Vamos combinar, né, pessoal: os fatos políticos desses 36 anos passados, desde que reconquistamos o direito de eleger o Presidente da República, nos dão uma certeza: a democracia está consolidada no Brasil. Agora, é hora de começar o trabalho de qualificação do regime.
Para chegar onde quero, preciso repetir informações. Nesse período, elegemos quatro homens – Collor, Fernando Henrique, Lula e Bolsonaro – e uma mulher, a Dilma. Tivemos um presidente (Collor) e a única presidenta (Dilma) retirados do poder em processos de impeachment. Temos dois ex-presidentes – Collor e Bolsonaro – presos. Outros dois já estiveram presos. Lula e Temer, que assumiu a Presidência da República na queda de Dilma.
E não é só isso… Se isso só já não fosse uma grande demonstração de maturidade política. Os poderosos, tanto do setor público como da área empresarial, têm sido alcançados pela mão da Justiça. Tem general, almirante e ex-presidente na cadeia. Tem deputado fugido para o exterior. E tem banqueiro vigiado por tornozeleira eletrônica.
E não é de hoje. Desde 2003, quando começaram as denúncias e a investigação do chamado Mensalão, até a Operação Lava Jato e os processos contra os golpistas recentes, muitos poderosos foram punidos.
E democracia nem tchum… Nem mesmo aqueles ridículos acampamentos de gente que rezava para pneus, que chamava ETs e berrava por golpe militar nas preliminares da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 provocaram qualquer abalo – além do quebra-quebra – no funcionamento das instituições.
No dia seguinte, 9 de janeiro, o trabalho de rescaldo dos atentados já mostrava a volta da normalidade. Quem merecia prisão estava preso. As lideranças, as presentes e as escondidas, passaram a ser processadas e algumas já estão cumprindo penas.
Lula chamou os governadores para uma reunião no Palácio do Planalto e uma caminhada pela Praça dos Três Poderes no dia seguinte aos atentados. A declaração do presidente foi a reafirmação da democracia: eles querem é golpe e golpe não vai ter.
Aliás, pouca gente lembrou disso na época, mas duzentos e um anos antes, em 9 de janeiro de 1822, também houve uma tentativa de retrocesso político. Naquele dia, a corte de Portugal queria que o Príncipe Regente do Brasil, Dom Pedro, retornasse a Lisboa. O Brasil voltaria a ser simples colônia do império português. Pedro resistiu e ficou com o povo. As frases dele – se é para o bem geral, diga ao povo que fico – batizaram a data como o Dia do Fico.
Em 2023, tentaram voltar aos idos de 1964… Lula também ficou.
Agora, mesmo com todas essas vitórias da democracia contra as tentativas de engavetá-la de novo, o povo segue confiando muito pouco – ou nada – nos políticos. Outro dia, vi palavras gravadas numa camiseta que são bem um resumo do resultado de pesquisas de opinião recentes.
Força, fé e danem-se exibia o jovem no peito. É bem isso. Pesquisa de uns meses atrás mostra que as instituições em que os brasileiros mais confiam são a Igreja Católica (73% confiam), as igrejas evangélicas (65% de confiança), a Polícia Militar (71% de confiança) e as Forças Armadas (70%).
Na contramão, 52% das brasileiras e brasileiros não confiam no Congresso Nacional e 63% não confiam nos partidos políticos. A maioria do pessoal (57%) também não confia nas redes sociais que, por incrível que possa parecer, são o principal meio de informação dos brasileiros…
Quer dizer, a galera vai às redes, forma opinião a partir do que lê, ouve e vê nas plataformas, mas não confia muito nelas…
A virada desses índices é indispensável para o começo da qualificação da nossa democracia. Sigamos confiando na polícia e tendo fé. Mas, senhores políticos, é hora de vocês reconquistarem a confiança popular. Comecem a trabalhar para arquivar a predição do deputado Ulysses Guimarães de que as pessoas acham ruim o Congresso que está no poder porque ainda não conhecem o próximo a ser eleito…
Chamem seus marqueteiros. Revisem suas estratégias, refaçam suas marcas, atualizem seus discursos, deixem de lado os mesquinhos interesses classistas, regionais, até individuais.
Mostrem que entendem a simplicidade da atividade política, que não é mais do que organizar a vida em sociedade e garantir resultados que levem à redução das desigualdades com ações que beneficiem a maioria sem desmerecer a minoria. O povo está atento.
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Foto da Capa: Fábio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

