O Rio Grande do Sul é o estado brasileiro que reúne a maior proporção de praticantes de religiões de matriz africana, de acordo com os resultados preliminares do Censo Demográfico 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mas desde o censo de 2010 (IBGE), o RS já ocupava essa posição.
Embora o tráfico de pessoas escravizadas tivesse como destino prioritário as regiões sudeste e nordeste do Brasil, recebendo maior número de homens e mulheres, o tráfico interno também fazia sua parte na “distribuição e venda” dessas vidas humanas.
O RS, também de acordo com o censo mais recente, tem 79% de habitantes autodeclarados brancos e abriga a segunda menor população negra do Brasil (21%). Para cá, veio um número expressivo de etnias e suas culturas, oriundas de diferentes partes do continente africano. Essa constatação ajuda a explicar a diversidade de nações de Matriz Africana em nosso estado, misturando etnias/nações, Jejê-Ijexá, Cambinda, Oyó, Ketú, Gegê, entre outras (Yorubás/Bantús), característica menos marcante nas demais regiões brasileiras.
Entendo que essa mistura de dialetos/idiomas e práticas religiosas, que tem como base a ancestralidade, se fortaleceu nesse território, apesar do racismo religioso e ambiental.
Para nós, da matriz africana, a relação com a natureza é indissociável, e as alterações climáticas nos atingem não somente fisicamente, mas também mental e espiritualmente, porque nossos Orixás estão ligados à natureza.
Nós, Povo do Asè, fomos atingidos, não apenas pelas águas, mas pelo descaso, preconceito e racismo do poder público e da sociedade em geral, nas enchentes de 2024.
O desastre ambiental atingiu duramente os terreiros, causando danos materiais, perda de bens sagrados e deslocamento de comunidades. A situação foi agravada pela grande quantidade de Ylês (casas) existentes no estado, muitos localizados em áreas inundadas, como na região metropolitana de Porto Alegre.
Segundo o levantamento realizado pelo Núcleo de Estudos de Gestão Alternativa da Escola de Administração da UFRGS (NEGA/UFRGS) e pelo Uniafro, em junho de 2024, junto ao Conselho Estadual do Povo de Terreiro do RS (CPTERGS), dos 457 terreiros contatados, 254 foram totalmente destruídos, 176 foram parcialmente danificados e 27 atuaram como pontos de auxílio.
Entre os principais impactos ocorridos no ano passado, estão perdas materiais, devido à inundação que levou embora objetos de culto, móveis e outros pertences importantes; deslocamento forçado; danos emocionais, com grande sofrimento e angústia devido às perdas e, também, à falta de tranquilidade e segurança de seus espaços sagrados.
Embora tenha sofrido com muitos danos, a comunidade de terreiro foi extremamente solidária, organizando ações de apoio e arrecadando donativos para as vítimas das cheias.
Como forma de apoio, a Assembleia Legislativa realizou audiências públicas para debater a situação e mapear as comunidades atingidas, em busca de soluções para a reconstrução e recuperação. Porém, até o momento, a maioria das ações de reconstrução foi realizada com recursos da própria comunidade.
Agora, em 2025, com dados atualizados, o número chegou a 850 espaços de culto religioso afetados pelo evento climático extremo. Destes, 80% ainda não se recuperaram, de acordo com o CPTERGS. Apesar das consequências do evento climático, a comunidade de terreiro tem se unido e buscado apoio para a recuperação.
A recuperação dos terreiros e comunidades de matriz africana é um processo complexo e que requer o apoio da sociedade civil e do poder público. É fundamental garantir a preservação da cultura e tradições dessas comunidades, que são parte importante da identidade do Rio Grande do Sul.
O futuro dos terreiros dependerá da articulação e da solidariedade de toda a sociedade, para que esses espaços de culto possam se reconstruir e seguir exercendo seu papel na vida religiosa e cultural do estado. Esse movimento é necessário, pois, além da enchente, a intolerância religiosa é outra chaga que atinge as religiões de matriz africana e precisa ser enfrentada.
Somos nós por nós!
Maria Cristina F. Santos é graduada em Biologia pela PUCRS; promotora em Saúde da População Negra; diretora na Odabá - Associação de Afroempreendedorismo; vice-presidenta do Coletivo Frente Negra Gaúcha (FNG); integrante do Conselho Estratégico da Universidade La Salle; Conselheira da Associação Negra de Cultura (ANdC), onde é co-coordenadora do projeto Sopapo Poético: Ponto Negro da Poesia.
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