Em uma entrevista que fiz com ele às vésperas de sua vinda a Porto Alegre para participar do ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento, o sociólogo francês Edgar Morin comentou algo que vou citar de memória, mas cujo espírito geral era: o fim da II Guerra havia deixado ao mundo um presente inadvertido cuja validade estava, tristemente, acabando. A vitória sobre o nazismo, seguida da análise cuidadosa de todos os horrores por ele praticados, convenceu as nações do mundo, mesmo as que ainda nutriam animosidades mútuas, de que soluções pela força e pela exibição direta de poder só poderiam levar a uma repetição trágica do que se viu na II Guerra – e com o agravante de haver ainda à disposição uma arma de potencial destrutivo inédito na história, a bomba atômica.
É em parte por causa desse espírito nascido das cinzas da Europa que a metade seguinte do século XX seria dominada por uma “guerra fria” em que conflitos por procuração buscavam expandir as “zonas de influência” das duas superpotências rivais no teatro global. A União Soviética apoiava com tecnologia países com experiências revolucionárias que buscassem uma alternativa ao capitalismo americano hegemônico. Os Estados Unidos financiaram golpes de Estado contra a “ameaça vermelha”. Brigaram usando o mapa do mundo como tabuleiro e outras nações como peões, mas raramente agiam diretamente para não dar ao adversário uma desculpa plausível para guerra aberta.
As ações diretas de ambos durante o período foram, aliás, desastrosas em termos políticos e pragmáticos. Os Estados Unidos se afundaram no Vietnã e fugiram com o rabo entre as pernas sem conseguir impedir que o Norte socialista ocupasse o Sul, cuja “democracia” era sustentada pelos Estados Unidos. A URSS investiu uma década e muitos recursos humanos e militares no Afeganistão sem conseguir dobrar os mujahedins financiados pelos EUA – numa daquelas ironias que a história adora, os “combatentes da liberdade” afegãos financiados com dinheiro ianque mais tarde tornaram-se a base do Talibã radical que declararia guerra aos EUA.
Zonas de Influência
Não se quer dizer com isso que o mundo fosse pacífico naqueles tempos, apenas que, com toda a tensão, a Guerra Fria, em retrospecto, era travada no reconhecimento de que certa cautela e certa hipocrisia eram necessárias, equilibrando acenos diplomáticos com ações terceirizadas nas “zonas de influência” dos adversários. As “zonas de influência”, nesse sentido, foram se estabelecendo como uma forma diversa de imperialismo, convivendo e muitas vezes substituindo ao longo do século XX o colonialismo direto que marcou a geopolítica até então. A URSS mantinha várias repúblicas vizinhas aglutinadas pela submissão ao comunismo russo, mas também exercia influência direta em países do bloco socialista, como Hungria, Romênia e até Cuba. Os Estados Unidos tutelavam a Europa e promoviam uma porta giratória de ditadores amigos na América Latina, mas havia pouca ação direta de parte a parte, porque, em um mundo polarizado entre duas superpotências com capacidade nuclear, mediam-se os passos a fim de evitar o desastre.
Isso parece um papo sobre questões velhas e ultrapassadas, mas a comparação é inevitável quando vemos 2026 começar já deixando bem claro o quanto esse tipo de alternância entre a força e a diplomacia é coisa obsoleta. A geopolítica internacional nos próximos anos, aparentemente, será marcada não pela cautela autoconsciente de que falava Morin, mas pela simples força bruta.
Começando pelo assunto deste início do ano: Trump, o orangoTANG laranja atualmente na cadeira de presidente dos Estados Unidos, ordenou a invasão a Venezuela e o sequestro do ditador local Nicolás Maduro. É um ataque sem precedentes que abre uma série de análises, a maior parte delas já feitas por cem pesquisadores do tema e milhões de palpiteiros tudólogos ao longo dos últimos dias. Eu não sou cientista político nem tenho algum particular saber específico sobre o campo, sou só um jornalista que acompanha o assunto sem maior dedicação, portanto não tenho a menor ideia de se Trump vai mesmo invadir a Colômbia, como agora já anuncia, se ele pretende manter guerras mais longas ou, sem apoio interno, vai continuar investindo na sua visão particular da Blitzkrieg nazista e desestabilizar governos “tributários”. Não sei se ele visa meter as botas no Brasil e talvez use a eleição deste ano como desculpa.
