primeira página e depois pede assinatura paga.
Dois episódios recentes me fizeram pensar muito nesse estado de coisas, e o curioso é que foram duas coisas ligadas a manifestações estéticas que eu não gosto e não acompanho com a devida atenção: novela e Taylor Swift – parando para pensar, talvez seja exatamente por isso que eu comecei a pensar nisso: eu não acompanho essas coisas com a profundidade suficiente para ter uma noção crítica segura e confiável.
Vale Tudo
Ali, pelo meio de outubro, como a esta hora todos aí já sabem, foi encerrada a exibição da novela Vale Tudo. Eu não assisto a novela e preciso dar um Google para saber qual delas está no ar – o que, felizmente, eu não faço com frequência, porque esse é um tópico ausente até mesmo das minhas conversas cotidianas. Mas essa novela em particular provocou um burburinho tão grande que mesmo um alienado voluntário do assunto, como eu, foi devidamente informado de muitos dos seus desdobramentos e expectativas. E, claro, sendo a regravação de uma novela que eu vi em parte na minha adolescência, eu mais ou menos sabia que havia um ou dois pontos inevitáveis em que a nova produção teria que espelhar a anterior, até hoje muito aclamada pela crítica de TV como uma “novela perfeita” – essa opinião não era minha, eu a ouvi ser enunciada na redação de Zero Hora pelo hoje crítico de teatro do Estadão Dirceu Alves Jr. – e que na época escrevia sobre TV para “o maior jornal do Sul do país”.
Bom, o fato é que o zunzunzum sobre a novela foi tão grande que eu fui lá e assisti ao último capítulo, exatamente como boa parte do Brasil estava fazendo. E meu Senhor, eu não estava preparado para a tempestade fumegante de bosta que seria aquilo. A esta altura, vocês todos já sabem dos principais desdobramentos, mas aviso que o que vem a seguir conterá spoilers para as novas soluções de um mistério antigo: quem matou a personagem Odete Roitman.
Aparentemente, a nova versão da novela transferiu a noção de “vale-tudo” do texto para a estrutura do enredo propriamente dita. A tentativa de subverter o mistério da morte de Odette foi orquestrada por alguém sem a mínima noção de como construir uma arquitetura de mistério. Uma das coisas nas quais o policial se distingue de outros gêneros de massa, como o horror e a fantasia, é que, mesmo nas narrativas mais ridículas ou exageradas, ele mantém vinculada a seu DNA uma ideia que nasceu nas profundezas da mente iluminista: com a abordagem apropriada, as ferramentas conceituais certas e um tanto de brilho intelectual (nas versões mais modernas temperada com trabalho duro), um crime sempre pode ser desvendado pelos indícios que se acumulam durante sua perpetração. A fantasia e o horror apelam para o sobrenatural, e às vezes o próprio policial brinca com isso, mas se a solução não for racional, ou mesmo ancorada no senso comum do que venha a ser racional dentro de uma sociedade, ele naufraga e produz o impacto de um traque molhado.
Pois bem, na nova Vale Tudo, Odete, assim como na versão anterior, leva um tiro. Fica horas jogada no seu quarto de hotel, perdendo sangue. Peritos circulam em volta dela e um legista chega a examinar o corpo superficialmente. Aí ela é colocada em uma ambulância e acorda como se fosse um Frankenstein de terceira categoria, é operada no meio de um galpão e foge do país em um jatinho. São tantos furos que penso que só podem ser propositais, mergulhando essa forma antiga da novela na lógica contemporânea dos algoritmos, em que você amplifica os absurdos para ganhar engajamento. Nenhum legista sério declararia a causa mortis de uma pessoa com um exame superficial in loco – aliás, a maioria dos médicos nem vai até o local, examina o corpo no necrotério mais tarde. Ainda que se aceitasse que foram tomadas conclusões preliminares no local, mais tarde o corpo desapareceu? Foi substituído? Pelo de quem? Como o exame médico foi realizado?
Talvez fosse possível defender que Vale Tudo se passa em um universo alternativo em que não se faz esse tipo de perícia, mas o fato é que ela foi feita. Tanto que a filha de Odette é suspeita do crime porque de fato tocou na arma que outro disparou mais tarde, logo, foi feita análise forense. Aliás, como fica o caso do julgamento da suspeita do crime se não tem o corpo da suposta vítima? E como a vilã fugiu do Brasil com direito a jatinho particular se, declarada morta, seu dinheiro foi herdado pelo seu boy toy, como fica claro nas últimas cenas?
Talvez, com ênfase no talvez, houvesse resposta para isso nos capítulos anteriores que eu não vi, mas, para mim, o fato mais assombroso dessa trama com mais cabos desconexos que poste da Equatorial é o fato de que, após sua exibição, ninguém da crítica “séria” levantou essas questões que considero graves. E, nas redes sociais, eu vi algumas pessoas mencionarem isso ao lado de outras que estavam elogiando com entusiasmo o novo fim. Percebem como isso se liga ao que falei da “mediação”? Eu, que não tenho o costume de acompanhar esse troço e vi com os meus próprios olhos e concluí que era uma bosta, olho em toda parte com um sentimento de delírio porque não parece haver mais consenso sobre a ruindade ou não de algo que eu vi e parecia ruim além de qualquer medida. Também parece haver algumas tretas envolvendo uma antipatia prévia de parte do público com a autora da nova versão, que eu nunca tinha ouvido falar e não vou fingir que entendo.
