Se as pessoas se dessem conta, por um momento apenas, de que não dominamos o nosso estar no mundo por mais que tenhamos determinação, coragem e sabedoria, provavelmente nossas relações e atitudes seriam diferentes. Somos vulneráveis e, por mais estável que a vida pareça, não sabemos o dia de amanhã. Não sabemos o que as próximas horas do dia que está acontecendo nos reservam. Daí a importância de viver o cotidiano sem negar nosso bem-estar, nossas incertezas e nossos medos. Dividir alegrias e dividir angústias, sem julgamentos, é fundamental. Até porque o bem e o mal podem se manifestar de diversas maneiras, por diversos motivos, em qualquer situação, e opiniões em excesso mais tumultuam do que ajudam. Não adianta invadir o espaço do outro, impor uma lógica que é particular e achar que a solução está dada.
A invasão da privacidade de uma pessoa pode repercutir muito mal. O que precisamos fazer é ficar atentos ao que acontece ao redor. Procurar entender uma situação de forma discreta, respeitando a integridade e os limites do outro, é o caminho. Ficar dando opiniões sobre sentimentos que explodem, por mais que tenhamos boas relações com as pessoas, não é útil no momento da explosão. É difícil? É! Mas uma atitude autoritária, de quem quer resolver uma crise achando que está com a razão, pode ser muito pior. É preciso respirar fundo e acompanhar discretamente o que acontece antes de qualquer movimento intempestivo. O momento apropriado para agir e acolher vai chegar. E aqui quero falar um pouco sobre a importância do ato de escutar. Para isso, trago um pequeno texto do psicanalista Altair Sousa que define a escuta com muita propriedade e me ensinou muito.
“Escutar sem a ânsia de responder. Escutar como quem acolhe, não como quem resolve. Escutar como se escuta o canto de um passarinho: sem interromper, sem julgar, sem querer possuir o som. Porque a escuta verdadeira é uma forma de doação. E, como nos lembra Khalil Gibran: ‘Vocês doam muito pouco quando doam de suas posses. É quando doam de si mesmos que são realmente caridosos. Escutar é doar presença. É oferecer tempo, atenção e silêncio. É dar de si, inteiro, sem esperar nada em troca.”
A escuta deve fazer parte do nosso cotidiano porque é o caminho que vai nos aproximar do outro e nos manter atentos e unidos, seja quando a dor aperta ou quando a felicidade explode. Nosso estar no mundo pede harmonia e inclusão. E pede especialmente que o combate ao preconceito de qualquer natureza seja efetivo. Em 2025, tivemos recordes de casos de racismo, mais de nove mil registros, 11% a mais do que em 2024, o que é assustador. Tivemos também recordes de feminicídio e de mortes provocadas pela polícia que chega atirando, a partir de informações distorcidas, sem saber exatamente o que está acontecendo, e dilacera famílias.
Que segurança é essa que não tem escuta?
Precisamos cada vez mais olhar, ouvir e buscar informações concretas para agir com conhecimento, sensibilidade e segurança. Aprender cotidianamente a cuidar do outro é o melhor caminho. Dar as mãos, ser solidários, respeitar as diferenças e a dignidade de cada existência. Sejamos pontes, jamais muros!
Todos os textos de Lelei Teixeira estão AQUI.
Foto da Capa: Gerada por IA.