Sem desculpas
O que me chama a atenção é a desculpa mesmo, ou melhor, sua ausência. Trump representa a nova política em que o mais forte faz valer seu tamanho. Trump, em seu discurso que se seguiu ao sequestro de Maduro, sequer se preocupou com o teatro declaratório das boas intenções, deixando claros os termos mafiosos da proteção: os Estados Unidos presidirão a transição e administrarão o petróleo. Nada de papinho de “restabelecer a democracia” – até porque, se esse fosse o teatro, ao menos seria entronizada a Nobel fantoche Maria Corina Machado, deixada no pincel pelo próprio Trump. Seu minion Marco Rúbio declarou textualmente que a vice de Maduro, Delcy Rodriguez, seria mais aberta ao diálogo com os Estados Unidos – sinalizando que Delcy, apesar de notinhas prometendo “assegurar a soberania” do país, deve ter assinado um acordo na moita para se livrar de Maduro e conduzir sua própria ideia de um “novo bolivarianismo”, seja lá o que isso significa.
Trump queria o petróleo da Venezuela e queria cortar as negociações do país com China e Rússia. Nos velhos tempos, um ou dois de financiamento e armamento de um movimento oposicionista com auxílio da CIA seriam postos em marcha. Mas lá também será ano eleitoral em 2026 e o resultado do “midterm”, como chamam os americanos o pleito que costuma renovar o Congresso, pode abalar o controle que Trump tem do Legislativo, assim, era preciso agir rápido. Assim, as forças dos EUA invadiram a Venezuela e retiraram Maduro do poder – criando uma confusão geopolítica tão grande que você tem a direita reacionária brasileira saudando a “libertação” da Venezuela (ao lado de venezuelanos exilados que comemoram, embora não fique claro o que vai acontecer com o país nas mãos da vice do cara de quem todos eles queriam se livrar), China e Rússia não indo além das notas de repúdio, a extrema-direita europeia e até mesmo parte da direita trumpista americana condenando a ação.
Para quem define sua práxis por alinhamento, imagino que seja uma temporada bem confusa…
Acordos de cachorro grande
China e Rússia disseram que não gostaram, mas era ilusório qualquer pensamento de que interviriam diretamente. A Rússia já está empenhada em seu próprio projeto de imposição de força na Ucrânia. A China é uma nação de paciência cautelosa, então apenas observa, amparada em uma economia pujante, enquanto amplia sua zona de influência em uma África até pouco tempo negligenciada por todos os grandes atores do teatro global. Na Europa, abandonada pelos EUA de Trump e temerosa de uma Rússia que investe em armamentos como nunca, crescem as vozes por mais aparelhamento de exércitos e arsenais. Índia e China são os principais compradores de armas fabricadas na Rússia, mesmo com as supostas restrições internacionais postas para tentar dissuadir os esforços de guerra capitaneados por Putin.
Parece muito claro que o futuro que se desenha na geopolítica será o de acordos de “territórios” entre os grandes personagens do teatro bélico mundial, cada um reservando para si algo a tomar pela força em nome de algum direito reivindicado ou inventado. Os Estados Unidos fazem valer com sanções e outras manobras ilegais e caprichosas de Trump sua supremacia na América Latina. Se insatisfeitos, invadem ou bombardeiam. A Rússia segue sua campanha para disciplinar os Estados vizinhos e tentar afastá-los da OTAN, que Putin já usou como justificativa para três invasões. A mesma OTAN que agora precisará lamber as feridas da esnobada trumpista, o que talvez prenuncie uma nova divisão interna entre a parte continental e o Leste à sombra do Kremlin. A China talvez canse de ver todo mundo se divertindo sozinho e decida escolher algum pretexto qualquer para tomar Taiwan de vez. Israel, que não chega a ser uma superpotência, mas tem Netanyahu sentado no colo de Trump, já quase não usa mais a desculpa da autodefesa para camuflar seus planos de transformar a Palestina em um grande estacionamento – se possível, decorado com Trump como uma gigantesca estátua da Havan.
Presidente dos Estados Unidos em um período anterior à I Guerra, quando havia um equilíbrio internacional de superpotências coloniais ainda em plena força, Theodore Roosevelt (1858-1919) cunhou a expressão “big stick” (pau grande ou porrete grande, você e a sua quinta série escolhem) para definir sua estratégia de política externa: “fale macio e carregue um grande porrete”. Talvez o equilíbrio de forças se rearranje para que não aconteça nada, dados os riscos em jogo. Ou, pelo que estamos vendo, são fortes os indícios de que o “tempo da cautela” de que Morin falava se desintegra em plena vista, e os novos donos do mundo se contentam só com brandir seus gigantescos paus, sem sequer a necessidade de falar macio (as ressonâncias extratextuais possíveis dessa frase batem na estratosfera quando lembramos que Trump foi gravado dizendo que uma de suas principais estratégias no contato com o sexo oposto era simplesmente chegar sem dizer nada e “agarrá-las pela xana”).
Eu bem queria desejar um feliz ano-novo a todos, mas, gente, anda difícil…
Todos os textos de Carlos André Moreira estão AQUI.
Foto da capa: Truth Social/@realDonaldTrump/Reprodução

