Recebemos, em uma das comunidades do WhatsApp que participo, uma mensagem que falava sobre a hipertensão — palavra que carrega uma história inteira, sendo uma das doenças que mais atingem os corpos negros. A conversa começou com alguém dizendo que estava em consulta médica, investigando a pressão alta.
Em poucos minutos, o grupo virou um espaço de troca, e alguém comentou que é uma doença que afeta a toda a sua família. Outro, disse que desde os 20 anos de idade faz acompanhamento permanente por hipertensão severa. Um terceiro se descobriu hipertenso aos 29 anos.
Por que tanta gente preta sofre com isso?
Nesse momento, a troca de mensagens, para mim, foi além da medicina e virou reflexão sobre o que o corpo negro ainda carrega de outros tempos e que insiste em não passar. Pensei na hipertensão sob a perspectiva da geografia — não na geografia dos mapas, mas na dos corpos e das memórias. Pensar em cada corpo negro como um território marcado por travessias, confinamentos e resistências. Corpos confinados em porões de navios, enfrentando calor, sede, fome, além de outros medos e ausência total de humanidade.
A travessia atlântica submeteu milhares de corpos a condições extremas. Biologicamente se moldaram à dor e, talvez, esses corpos tenham aprendido a economizar água, energia, nutriente. Mas a memória dessa escassez ficou gravada nos genes e nas células e atravessou o tempo.
Ao mencionar herança genética na explicação “negros têm mais predisposição à hipertensão”, poderíamos explicar contextualizando que o que é chamado de predisposição é, na verdade, a memória corporal de séculos de privação. Os corpos que conseguiram resistir e se “adaptaram” à falta dos elementos básicos de sobrevivência foram os que permaneceram. No entanto, é preciso inverter essa lógica: o corpo negro não é doente por natureza, ele é sobrevivente por necessidade. A medicina muitas vezes ignora esse fato e trata a hipertensão como apenas um desequilíbrio químico, esquecendo que há séculos de história pressionando as artérias e moldando os batimentos.
No diálogo do grupo, uma das participantes escreveu algo que ficou na minha cabeça: “Existem também outras doenças que são características da população negra e, se não forem bem investigadas, podem se confundir com outras”.
Entender a hipertensão sob uma perspectiva não clínica é reconhecer que o corpo carrega histórias muitas vezes omitidas no consultório. Pensar na geografia da hipertensão também é pensar na geografia da água. O corpo humano é feito de água, e a história do povo negro, que foi trazido em porões, é uma história de privação dela. Faltou água na travessia, faltou água nas senzalas e, ainda hoje, falta água em muitas comunidades negras. Há um fio invisível que liga o passado ao presente. O sistema ainda repete, embora de outras formas, as mesmas condições que um dia moldaram a sobrevivência nos porões dos navios. Por água, interpretemos todas as formas de acesso a esse direito humano fundamental, como defende a ONU: desde a sua disponibilidade e chegada às torneiras até as políticas de saneamento básico.
Procuramos seguir criando caminhos de cura em espaços contemporâneos, nos “aquilombando” em grupos de WhatsApp, nas rodas de conversas, trocando experiências e compartilhando cuidados. Falar de hipertensão entre pessoas negras é, acima de tudo, lembrar que o corpo não está sozinho. É transformar o herdado em consciência. Para além disso, lembrar que o corpo negro ainda tem a memória da sede.
É injusto pensar que a hipertensão seja apenas uma questão de estilo de vida, como reduzir o consumo de sal ou praticar mais exercícios físicos. A verdade é que viver em um corpo negro, em uma sociedade racista, é viver em aflição constante. É uma pressão que não se mede com aparelho: é a pressão de existir.
A geografia da hipertensão é a geografia da resistência, visto que nossos corpos ainda tentam se equilibrar entre a herança e o presente. Quando falamos de saúde, precisamos olhar a história sem culpa e sem vergonha, reconhecendo que história e biologia combinam.
Referências e leituras que recomendo:
Gonzalez, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
Mbembe, Achille. Crítica da razão negra. Lisboa: Antígona, 2014.
Nascimento, Abdias do. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
Santos, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Edusp, 2002.
Letícia Maria Barbosa é doutora em Letras pela UniRitter/UCS, licenciada em Letras, nas áreas de Literatura e Português pela FAPA, especialista em Literatura Infantojuvenil pela PUCRS e mestra em Geografia Humana pela UFRGS. Instagram: @leticia.barbosa64
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