Ao contrário de Freud, quero saber o que querem os homens. Falo de diferente do que, desde os tempos de Adão, desejam. Não que seus quereres conhecidos não sejam interessantes e legítimos e, por vezes, me interessem, mas, cá entre nós, ninguém precisa passar a vida sendo como os pais, os avós, os bisas e os tataravós das cavernas. A gente pode ser um pouco a gente mesmo, o que significa, entre outras possibilidades, não corresponder tanto à educação que recebemos e aos padrões que os milênios de civilização criaram.
Eu adoro ler sobre a Grécia Antiga porque, enquanto cultura, ela foi meu embrião, placenta e parto e impulsiona tanto minha lucidez quanto meus devaneios. Meus, seus, nossos, de todo mundo que vive no Ocidente e a uns mais e a outros menos, porque há, entre nós, é óbvio, os de perfil mais contido. Dizem que os povos do lado oriental da Terra são mais fechados. Talvez, seja uma impressão ego-ocidental. Por mais que eu tenha visto filmes (Lost in Transalation, da Sofia Coppola, está entre os meus cinco favoritos) e lido livros, não faço ideia de como seja, de verdade, o cotidiano nos países do lado da lá. Não sei quem ocupa o lugar da Grécia Antiga em suas mentes. A minha é povoada de gregos e gregas. A poeta Safo me representa. O Parternon, um sinônimo de democracia, também.
O Partenon, na Acrópole em Atenas, é o prédio (esquisito me referir dessa forma, mas ele não era para turista ver) mais inspirador em que já estive. Nem diante das três pirâmides de Gizé, no Egito, feito Napoleão Bonaparte, me emocionei tanto. E olha que foi uma experiência magnífica entrar em duas delas. E tragicômica. A gente tem de se mover quase agachado o tempo inteiro e organizados em fila indiana para subir e descer pelos corredores. Quando saí da maior, o senhor que vinha logo atrás não conseguiu se pôr de pé, sequer voltar a ser um homo erectus. Pensei que ele havia se machucado, mas não. Aconteceu algo de outra ordem com ele. Alguma coisa que eu nunca vou saber. E esse é um tipo de ignorância que me incomoda. Não tenho dúvida que passo a vida lendo porque não suporto ficar de fora da festa do conhecimento. E a maior, feita de papel, que eu conheço se chama O Infinito em um Junco, livro escrito pela Irene Vallejo, que se transformou na minha bíblia (já era a hora de eu ter uma), de tanto que me ensina.
Por exemplo, com ele, aprendi que:
A filosofia, como a entendemos, surgiu no começo do século VI a. C., na estreita faixa costeira em que está Éfeso, hoje território turco. Na época, chamavam a região de Anatólia. Banhada pelo Mar Egeu, o mais cristalino e enigmático que já vi, ela não pode ser mais mágica. Não foi difícil para minha mente imaginativa visualizar Ulisses e Calipso em águas como aquelas. Penélope, não consegui. Se eu fosse Ulisses, jamais teria retornado. Não sei como pode deixar Calipso para trás. Culpa, decerto. Culpa como a cristã incutiu em seu rebanho. Não muito longe de Éfeso, está a casa, dizem, em que a Virgem Maria passou seus últimos anos. Isso não está no livro. Sei porque fui vê-la, uma casa de pedra, escura, pequena e triste, ou eu a achei por imaginar que nela teve de viver a mãe que viu o filho ser crucificado.
E também aprendi com ele o seguinte:
Que a primeira palavra da literatura ocidental é ‘cólera’ (em grego, ménin). Com ela, começa o hexâmetro, versos de dezesseis sílabas, inicial da Ilíada. Falo da cólera padrão Aquiles cheio de ira que nos jogou, como diz a Vallejo, no som e na fúria desdobrados na literatura, entre outros escritores, de Shakespeare e de Faulkner. A Ilíada, com seus 15 mil versos, e a Odisseia, com seus 12 mil, todos atribuídos a Homero, que significa aquele que não vê (especula-se que ele tenha sido um poeta cego), foram para aquele tempo o que as enciclopédias foram para o século XX e a Internet é agora para nós. Uma era em que a oralidade era socializada, em que a poesia pertencia a todos e em que os poetas podiam usar, como bem quisessem, os mitos e cantos da tradição, transformando-os sem a mínima preocupação com Direitos Autorais.
De vez em quando, tenho a sensação de que os homens, em sua grande maioria, sentem algo dessa natureza de propriedade intelectual sobre nós, as mulheres, como se tivéssemos sido mesmo fabricadas por eles e suas costelas e que, no fundo, é isso que querem. Que sejamos suas crias e não criadoras, porque a verdade é, doa a quem doer, essa: o ventre e a passagem para vida quem garante somos nós. Sem a gente, não existiriam nem as ideias.
Todos os textos de Helena Terra aqui.
Foto: Freepik

