Acabo de apresentar a uma editora pernambucana meu próximo livro, reunindo as crônicas que escrevi para o Jornal do Commercio (Recife) entre os anos de 2018 e 2024. Dei o título “A Hora do Demônio. Crônicas Noturnas”, o que provocou uma certa reação negativa, sobretudo daqueles meus amigos e amigas religiosos(as) que viram na palavra “demônio” uma espécie de invocação do mal, inadequado para dar título a um livro de crônicas voltadas para a educação e a cultura contemporânea.
Tentarei, a seguir, justificar esse, digamos, “demoníaco” título!
Li, em algum lugar, que nosso sono é dividido em partes: numa delas — a primeira — nós sonhamos, e na outra começamos a nos preparar para acordar. E parece que é por volta das 3 horas da manhã que se dá a fronteira dessas duas “partes”. Tive a surpresa de saber que esta hora fronteiriça tem o curioso nome de “HORA DO DEMÔNIO”.
Meu amigo e ex-reitor da UFPE, Anísio Brasileiro, perguntou-me certa vez se eu tinha algum ritual ou protocolo para escrever meus artigos semanais pro JC, coisa que faço há mais de vinte anos. Depois de pensar um pouco, constatei que sempre me acordo naquela “Hora do Demônio”, como se um pontual relógio biológico soasse dentro de mim! Ou talvez seja ele, o próprio Capiroto, que me acorda! Mas é exatamente nessa “hora” que imagino e estruturo mentalmente (mas nem sempre, concedo!) meus artigos. Depois volto a dormir! Meu amigo e médico Aderson Luna sugeriu, depois de tomar conhecimento deste meu pacto, digamos, fáustico, que minha próxima coletânea de artigos se chamasse “A hora do Demônio”! Hesitei, mas percebi que era um título perfeitamente adequado. Afinal, se Sócrates e Descartes tinham os seus “Daimons”, por que eu não posso ter o meu, que tem a cortesia de vir me visitar, como Mefistófeles, quase toda noite e inspirar meus artigos? O Daimon era, para os gregos, uma força contestadora, de oposição e de crítica, e eu aprendi com Émile Zola que o escritor que não quer incomodar o poder deveria escrever receita de bolo!
Acrescentei ao título um complemento que também considero duplamente adequado: “Crônicas noturnas”. Em primeiro lugar, porque são imaginadas durante a noite e, em segundo, porque eu acho que estamos vivendo o anoitecer de um ideal civilizatório, o apagar das luzes das promessas frustradas do que chamamos de “Modernidade”. Boa parte dos artigos que aqui estão reunidos representa o inventário dessas perdas e meu Daimon pessoal — o das três da manhã — pede-me, apenas, para que eu não deixe passar em silêncio nossa problemática época, o que faz com que eu me sinta um homem de meu tempo, mas também alguém que escreve contra seu tempo!
Assumo aqui, nestas quase duas centenas de artigos publicados no Jornal do Commercio (Recife), minha arendtiana “responsabilidade do mundo” (não “pelo” mundo!): o compromisso de apresentá-lo e examiná-lo segundo minha visão, minha miopia, meus antolhos, e de discutir e confrontar tais pontos de vista com quem se interessar. Ao fazê-lo, cumpro a promessa que fiz a mim mesmo quando decidi me tornar educador.
Espero apenas, caro leitor, que as reflexões contidas nos artigos que ali reuni possam, mesmo que de forma precária e incompleta, ajudar a iluminar um pouco nossa contemporaneidade. Não espero grande coisa: como um fósforo aceso em pleno deserto à noite, não ilumina grande coisa, mas espero que, ao menos, revele a escuridão à nossa volta!
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