Enquanto cientistas mapeiam com crescente precisão os impactos das mudanças climáticas e das demais crises ambientais globais, uma variável permanece profundamente imprevisível: o comportamento humano. Já conhecemos as causas e consequências do aquecimento global(2), mas seguimos agindo de forma contraditória — como se o problema fosse distante demais ou abstrato o suficiente para não exigir ações imediatas. Essa é, talvez, a maior incógnita da equação climática: por que, mesmo diante de evidências alarmantes, nossa resposta coletiva permanece tão aquém do necessário? Compreender as raízes da nossa inação — ou da ação insuficiente — é o primeiro passo para as transformações comportamentais que se fazem urgentes diante da degradação acelerada do planeta. O tema é complexo, mas alguns de seus aspectos já são bem compreendidos.
O imediatismo como obstáculo evolutivo
Nossa espécie evoluiu para responder a ameaças imediatas e tangíveis: predadores, escassez de alimentos e conflitos territoriais. As mudanças climáticas, porém, operam em uma escala temporal que desafia nossa percepção instintiva de perigo. Como explica o psicólogo Robert Gifford (2011) em seu estudo (3) sobre “os dragões da inação”, nosso cérebro está programado para priorizar riscos próximos e visíveis, não ameaças graduais e difusas.
No Brasil, este imediatismo se manifesta claramente nas políticas públicas. Mesmo após as devastadoras enchentes no Rio Grande do Sul em 2024, que cientistas associaram diretamente às mudanças climáticas, observamos uma resistência em priorizar investimentos em adaptação climática de longo prazo. De modo geral, o país gasta significativamente mais em medidas emergenciais pós-desastres do que em prevenção estrutural, refletindo o que economistas comportamentais chamam de “desconto hiperbólico” – nossa tendência a desvalorizar benefícios futuros em favor de ganhos imediatos.
A resistência à mudança no estilo de vida
O conforto e o status associados ao consumo intensivo de recursos constituem barreiras psicológicas significativas à mudança de comportamento. No contexto brasileiro, onde o acesso a bens de consumo representa, para milhões que recentemente superaram a pobreza, um símbolo de ascensão social — e, para os mais abastados, a manutenção de privilégios —, a resistência a transformar padrões de consumo é especialmente acentuada. Em síntese, em todas as classes sociais, consumir cada vez mais ainda é percebido como sinal de progresso e melhoria de vida.
Um exemplo revelador é a persistente preferência por veículos individuais (se possível, um SUV) em grandes centros urbanos brasileiros, mesmo diante do caos no trânsito e da poluição atmosférica. O setor de transportes é responsável por aproximadamente 47% das emissões de CO₂ relacionadas à energia no Brasil, com tendência de crescimento. Esta contradição, ou seja, a dificuldade em mudarmos nosso estilo de vida, mesmo sabendo que ele é danoso ao planeta, é um tipo de “dissonância cognitiva”, que descrevo em mais detalhes abaixo.
O Sistema Econômico e a Ilusão do Crescimento Infinito
Talvez o maior desafio comportamental resida na contradição fundamental entre um sistema econômico baseado em crescimento contínuo e um planeta com recursos finitos. O Brasil exemplifica este dilema de forma aguda: nossa economia depende fortemente da exploração de recursos naturais, com o agronegócio e a mineração representando parcela significativa do PIB nacional.
Como observa o economista Ricardo Abramovay (2018), o modelo econômico brasileiro ainda trata a natureza primordialmente como fonte de commodities, não como um sistema complexo cujos serviços ecossistêmicos sustentam a própria economia. Esta visão se reflete na persistente tensão entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental, evidenciada nos recorrentes debates sobre flexibilização de leis ambientais para favorecer setores produtivos, fruto de visões equivocadas sobre como alcançar um desenvolvimento econômico de longo prazo.
