1. Até certo ponto, meu limite é a minha ignorância. E se é para ser ignorante, eu prefiro ser, como disse o poeta Mario Quintana, por conta própria. Quintana vive na minha cabeça. Guardo nela também a frase em que ele diz algo sobre como é bom morrer de amor e continuar vivendo. Essa, por não ter ainda vivido na prática, não compreendo bem. Se, um dia, a causa mortis do meu desaparecimento vier a ser o coração, duvido muito que ele volte a bater. Morreu, acabou. Ou não?
2. A humildade é uma virtude, segundo André Comte-Sponville, um tanto religiosa e que duvida até de si mesma. Duvidar é comigo. “Duvido, portanto penso”, escreveu Fernando Pessoa. E quem duvida, acredito eu, tem de se mover e de se esforçar para chegar a algum ponto de ou da certeza e para se livrar das visões distorcidas que tem sobre si mesmo, o que é algo construtivo para todos. Não dá para passarmos a vida sendo o Dorian Gray, ou, como diz a sabedoria popular de modo bem simples, sendo por fora uma bela viola e por dentro um pão bolorento. É mais saudável ser simples, ainda que seja bastante complexo.
3. Se, no princípio, o verbo não era meu, agora ele é. Não tenho, nem nunca tive, vocação para bater continência e para me submeter às listas de melhores livros e de leituras obrigatórias. Todas as vezes que tive de deixar um livro de lado por imposição de alguém, que sabia mais do que eu como engrandecer as conexões dos meus neurônios e o que era melhor para o meu bem-estar e futuro, além de ter dor de cabeça ou de barriga, senti algum arrependimento e um bocado de raiva. Nesse quesito, eu sou bem latina. E um tanto latino-americana vinda do interior e sem amigos importantes, como cantava o Belchior. Não funciono direito sob comando e influências. Sinto-me sob pastoreio dentro de um rebanho. A ideia de rebanhos arrepia-me a pele de uma maneira que não gosto. Pode parecer que sofro, então, de falta de humildade.
4. Diz Comte-Sponville que a simplicidade é a virtude dos sábios e que a pessoa simples é aquela capaz de vencer a inquietude com a quietude, as preocupações com a alegria, o amor-próprio com o amor ao outro e a pretensão com a verdade, e sem recorrer a artimanhas e a segundas intenções. Não sei. Como eu disse, duvidar é comigo. Mas a definição inspira-me.
5. “Porque é verdade. Mas não pense que te censuro. Se queres transformar-te num homem de letras, e quem sabe um dia escrever Histórias, deves também mentir, e inventar histórias, pois senão tua História ficaria monótona. Mas terás que fazê-lo com moderação. O mundo condena os mentirosos que só sabem mentir, até mesmo sobre coisas mínimas, e premia os poetas que mentem apenas sobre coisas grandiosas.” Esse trecho é do livro Baudolino, do Umberto Eco. O meu livro favorito dele é O Nome da Rosa. A censura ao riso e à alegria é um tema e tanto, mas hoje vou de Baudolino porque ele é o personagem mais mentiroso da história da literatura. Sempre me pergunto por que as pessoas – eu, tu, ele, nós, vós, eles – mentem sobre coisas sérias, porque entre elas e as leves há um peso diferente.
6. Eu, por exemplo, com frequência, assino Heloísa Esteves em cadernos de visitas de exposições. Aumento minha idade, diminuo, troco os números do meu CPF e do meu telefone. Respondo o que me dá na cabeça porque não gosto de ser definida a partir de informações organizacionais. Perguntas-padrão em ficha de emprego não traduzem o caráter, os gostos, a personalidade de ninguém e ainda reforçam o sistema segregador e opressor de seres humanos.
7. Eu não gosto de mentiras. Minto. Não gosto das que transformam as pessoas em vítimas umas das outras, causando-lhes prejuízos e mágoas. Com as outras, até me divirto. No romance A Hora da Estrela, da Clarice Lispector, o narrador Rodrigo S. M. revela, desde o início de sua narrativa, que “só mente na hora exata da mentira e que quando escreve não mente”. Duas posições interessantes e convergentes com a necessária vida mentirosa dos humanos. Gostando ou não, há mentiras que trazem mais benefícios que a verdade.
8. No livro A Vida Mentirosa dos Adultos, Elena Ferrante denuncia e critica o sistema mentiroso de vida que levamos e que usamos para educar nossos filhos e uns aos outros. Ou deseducar. Uma parte considerável de adultos atribui à mentira apenas benefícios. Não que não existam mentiras sinceras, como cantava o Cazuza. As mentiras sinceras dele dialogam com o que entendo como sendo o território criativo e inofensivo das meias-verdades, como a minha querida Heloísa Esteves. São as não perigosas. Exemplo de uma mentira não perigosa que cometo: atrasada para um compromisso, porque fiquei lendo um pouco mais no sofá, digo que me atrasei por causa do trânsito.
9. Ler é a minha fraqueza. Todo mundo carrega alguma. Essa tese é do personagem Sandóval no filme O Segredo dos Seus Olhos. Lendo as cartas de um criminoso, Sandóval descobre que a do bandido é por um time de futebol. Gosto desse filme. De vez em quando, paro em frente ao espelho para observar o meu próprio olhar. Eu poderia dizer que os meus olhos não mentem, mas, aí, eles teriam de ser sempre iguais, e eu não poderia ler o mundo de modos tão diferentes.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

