Pois é! As mulheres conquistaram um dia para chamar de seu. Contudo, elas merecem muito mais que isso. Elas precisam do nosso engajamento na luta pelo reconhecimento de sua dignidade. Na verdade, não é que elas precisem; É que é nosso dever, pois violência contra a mulher não é problema de mulher. É de todos nós! Todo fenômeno de maltrato que atinge as mulheres está visceralmente vinculado aos valores machistas e patriarcais estruturantes que propiciam imensas desigualdades de poder. Afinal de contas, conforme Simone de Beauvoir, “a representação do mundo é operação dos homens; eles o descrevem do ponto de vista que lhes é peculiar e que confundem com a verdade absoluta”.
Todos nós nascemos do ventre de uma mulher; devemos a uma, a companheira ou companheiro que temos; graças a outra, temos filhas ou filhos. Além disso, recebemos netas e netos de outras mulheres. Simples assim! Mas insistimos em reduzi-las a fêmeas que reproduzem, dificultando, até mesmo vetando, a possibilidade de tornarem-se mulheres. Scott (1995) observa que o gênero é constituído desde relações sociais tecidas nas diferenciações entre o que é aprendido como “feminino” e “masculino”. Uma educação que sustenta a cultura de que os homens são o centro do mundo é declaradamente inadequada para a superação da misoginia. No entender de Arendt, a violência é frequentemente usada para perpetuar a dominação em uma “cultura” que legitima a agressão e insensibiliza a sociedade. É necessário registrar a completa e absoluta ausência de orientação sexual – tanto nas famílias quanto nos processos de educação escolar – que visa a uma existência autêntica e digna de homens e mulheres, possibilitando a emergência de novas masculinidades, sintonizadas com as perspectivas, conquistas e direitos feministas.
Parece contraditório que uma sociedade homofóbica e heteronormativa alimente a esdrúxula cultura de absurda violência contra as mulheres. Mas a mulherfobia padece da mesma visão tacanha e criminosa que organiza existências equivocadas: o preconceito. Estamos atacados — e algumas vezes vencidos — por preconceitos de toda ordem. Como educador que sou, sinto-me em demasia entristecido por estar mais uma vez trazendo essa temática à baila. Mas minha voz não irá se calar. Denunciarei tantas vezes quantas forem necessárias os atentados contra os direitos das mulheres e suas respectivas coisificações. Não emudecerei diante da negação dos direitos das pessoas, dos preconceitos cortantes, da estrutura desigual que mata o pobre e o pequeno, que não reconhece as mulheres, os pretos, as comunidades LGBTQIAPN+, os irmãos de religiões de matrizes africanas, como iguais.
Defrontamo-nos, na internet, com um conjunto de espaços discursivos que elaboram e socializam narrativas que reforçam formas tradicionais ou extremadas de masculinidade, frequentemente associadas a posições antifeministas e misóginas. Nesses ambientes, a masculinidade é construída como identidade ameaçada pelas conquistas sociais das mulheres e pelos movimentos feministas, o que gera discursos que procuram restaurar hierarquias de gênero consideradas “naturais”. A machosfera, portanto, não se limita a um grupo homogêneo, mas engloba diferentes comunidades e subculturas digitais que compartilham a defesa de uma visão hierárquica das relações entre homens e mulheres. Nesse sentido, o conceito pode ser interpretado como um fenômeno sociocultural contemporâneo que expressa tensões provocadas pelas transformações nas relações de gênero nas últimas décadas.
Do ponto de vista crítico, discutir a machosfera implica compreender como tais espaços funcionam como mecanismos de produção e circulação de discursos que podem legitimar práticas de exclusão, hostilidade e violência simbólica contra mulheres. Ao mesmo tempo, a análise desse fenômeno permite perceber que tais discursos não surgem isoladamente, mas estão vinculados a estruturas sociais mais amplas de poder e desigualdade de gênero. Assim, o debate sobre a machosfera exige não apenas denunciar seus conteúdos misóginos, mas também investigar as condições sociais, culturais e educativas que favorecem sua expansão. Nesse contexto, a educação crítica e o debate público sobre masculinidades tornam-se estratégias fundamentais para enfrentar tais discursos e promover formas mais igualitárias de convivência entre os gêneros.
Nada justifica que estejamos matando, estuprando, violentando as mulheres. Mônica Benício escreveu essa semana na Revista Liberta, do ICL, que “a combinação catastrófica entre desigualdades estruturais de raça, classe e gênero e a ascensão de uma ideologia conservadora, especialmente entre homens, é combustível desse cenário aterrorizante”; O fato é que precisamos confrontar e enfrentar essas narrativas. Masculinidade não é sinônimo de machofera e nem é, por natureza, tóxica. Pode e deve ser educada para uma convivência saudável e o estabelecimento de relações respeitosas com todos os gêneros. A educação das masculinidades é um processo crucial para desconstruir padrões tóxicos — como agressividade, insensibilidade e misoginia — desde a infância, promovendo relações mais saudáveis, empáticas e igualitárias.
Pensando em práticas educacionais diferenciadas, o Instituto Promundo — uma ONG brasileira que atua no Brasil e em outros países promovendo a igualdade de gênero e prevenindo a violência por meio da transformação das masculinidades — lançou o Guia “Educação, Gênero e Masculinidades: Ferramentas para Escolas que Querem Transformar”. A coordenadora de programas do Instituto explicou: “Precisamos começar cedo a desconstruir estereótipos que limitam meninos e meninas. A escola é um espaço privilegiado para isso, mas ainda faltam recursos que dialoguem com a realidade dos educadores. Este guia nasce para preencher essa lacuna”. Sim, é imprescindível que as escolas tratem das masculinidades e se empenhem na superação do machismo nojento que marca nossa cultura desde sempre.
Parece óbvio que essa tarefa não é somente da escola, pois a educação escolar não é a única mediação de formação das pessoas. Entretanto, com Freire, acreditamos que, sem a educação, a sociedade não muda. A escola, em todos os níveis e em todos os seus processos, é convocada a educar homens e mulheres para uma nova cultura. Uma cultura que fortaleça caminhos sociais que contemplem gênero, diversidade, infância e inclusão racial.
Precisamos de políticas públicas de promoção das identidades diversas em meio a um chão de igualdades. Os mecanismos jurídicos e os aparatos de segurança pública precisam conter, punir e prevenir mais e mais a violência que tem caracterizado nossos dias e levado tantas mulheres a situações de angústia, terror e morte. Como acertadamente falou Maria da Penha, “a vida começa quando a violência acaba”.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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