Em meio à crise climática que abala nosso planeta, o clamor por uma “transição energética justa” se torna cada vez mais frequente. Essa proposta é promovida em comerciais de televisão, em que rostos sorridentes afirmam que “a transição será justa para todos”, e ressoa nos corredores das conferências climáticas, onde sindicalistas e lobistas de empresas e países produtores de petróleo, ignorando os estragos provocados pelo uso de combustíveis fósseis, clamam por “justiça e responsabilidade”. Mas, afinal, o que realmente significa essa transição “justa” e quem são os verdadeiros beneficiados por ela?
Ao retirarmos o verniz do marketing e da retórica, uma verdade desconfortável se revela: para muitos dos defensores mais barulhentos, a “transição justa” serve mais como um escudo para preservar o status quo do que como um chamado para proteger os mais vulneráveis. Trata-se de um convite velado para que as engrenagens da economia fóssil continuem a girar, assegurando empregos, patrocínios e verbas de pesquisa — frequentemente destinadas a projetos de sustentabilidade que acabam funcionando como fachada para o greenwashing corporativo.
É inegável que a transição energética deve ser justa. Contudo, a verdadeira justiça não consiste em manter privilégios de quem se beneficiou com o sistema atual, mas sim em proteger os bilhões de pessoas que, tendo contribuído minimamente para a crise, já estão na linha de frente dos seus impactos mais severos. São comunidades costeiras que veem suas terras e modos de vida serem engolidos pelo mar; populações ribeirinhas cujas casas são arrasadas por enchentes sem precedentes; crianças em países de baixa renda que sucumbem a doenças agravadas pelo calor. Justiça, em sua essência, é a defesa dos mais frágeis.
Enquanto isso, a hipocrisia dos maiores poluidores atinge níveis alarmantes. Nações e corporações que mais lucraram com a queima de combustíveis fósseis agora exigem que todos, independentemente de sua responsabilidade histórica, façam os mesmos sacrifícios. Estabelecem metas que não cumprem e, numa manobra de distração cruel, desviam o foco do combate à pobreza para empurrar painéis solares e carros elétricos — financiados, claro, por seus próprios bancos — a países onde a maioria ainda luta por acesso à saúde, nutrição e educação básicas.
É preciso reconhecer tanto a dádiva quanto a maldição dos combustíveis fósseis. A energia extraída do coração da Terra nos proporcionou avanços inimagináveis, mas, como numa tragédia grega, nossa maior força tornou-se nossa maior fraqueza. A emissão massiva de gases de efeito estufa está desestabilizando o clima do planeta, colocando-nos em rota de colisão com um futuro incerto e potencialmente aterrorizante.
Mas nem todos parecem se preocupar. É comum testemunhar a dissonância cognitiva em ação: executivos brindando com vinhos finos enquanto negam a crise climática, ou cientistas financiados pela indústria do petróleo semeando dúvidas sobre modelos climáticos, mesmo diante de um consenso científico cada vez mais sólido. Trata-se de hipocrisia e da crença de que dinheiro e poder servirão como abrigo contra a tempestade que se aproxima — e isso é perigoso.
Lucrar com a indústria dos combustíveis fósseis não é, por si só, um erro. Essa atividade foi essencial para o progresso global e, por algum tempo, continuará sendo necessária. O verdadeiro erro moral está em negar a urgência da mudança. É imperativo que empresas e países produtores de petróleo assumam a responsabilidade e se comprometam, de forma transparente, com a elaboração de um roteiro global para abandonar os combustíveis fósseis. Esse plano deve assegurar que os recursos (e ganhos) remanescentes sejam distribuídos de maneira justa e que a transição ocorra com a máxima rapidez. No entanto, sem uma pressão firme da sociedade, esse movimento não vai se concretizar.
Já temos tecnologia e recursos financeiros para acelerar a transição energética. Se os subsídios bilionários dos combustíveis fósseis forem realocados para energias limpas, esse avanço será ainda mais rápido. O obstáculo real não é técnico, mas sim a falta de vontade política e ética dos principais atores. Para mudar esse cenário, governos, empresas e sociedade precisam agir com transparência e responsabilidade, abandonando o greenwashing e o negacionismo.
Já dispomos de tecnologia e recursos financeiros para acelerar a transição energética. Se os subsídios bilionários dos combustíveis fósseis forem redirecionados para energias limpas [Link 6], esse avanço será ainda mais rápido. O verdadeiro obstáculo não é técnico, mas sim a falta de vontade política e ética dos principais atores. Para mudar esse cenário, governos, empresas e sociedade precisam agir com transparência e responsabilidade, abandonando o greenwashing e o negacionismo.
Se há algo que deve nos orgulhar como espécie, é nossa criatividade e capacidade de adaptação. Sobrevivemos a eras glaciais e cataclismos, navegamos pelos oceanos e caminhamos na Lua. A tarefa que temos pela frente é, talvez, a mais desafiadora de todas, pois exige que lutemos não contra um inimigo externo, mas contra os dragões da inércia e da ganância que habitam dentro de nós.
Para aqueles que ainda se apegam à ilusão de segurança: sabemos que a crise climática impacta primeiro e com mais força os mais vulneráveis, mas suas consequências são sistêmicas. Em um planeta interligado, ninguém estará imune aos efeitos em cascata. A questão não é se a crise chegará a todos, mas quando
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Foto da Capa: Arquivo EBC

