Victor Hugo disse certa vez que “quem abre escolas, fecha presídios!”. A escola era entendida, ao contrário da prisão, como um lugar de libertação: da ignorância, do preconceito, do provincianismo cultural. Era ela que nos permitia “sair”: sair de casa (lugar das relações afetivas), sair de nosso particularismo para alcançar a “universalidade” da cultura por meio da Ciência; sair de nós mesmos para encontrar o Outro, sair da vida cotidiana para ver o mundo de forma “teórica”. Esta ideia teve uma longa fortuna na Modernidade e inspirou o que chamamos de “escola republicana”, mas eis que no século XX – este “Século das Crianças!” – as coisas mudaram e o que era lugar de libertação virou prisão!
Vista em diferentes momentos do século XX como adultocêntrica, conteudística, disciplinadora, reprodutora das relações de dominação, hierarquizadora, repressora ou veiculando “ideologia dominante”…, a escola chegou a ser comparada às próprias prisões, hospitais ou quartéis, exemplos de microssociedades disciplinares voltadas ao adestramento de corpos e espíritos. Mas é preciso entender que, antes de ela ser tão duramente atingida, houve um alvo anterior: o Universalismo!
Hoje, a crítica à razão iluminista (“emancipadora”) está tão banalizada nas Ciências Humanas que esquecemos que houve um dia em que se acreditou nela como instrumento de contestação da autoridade e da tradição e, sobretudo, como forma de nos fazer “pensar por nós mesmos”. Mas aí vieram os desastres do século XX e a pobre da Razão (junto com a própria Modernidade) foi acusada de responsável por eles: os desastres eram “por causa” da Modernidade e não “apesar dela”! Razão, Universalismo, Ciência passaram a ser vistos como cúmplices de Imperialismo, Etnocentrismo, Colonialismo Cultural. Como a escola veiculava o “universalismo da razão”, rapidamente se tornou o alvo seguinte. Relativismo, Multiculturalismo, Diferença, Decolonialidade, Epistemologias do Sul… se tornaram os termos da moda. Até que os ventos da “crítica” (uma invenção, aliás, iluminista!) mudem de direção…
O curioso é que todas essas teorias que anunciam a “escola-prisão” são anunciadas por intelectuais que passaram… pela escola e tiraram dela o que de melhor ela pode oferecer. Teorias que, aliás, para serem lidas e compreendidas, precisam de leitores que — imaginem! — também passaram pela escola!
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Foto da Capa: Gerada por IA.

