O que pode fazer um homem, mero risco no meio de tantas máquinas, diante de uma concessionária?
Sofrer o que lhe é proposto para a revisão de seu carro?
Olhar a lista imensa na tela do iPad, diante de seus olhos?
Confundir-se entre itens obrigatórios e recomendados?
Sofrer um rombo nas suas finanças, não negligenciando o privilégio de contar com um carro e poder mantê-lo, apesar das garras contemporâneas de uma concessionária?
Mas histórias são sujeitas a guinadas, quando há um amor ou um amigo. Então aparece do fundo da concessionária o Dimitri, o mecânico filósofo. E amigo. Ele percorre cada item, dissertando sobre todos e dispensando, com o perdão da redundância, os itens dispensáveis. Toma um café, oferece um café, conta as lutas da sua vida, quer saber as do amigo, não do cliente.
O clima de confiança é absoluto. Personalizado. Anticoncessionária. O aroma do café se impõe até mesmo aos carros zero, expostos em pedestais. Só perde para as histórias que vão e vêm. Cinco dias sem fumar. O noivado. A mãe, O pai. O time. E você? O trabalho, as férias, o time. O ar convém limpar, por uma questão de saúde. Não é obrigatório, mas empático, então lá vai. No meio da concessionária, no meio do mundo, alguém se preocupa com a tua saúde, enquanto faz cortes passíveis de serem feitos em itens menos importantes. O amigo reduz a conta. O rombo. Depois daquele encontro, o carro passará bem, e o seu condutor, mais ainda.
O que pode fazer uma mulher diante de uma dor?
Sofrer o nome dela?
Os desdobramentos de seu errático diagnóstico?
As consequências de um tratamento a que a dor é resistente?
Mas histórias são sujeitas a guinadas, quando há um amor ou um amigo. Então, aparece o André, o médico amigo. Ele não desdenha a força do sintoma da mulher nem a tristeza decorrente dos tratamentos malogrados. Ouve, escuta, verbos obrigatórios, mas dispensados, hoje em dia. Não dispensa, escuta outra vez e tira do bolso do coração uma enorme esperança de que aquela dor vai passar. Um dia, garante, vai passar e, enquanto isso, não haverá sossego também para ele. E, na hora impermanente daquela esperança, já passou. E, quando a dor voltar latejando em seguida, a mulher passará bem, apesar do mal da dor.
Dimitri e André, entre uma concessionária e um consultório, ostentam, com o perdão da redundância, sem a menor ostentação, uma inteligência entremeada de sentimentos, logo difícil de descrever. Dela sabemos tão somente que nunca será artificial.
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Fotos da Capa: Freepik