Taylor Swift
O segundo caso é o recentemente lançado álbum novo da Taylor Swift, The life of a showgirl. Aparentemente, muita gente detestou. Na minha bolha digital, multiplicaram-se posições extremadas a respeito. Gente que não gosta sentindo-se legitimada pelo fato de que finalmente todo mundo está vendo o desastre que a fama dessa moça provocou na música internacional. Gente surtada porque, aparentemente, há uma canção chamada Wood, que poderia ser traduzida por madeira, pau, sarrafo, dedicada a louvar as qualidades… bem… da madeira, do pau, do sarrafo do namorado da moça, um jogador de futebol americano que eu realmente não sei quem é e cujo nome não consigo lembrar sem dar um google. Fãs defendendo a tese até que defensável de que artistas homens fizeram as mesmas coisas sem passar pelas mesmas críticas. Outros fãs que estão se debatendo, tentando defender a dignidade de um álbum com o qual não se conectaram, simplesmente para não “dar munição aos inimigos”, no caso, os inimigos sendo todo mundo que não jurou devoção eterna a Taylor Swift.
Eu, como já disse antes (aqui), não só não sou fã de Taylor Swift como francamente não sei onde me refugiar para não ouvir falar dela. Em um primeiro relance, a questão poderia ser apenas essa: ela lançou um álbum novo, alguns não gostaram, outros gostaram, como sempre, segue a vida. Só que Taylor Swift virou uma “comodity” tão valorizada no mercado da cultura pop que seus movimentos hoje não são julgados apenas em termos estéticos, mas financeiros. Parece haver não a colisão entre apreciações de pessoas com diferentes opiniões informadas por diferentes visões estéticas, mas o choque entre duas facções com muita história pregressa para que alguém de fora possa acompanhar. Vendo cada nova treta envolvendo Taylor Swift de um ano para outro, consigo sentir exatamente o que devem sentir os que não aguentam mais filmes da Marvel e não têm vontade, tempo ou disposição para acompanhar o “lore” interminável que cerca cada nova produção e a conecta com as demais.
E o disco no meio disso? Ouvi três músicas, duas das que todo mundo estava falando mal e uma que citava Shakespeare para fazer o elogio da transformação provocada na vida da moça pelo surgimento de seu namorado brucutu jogador (Taylor Swift nunca ouviu falar da expressão “gastar pólvora em chimango”, mas aparentemente é praticante assídua do conceito).
Primeiro preciso citar a mim mesmo naquele texto anterior que mencionei, e me perdoem o cabotinismo: “Eu sei muito bem que sou um homem de meia-idade que se formou como apreciador de música ouvindo gauchismo de CTG e barulho de heavy metal e que, assim, suas músicas [as de Taylor Swift] não são pra mim, e tá tudo bem”. É essa a razão pela qual, para mim, as três músicas não pareceram tão diferentes assim das parcas que eu conheci em outras “eras” da personagem (sim, até isso eu fiquei sabendo contra a vontade: Swift usurpou o conceito geológico para nomear diferentes “etapas” de sua carreira. Picasso teve “fases”, mas aparentemente esse é um conceito muito pequeno para Taylor, a Godzilla da cultura pop).
Bolhas
Volto à questão central do texto: eu não consegui, no meio da maré de opiniões discordantes, mesmo em veículos em tese “tradicionais”, encontrar um mínimo pé firme para entender o fenômeno e compreender até mesmo o que mudou desde seu último álbum recente (eu ouvi uma música só, a que ela fez com alguém que eu de fato aprecio, Florence Welsh. Juro que não me lembro mais). Só opiniões que parecem ilustrar o malefício do uso indiscriminado do conceito de “lugar de fala”. O crítico do New York Times falou mal. “Ah, é só mais um homem velho branco”. Fico imaginando o que seria dito no caso de uma hipotética mulher negra falar mal – e, claro, para isso a gente precisaria aumentar o número de mulheres negras com voz na imprensa cultural, o que eu concordo.
Não estou aqui me manifestando saudoso do antigo status quo, com instâncias de legitimação engessadas e pouco afeitas à diversidade de interesses. O que estou descrevendo é o que, para mim, parece ser um fato já posto. Muito questionamos, todos nós, a antiga estrutura que foi sendo erodida pela cultura em rede: revistas culturais, gravadoras multimilionárias, rádios que recebiam jabá. Mas hoje temos um panorama tão diverso que as instâncias de apreciação se conformam em bolhas. Cada bolha tem sua validade e seus critérios estéticos. Nos raros mastodônticos exemplares que transcendem a bolha e meio que impactam por um momento todas as tribos, fica mais claro o quanto essa nova realidade não oferece uma verdadeira discussão estética, e sim desdobramentos da política de fandom – e dos fãs de política.
Tudo está tão pulverizado que voltamos a uma afirmação básica: para ter uma ideia de se algo é bom ou ruim, você precisa ir lá e ver, ouvir ou ler. Só que, bem, eu já vivi mais da metade da minha vida e ainda não li o Balzac inteiro, então a ideia de que eu vá ver com atenção a novela ou ouvir um álbum inteiro da Taylor Swift é mais absurda do que uma morta voltar à vida…
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Foto da Capa: Reprodução Globoplay

