Jamais se vira nem ouvira tanta ranzinzice, em hora imprópria, naquela orla. E vinha toda do sujeito que foi fazer a sua oferenda para Iemanjá. Parecia mais um, entre tantos, mas logo chamou a atenção. Em vez de agradecer, como os demais, reclamava do ano duro, da falta de lazer, dos desencontros, da imaginação infértil, da aridez alheia.
Havia um silêncio enorme no mar em torno dele, como se Iemanjá acolhesse aquela dor disfarçada de destemperança. E o devoto – ou ex – maldizendo o próprio dia e os 364 que o precederam. Que, se ela quisesse, contasse para todos os orixás a decepção irrestrita para com ela, findo o ano, feito o balanço, a retrospectiva. Noves fora, zero. Doze para cada mês. Trezentos e sessenta e cinco para cada dia.
O que dizer dos incômodos vizinhos, da companheira, dos filhos, dos traidores, dos párias, do pouco sol, da economia, da política, do raio que o parta e que caiu duas vezes… Chegou a chamar a atenção de quem o ladeava, mas esses nem acreditavam no que ouviam. Tivessem atenção disponível para quem não fosse Iemanjá, ouviriam.
Ele não se furtava de deixar a flor nas águas e, inclusive, derramar a garrafa de espumante, mas o fazia mais por inércia. Não tinha gratidão, enquanto a sua oferenda ia pulando as ondas, ao lado de todas as outras que, ao contrário das suas, eram gratas, contentes, satisfeitas das réstias do passado recente e apontando um caudal de esperanças para o futuro próximo. Ele não apontava e assegurava não acreditar mais no futuro, tampouco esperar um naco de alento que viesse das águas. Ranzinza na terra, pesado no solo, reclamão, puro queixume.
De repente, houve um repuxo das águas, espécie de reviravolta que devolvia a sua oferenda. O espumante, milagrosamente contra todas as lógicas, reencontrava a garrafa e chegava intacto em suas mãos. As flores também estavam inalteradas, como se jamais tivessem entrado naquele mar. Ficou atônito. Não as pegava de volta, mas não voltavam ao mar, no centro de um impasse assustador. Pelo contrário, dele saíam, acompanhando o seu passo assustado, no retorno à avenida ilógica.
Ali pensou que Iemanjá era justa, de uma justiça que jamais havia visto, e sentiu a força dela. Tentou voltar para o mar, refazer a oferenda, em outro estado de espírito. Mas era um estado externo, por dentro continuava macambúzio, e o mar, digo, Iemanjá negava-se a aceitar o que talvez não merecesse. Foi quando prometeu a si mesmo voltar no ano seguinte com alguma gratidão, nem que por aquele instante de justiça. Iemanjá parece ter captado o novo clima e topou receber uma única pétala, a mais verde entre elas. Que ele viu sumir aos poucos no fundo do mar, ao lado das últimas oferendas de quem por ali ainda restava, em meio a uma espuma que não era mais de água nem de raiva, mas de alguma esperança.
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Foto da Capa: Fábio Pozzebom / Agência Brasil

