“Temos que fazer esse livro!”, me disse Fernando Ernesto Corrêa quando, no início de 2024, me chamou em seu escritório para detalhar a ideia que havia dividido com os irmãos Nelson e Pedro Sirotsky. “É uma das últimas chances que tenho para homenagear um grande amigo que tive. Afinal, estou com 87 anos…”, argumentou. De fato, a explicação dada por Fernando Ernesto para levar esse projeto adiante era das mais legítimas. E decisiva: Paulo Sant’Ana não apenas era merecedor de ter sua trajetória e suas aventuras contadas, como a ideia havia partido de alguém que tão bem o conhecia e tanto conviveu com ele por mais de quatro décadas.
A amizade entre Sant’Ana e Fernando Ernesto surgiu na redação da Zero Hora. Ambos já se conheciam de vista e muito se cruzaram pelas ruas do Centro de Porto Alegre e por lugares da vida noturna da cidade, onde os dois eram habitués. Mas foi no ambiente jornalístico daquela RBS do começo dos anos 70 que a amizade se consolidou. Outros dois fatores seriam fundamentais: o gremismo e o vínculo sanguíneo que tanto Fernando Ernesto quanto Paulo Sant’Ana estabeleceram com Maurício Sirotsky, o fundador da RBS.
Os dois ainda tiveram papel fundamental no crescimento do grupo de comunicação. Fernando Ernesto nos bastidores, nas negociações, nos contatos e nos contratos. Sant’Ana na linha de frente, nos órgãos de comunicação – jornal, rádio e TV – criando um tal nível de identificação que, a partir de determinado momento, a sua cara seria também a cara da RBS.
Exagerado, autorreferente, egocêntrico, bipolar, Paulo Sant’Ana conseguiu fazer com que tudo que fosse ligado à sua vida, ao seu comportamento, ficasse naquela tênue linha entre a verdade e o folclore. E nunca fez questão de fazer qualquer desmentido.
Para contar a vida dessa lenda, li (ou reli) milhares de crônicas – algumas das mais de 16 mil que ele se jactava de ter escrito –, fui aos livros (das coletâneas deixadas por ele a tantos outros em que em maior ou menor grau ficou uma marca de sua personalidade) e conversei com mais de três dezenas de colegas, parentes, chefes, médicos, amigos e confrades. Todos foram unânimes em ressaltar a inteligência e a rapidez de raciocínio, da mesma forma que flagravam o temperamento inconstante, as inseguranças e a infinita necessidade de se afirmar, de se fazer reconhecido.
A figura folclórica surgida nas arquibancadas do Estádio Olímpico e nas discussões na Rua da Praia foi se moldando a partir de 1971, quando ingressou na RBS, e com o tempo foi se transformando em um completo comunicador.
Assim, por mais de 40 anos, Sant’Ana esteve presente no cotidiano dos gaúchos – e os gaúchos estiveram presentes no cotidiano de Sant’Ana. Nesse período, ele criou polêmicas, alimentou discussões, fez o Sala de Redação decolar e, lá mesmo, fez amigos e inimigos. Na coluna que manteve em Zero Hora, fez sua voz levantar-se contra as injustiças, defendeu a seu modo o interesse público e, embora tenha exercido mandatos como vereador, sempre soube que sua maior tribuna estava ali, nas páginas do jornal e nos programas de rádio e TV.
A morte de Sant’Ana, em 2017, foi o ponto final de uma existência múltipla: baleiro, verdureiro, feirante, inspetor e delegado de polícia, cronista, comunicador, radialista, comentarista esportivo, torcedor fanático pelo Grêmio, homem da noite, vereador, carnavalesco, Sant’Ana foi antes de tudo uma figura. Sua lenda o precedia e – nesse caso – a lenda deve vir acima do fato; embora quase tudo que se conte sobre Paulo Sant’Ana seja verdade.
Agora, oito anos depois de sua morte, Sant’Ana precisa ser lembrado. O livro Paulo Sant’Ana – O Gênio Indomável confirma isso.
Confirma que a lenda permanece.
Serviço:
Paulo Sant’Ana – O Gênio Indomável, livro de Márcio Pinheiro (Editora AGE).
Lançamento e sessão de autógrafos: 22 de julho, 18h30, na livraria A Página (Shopping Praia de Belas).
Márcio Pinheiro é jornalista, escritor e produtor cultural. Entre os livros que escreveu estão "Rato de Redação – Sig e a História do Pasquim" e "O Lobista: Fernando Ernesto Corrêa: Negócios, Política e Jornalismo". Criou e mantém o site amajazz.com.br. Colaborou ou colabora com publicações como O Estado de S. Paulo, Jornal do Comércio, Billboard e outras, além de fazer roteiros para documentários e eventos. Trabalhou em redações de Porto Alegre (ZH, Gazeta Mercantil, RBS TV, FM Cultura, Correio do Povo), São Paulo (Jornal da Tarde) e Rio de Janeiro (Jornal do Brasil).
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Foto da Capa: Reprodução RBS TV

