Em Canela, tem muitos cães de rua. Aquele era um deles. Já nos víramos antes, mesmo se não fosse bem essa a sua carcaça. Podia ser outro, mas era da mesma turma. Esparramado na rua lateral à Igreja, tinha o perfil de quem era: um cão de rua em Canela, na posição de dono do pedaço, esparramado no asfalto, encolhido de um frio que já mostrava as garras, no comecinho da noite pronta para piorar, como é comum em Canela. E, sobretudo, magro. Magro, magro, magro. E, por virmos topando com seus companheiros há vários dias, estávamos preparados para o encontro. Tínhamos os olhos atentos e um bom pacote de ração pela metade, ainda não entregue para o resto da turma. Aquela metade, sim, era toda dele.
O comportamento, em seguida, continuou dentro do perfil de quem ele era. Nada o detinha na noite que avançava com as suas garras de frio. Levantou a cabeça malhada como o resto do corpo, ao receber a cumplicidade do nosso olhar; depois, ergueu aquele corpanzil de ossos saltados e começou a abanar o rabo comprido. Com ritmo, agilidade, contentamento.
A mulher, dotada para aquela prática, estendeu em movimentos delicados o plástico na calçada e derramou sobre ele cada grão. O cão acompanhava com enorme atenção o movimento improvisado da mesa-chão, sem deter o rabo ágil. Em princípio, parecia esperar até a chegada da última unidade para atacar sofregamente a boia. Parecia, mas não era; posto o último grão no saco, ele continuou abanando aquele rabo com o mesmo afinco. Estaria agora sem fome? Ou estivera antes em posição suficientemente estratégica para não sermos os primeiros a lhe dar comida?
Foi aí que, rabo abanando ainda, aproximou-se da mulher com a cabeça e o par de olhos antes tristes, carregados, no momento, de alguma alegria. A proximidade daquela cabeça canina com a palma humana não deixava dúvidas. Pedia carinho. Queria carinho. Precisava de carinho. E foram necessários uns três movimentos ternos bem dados para amolecer o corpo todo. E, só depois disso, ele abaixou o par de olhos tristes-alegres para comer. E comeu com a voracidade dos muito famintos, mas conscientes de que o afeto ocupa a primeira fila na trincheira das necessidades.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

