Setembro marcou o início da primavera em nosso hemisfério. E, como uma confluência dos tempos e dos ventos, esse mês em 2025 também me trouxe à cabeça canções e poemas que versavam sobre flores. Inevitável não repetir os versos da canção dos Titãs, Flores, que conheci na voz de Marisa Monte:
(…)
Olhei até ficar cansado
De ver os meus olhos no espelho
Chorei por ter despedaçado
As flores que estão no canteiro
Os punhos e os pulsos cortados
E o resto do meu corpo inteiro
Há flores cobrindo o telhado
E embaixo do meu travesseiro
(…)
Meu canteiro escolar sempre foi florido, tanto como aluna quanto como professora. Gosto de imaginar esse canteiro cheio de hortênsias. Via campos a perder de vista de hortênsias. E não eram hortênsias que eu havia plantado. Elas já estavam lá e me encantava a vista delas. Não escolho essas flores de forma aleatória. De acordo com a linguagem de significado das flores, as hortênsias simbolizam coragem, determinação, dignidade, pureza de sentimento e elevação espiritual.
Na infância, me fascinou aprender a ler. Minha professora me pegava no colo para eu ler as primeiras palavras. Tia Conceição me emociona até hoje com o ato de ensinar com uma rigorosidade generosíssima. Ela merece um texto só dela. Foi ela quem me mostrou a primeira floreira de hortênsias azuis. Eu amava ir à escola. Com todos os espinhos, conflitos, dificuldades, risos, alegrias, eu amava estar ali. E gostei de estar em todas as escolas por onde andei.
Não houve grandes hesitações de minha parte na hora de escolher minha profissão. Naquela imensidão de testes vocacionais, as hortênsias balançavam suavemente na brisa: não havia dúvida de que eu jamais seria feliz trabalhando em um laboratório, ou escritório, ou jornal, ou hospital. Feliz — ou que eu achava que queria dizer ser feliz — naquela época, era estar na escola! E colhi umas hortênsias bonitas demais na minha formação como professora. A frondosa flor do propósito da educação pública básica, da responsabilidade social de ensinar, da importância de repertório, do planejamento, do respeito ao conhecimento prévio do aluno.
Foram muitos setembros que se passaram. Sou professora da educação pública básica e digo que eu mesma arranquei as flores do meu canteiro. Para quem não sabe, apesar de seu significado simbólico e sonhado, as hortênsias são venenosas se consumidas em grande quantidade. Meu planejamento – estufa de ideias cuidadas com carinho – agora não me pertence mais. Copio e colo códigos, habilidades, competências, objetos do conhecimento (não chamamos mais de conteúdo) e, quando não copio e colo, o sistema já tem tudo preenchido para mim! Meu repertório e o repertório de meu aluno, adubo curado por anos e anos, não importa mais, porque o importante agora é receber o planejamento de aulas pronto advindo de instituições, revistas, órgãos internacionais. E é preciso aplicar isso, pois haverá visitas. Tire fotos! Gere evidências! E assim me garantem que as hortênsias vão florir lindas!
Mas, se não forem nada menos do que lindas dentro de uma meta de lindeza proficiente de hortênsias, a culpa será toda e exclusivamente minha.
O que surge disso, entretanto, é uma flor ananicada. Na superfície, até parece com as flores freirianas que emolduram nosso imaginário pedagógico de lutas contra o trator que insiste em nos atacar. Mas o que vemos são as flores que antes nos davam terra firme, serem arrancadas e colocadas dentro das caçambas das retroescavadeiras que avançam para cima de nós. “Vejam, temos uma citação de Paulo Freire no nosso caderno de avaliação externa! Somos muito libertadores!”, diz o condutor da retroescavadeira.
Arranquei então minhas hortênsias. E não fui arrancando uma a uma para sentir o aroma e pôr na água para durar um pouco mais. Arranquei de um ímpeto só. Me pergunto como pude ter sido tão presunçosa a ponto de desejar formar alguém que foi convencido de que aprender a olhar o outro no olho era nocivo e que melhor mesmo é olhar o outro nos stories ou no gráfico. Fui presunçosa a ponto de querer formar alguém. No meu cenário de terra arrasada, as hortênsias ainda estão espalhadas, raízes expostas. As mãos machucadas e com marcas de sangue seco.
Há, porém, alguém que neste setembro enxergou uma flor na escola. No meio da balbúrdia do dia iniciado, gritos, corpos inconclusos, paro um pouco para respirar e vejo uma aluna minha, lá do outro lado do corredor, balbuciando algo que não consigo entender. Não falava com ninguém em específico. Curvou-se e não havia dúvida do que fazia. Aproximou-se do concreto, quase encostando a mão no chão. Fez o movimento de pinça com os dedos e colheu uma flor que só ela via. Levou a flor ao nariz e fungou, fazendo beicinho com os lábios. Entendeu A flor e a náusea sem talvez nem conhecer o poema. Sua flor — invisível —, mas ainda assim uma flor. Já diria Drummond em seu poema:
(…)
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
(…)
Não pude ver que flor era aquela, mas eu a vi ser colhida. Talvez seja a hora de aguardar o momento em que as hortênsias arrancadas se dissolverão e serão consumidas pela terra. E então, quem sabe poderei pegar pela mão minha aluna — que nem a Tia Conceição — e plantar uma flor que ainda não vejo. É tempo das primaveras selvagens.
Rahissa Lima é professora da educação básica e doutoranda em Filosofia da Educação pela UFPE. Apaixonada por literatura e jardins.
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Foto da Capa: Freepik

