Antes de sair de casa, Maria percorreu com os olhos os cômodos que acabara de organizar. Conferiu a geladeira, a dispensa. Alinhou os talheres sobre a mesa. Acendeu as luzes do pinheirinho. Por um instante, antecipou os parentes distantes e os vizinhos próximos, cada um ocupando o lugar de sempre naquela cena conhecida, repetida ano após ano.
Era noite de Natal. Novamente as mulheres se reuniriam na cozinha para preparar o arroz e as saladas e reclamar dos maridos, dos filhos, dos preços no supermercado. Em torno da churrasqueira, os homens discutiriam futebol, distribuiriam conselhos sobre finanças, ensaiariam soluções milagrosas para a política e a economia do país. As crianças invadiriam a sala que Maria passara horas limpando, sujando os tapetes, esbarrando nos móveis, derrubando tudo o que estivesse pela frente. De algum canto, uma mulher pediria cuidado — talvez por se compadecer do esforço de Maria, talvez apenas por incômodo — e ouviria de um dos homens que criança precisa brincar.
As moças e os rapazes se juntariam na varanda, falariam de festas, viagens e planos que, antes do casamento, já fizeram parte da vida de Maria. Só que vieram as responsabilidades de dona de casa, os filhos, as obrigações que lhe impossibilitaram correr atrás dos próprios sonhos. Todas as vezes em que ela se permitia pensar em si mesma, surgia um assunto mais urgente que empurrava para debaixo do tapete qualquer desejo ainda vivo.
Era noite de Natal. Mas desta vez Maria decidiu fazer diferente. Desta vez ela não se colocaria em último lugar e, tal qual Emma Bovary, de quem nunca ouvira falar, Maria decidiu ir ao encontro do que acreditava ser a felicidade. Inventou uma desculpa qualquer, deu a partida no carro e seguiu um rumo que só ela conhecia, sem prever que, dias depois, o mundo desabaria sobre a sua cabeça.
Não sei, de fato, o que aconteceu nas horas que antecederam a ida de Dona Maria ao aeroporto, nem como era a sua vida antes das ligações por videochamadas. A história que contei é uma invenção baseada em muitas mulheres que acompanhei em minha vida. Mulheres que foram diminuídas pelos afazeres domésticos e privadas, quase sempre pelas próprias famílias, de serem elas mesmas. Mulheres que, para fugirem de uma vida monótona e sem graça, são capazes até mesmo de se iludirem com uma imagem criada por Inteligência Artificial. Basta alguém que prometa o afeto que falta em seus dias para que elas se atirem de cabeça e, tal qual a Madame Bovary de Flaubert, vivam uma aventura capaz de as levar à morte.
Emma Bovary, personagem de Flaubert, também acreditou que a felicidade estava em outro lugar. Casada com um homem correto, mas incapaz de preencher seus vazios, tentou escapar da monotonia por meio do desejo, confundindo amor com promessa de salvação. Pagou caro por isso: endividou-se, foi exposta e morreu. O escândalo não esteve apenas em seu fim trágico, mas no fato de ousar desejar uma vida que não lhe fora permitida.
Mas Dona Maria não morreu. O que lhe foi imposto foi outra forma de punição: o escárnio público, o riso de quem nunca precisou inventar um afeto para seguir vivendo. Seu veneno não veio em frascos, mas em vídeos compartilhados, manchetes, comentários cruéis que a reduziram a personagem caricata, traidora da família, mulher ridícula que “acreditou demais”.
O quanto sabemos da vida de Dona Maria para condenar as suas escolhas? Quem tem o direito de julgá-la por acreditar no impossível, quando o absurdo se repete diariamente diante de nós? Quem pode condená-la por confiar na imagem de um vídeo, em um mundo que se alimenta de mentiras repetidas até soarem verdade?
Não condeno Dona Maria por tentar se proteger reformulando e reorganizando os fatos. Quem não faria o mesmo ao ser lançada ao tribunal das redes, exposta à crueldade viral, aos comentários maldosos, aos memes produzidos sem responsabilidade?
Não condeno Dona Maria por desejar outra vida. Condeno os golpistas que a enganaram, quem a filmou e compartilhou sua imagem e, sobretudo, a facilidade com que transformamos a dor alheia em entretenimento, como se o sofrimento feminino ainda fosse um espetáculo aceitável.
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Foto da Capa: Emma Bovary no filme de Didier Bivel / Divulgação

