Nossos “abolicionistas” sabiam que os negros não seriam admitidos na sociedade como cidadãos de primeira classe: o desprezo de nossas elites com a “vergonha negra” alimentava delírios higienistas de “branqueamento” até na célebre Escola do Recife.
Não foi por acaso que a importação de mão de obra para o café e para as estâncias do sul tenha optado pela imigração branca: em quatro ou cinco gerações – adotando uma política eugênica adequada – seríamos uma nação branca e civilizada! Proposta não faltou…
Os projetos de construção do Estado Nacional (1810-1822) evitaram mexer naquilo que tinha caracterizado a própria condição colonial, que o Estado Nacional queria deixar para trás: o latifúndio, a escravidão, a economia dependente. Em relação à “condição” negra, era preciso que tivéssemos um “Outro” que nos servisse de oponente à nossa própria identidade branca e supostamente civilizada (toda “identidade” se constrói por oposição e exclusão): precisávamos “inventar” o negro, construir a negritude como “condição” (como o “Judeu” de Sartre ou o “Oriental” de E. Saïd)!
Não estou falando da cor visível da pele e, sim, das características e atributos que outorgamos a uma derme que, em princípio, não tem nenhum atributo específico ou inato. Construímos o “negro” como alguém infantilizado e sem autonomia (moral ou intelectual); incapaz de ascender ao pensamento abstrato (Gobineau), carente de tutela e de condescendência penal (o duplo Código Penal de Nina Rodrigues), sem “alma” (Controvérsia de Valladolid).
Se o conceito de “dignidade humana” (Pico Della Mirandola) supunha que éramos originalmente “vazios” e que precisávamos nos constituir a nós mesmos através da existência como liberdade, então os negros não tinham dignidade: já nasciam com seus precários e negativos atributos prontos e definidos e, assim, não podiam “ascender na escala dos viventes”!
Podemos até aceitar um colega negro, uma empregada negra “que já faz parte da família”; o que não aceitamos é que eles ousem ter uma “dignidade” que pertence apenas a nós, brancos; que eles rompam com a construção que elaboramos para eles e com a qual eles têm que se identificar, senão é nossa “branquitude” que fica ameaçada.
A revolta negra é também a revolta contra essa “essencialização” étnica!
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Foto da Capa: Gerada por IA

