O POA Inquieta realizou, no dia 26 de março, considerado o dia de aniversário da Capital gaúcha, uma roda de conversa nos altos do Mercado Público. O encontro reuniu inquietos e inquietas de vários spins. O evento foi promovido pelo Ilhota Hub, capitaneado pelo Cristiano Barcellos. Cristiano salientou o quanto o POA Inquieta foi decisivo para existir o Ilhota Hub, que hoje desenvolve várias ações para empoderamento negro.
A roda, facilitada pelo Cesar Paz, teve como pergunta motivadora: em que projetos cada um dos presentes está envolvido depois da enchente? O articulador partiu do princípio de que todos ali eram ativistas de alguma causa, envolvidos em alguma iniciativa que estivesse empenhada em melhorar a cidade. A ideia era também conhecer ações de outros coletivos, já que o POA Inquieta é formado por gente com vários interesses, organizações e segmentos.
Na roda de quarta, uma das belezas foi ver o aumento de tonalidades da paleta de cor de pele do coletivo. Gente de distintos matizes que está experimentando conviver e fazer projetos em conjunto. E uma das novidades dessa junção é o Festival de Oxum que será realizado nos dias 6, 7 e 8 de dezembro deste ano. Tenho certeza de que temos muito a aprender umas com as outras, compreender símbolos e ritos de culturas afro-brasileiras.
Várias camadas de envolvimento
Como venho participando desde outubro de 2018 do POA Inquieta, meu lugar de fala, ops, de escrita, é de quem já passou por algumas fases de impressões sobre o grupo. No começo, fui tomada por uma animação que me levou a criar grupos, promover uma festa-feira lá no finado Galpão do Plátano em 2019.
Também paguei em prestações uma viagem a Medellín, onde pude conferir de perto parte do que foi feito para transformar a capital da Antióquia da cidade mais violenta e perigosa para uma das mais criativas do mundo. A terceira missão a Medellín foi em novembro de 2021. A empreitada estava programada para ser antes, mas devido à pandemia de Covid-19, precisou ser adiada.
Já me surpreendi e me decepcionei. Ou melhor, criei expectativas de que os fluxos e a dinâmica de funcionamento deveriam ser diferentes. Só que em todos os ângulos dessas relações há muito aprendizado. Quase saí várias vezes. Inclusive, é bem possível que tenha que dar um tempo, devido a tantas demandas do mestrado ou de trabalho. Mas daí, aconteceram situações que me fizeram permanecer, especialmente porque acabei tecendo laços de confiança e amizade.
Tenho cicatrizes de episódios marcantes, como as partidas abruptas da Mônica e da Cris. Essas mulheres fora da curva, pessoas excepcionais com quem tive o privilégio de conviver, só as conheci porque participei de funções do POA Inquieta. E como há gente legal nessa cidade que precisa se conectar, se reconhecer!
Quem tem contato com iniciativas promovidas pelo POA Inquieta sai com alguma opinião. Afinal, um grupo que se propõe a furar bolhas nem sempre é compreendido. Como a capital do RS tem moradores com um senso crítico muito acurado, pairam críticas sobre a sua atuação. Vale lembrar que o POA Inquieta nasceu a partir de pessoas ligadas a áreas da tecnologia e inovação. No começo, a intenção era focar no fortalecimento da cadeia da indústria criativa.
Com o passar do tempo e com a adesão de gente de diversas áreas e de distintas classes sociais – como tudo que é vivo – a tecitura foi sendo permeada de processos de transformação. E tudo que tem vida precisa de cuidado. Manutenção. Nutrição. E a aspiração do grupo de voluntários foi transbordando para outros limites.
Para uma cidade ser criativa, precisava ser inclusiva. Mas como ter diversidade sem sustentabilidade? Enfim, uma coisa foi puxando outra. Foram semeados outros grupos na cidade que tiveram nos bastidores a influência de integrantes do POA Inquieta para sua criação. Nasceu o Congresso Popular de Educação para a Cidadania. O projeto Escuta que faz bem durante a pandemia.
Ao mesmo tempo, foram sendo testadas várias formas e possibilidades de fazer as coisas acontecerem. E é claro, como todo grupo, há gente que quer aproveitar para vender seu peixe. Ou que enxerga oportunidades. Ou tem dificuldades de ter empatia, ou de não ter tempo. Na verdade, o POA Inquieta é uma colcha de retalhos, com vias e hubs de conexões. Conheci muita gente com quem não teria contato se não fosse esse grupo tão heterogêneo.
Se você que me lê ainda não entendeu direito o que é o POA Inquieta, o melhor mesmo é ir a uma roda de conversa de experiência olho no olho (já perdi as contas de quantas já foram realizadas, tanto no virtual como no presencial). A próxima está marcada para 23 de abril, também no Mercado Público. Lá todos devem falar e praticar a escuta ativa. O respeito deve perpassar por tudo, pelo comportamento, pela linguagem e na vivência de que todos merecem ser considerados por terem um coração batendo. E uma coisa é certa: vai sair tocado. Geralmente, mais leve e entusiasmado do que quando chegou.
Silvia Marcuzzo é ativista do POA Inquieta e colunista da Sler.
Foto da Capa: André Furtado / Divulgação