O PIB, principal métrica de “sucesso” econômico, não contabiliza a degradação ambiental como custo. Segundo estudo de 2022 da TNC Brasil, embora a economia brasileira esteja fortemente baseada no uso direto de recursos naturais, os efeitos econômicos da exaustão desses recursos e da degradação ambiental não são contabilizados, criando uma ilusão de prosperidade que ignora a deterioração do capital natural.
A negação e a dissonância cognitiva
O negacionismo climático representa a manifestação extrema de mecanismos psicológicos de defesa diante de ameaças existenciais. No Brasil, este fenômeno ganhou força institucional nos últimos anos, com representantes políticos questionando abertamente a ciência das mudanças climáticas. Segundo levantamento do Congresso em Foco (2024), há parlamentares brasileiros que ainda argumentam se tratar de “farsa” o aquecimento global, influenciando políticas públicas e o debate nacional.
Mas não são apenas os políticos. Empresas, grupos reunidos por ideologias nacionalistas, reacionárias ou simplesmente pessoas mal-informadas, apegam-se a argumentos frágeis na tentativa de minimizar os efeitos ou mesmo negar a existência da responsabilidade humana pelo aquecimento global.
Os psicólogos comportamentais identificam esse comportamento como uma resposta à “dissonância cognitiva”. No caso das mudanças climáticas, quando a realidade entra em conflito com nosso desejo de manter o status quo, é psicologicamente mais confortável negar sua ocorrência do que mudar comportamentos arraigados.
Caminhos possíveis: entendendo e transformando o comportamento
Enfrentar a crise climática exige não apenas avanços tecnológicos, mas uma profunda compreensão dos fatores psicológicos, sociais e culturais que moldam o comportamento humano. A ciência comportamental oferece subsídios valiosos para obter uma comunicação eficaz de questões climáticas. A transformação necessária exige uma abordagem interdisciplinar que integre ciências naturais e sociais, reconhecendo que a maior incógnita da equação climática não está nos modelos físicos do clima, mas na complexidade do comportamento humano. Como sociedade, precisamos urgentemente desenvolver não apenas tecnologias mais limpas, mas também novos modelos mentais, econômicos e sociais que nos permitam prosperar dentro dos limites do planeta.
Do ponto de vista econômico, é urgente a transição de uma economia linear — baseada em extrair, produzir e descartar — para uma economia circular, na qual o valor é mantido, regenerado e reintegrado aos ciclos naturais e produtivos. Socialmente, isso implica fortalecer comunidades resilientes e justas, que coloquem o bem-estar coletivo acima da acumulação material e da lógica do consumo incessante.
Esses novos modelos exigem uma visão de longo prazo, na qual prosperar não significa crescer indefinidamente, mas sim viver bem dentro dos limites ecológicos do planeta. Trata-se de substituir a obsessão pelo crescimento por uma busca por equilíbrio. O Brasil, com sua extraordinária biodiversidade e riqueza de culturas regionais, está muito bem posicionado para liderar essa transição. Ao integrar inovação tecnológica com valores humanos e ecológicos, podemos construir um modelo de desenvolvimento genuinamente sustentável — baseado na regeneração e não na exaustão dos recursos naturais.
Notas:
(1) Este é o décimo — e último — artigo da série dedicada a discutir, de forma específica, soluções e estratégias para o enfrentamento da crise ambiental global. A partir dos próximos textos, adotarei uma abordagem mais flexível, embora mantendo o foco central nos desafios ambientais e nas possibilidades concretas de superá-los.
(2) As consequências do aquecimento global — sendo as mudanças climáticas as mais conhecidas —, assim como outras crises ambientais provocadas pela ação humana na Terra, são amplamente abordadas no livro Planeta Hostil, de minha autoria, publicado pela Editora Matrix em 2024.
(3) Gifford, R. (2011). The dragons of inaction: Psychological barriers that limit climate change mitigation and adaptation. Obs. Gifford usa o termo “dragons” em analogia à expressão “drag on”, que significa atrasar ou impor barreiras ao desenvolvimento de ideias ou ações.
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Foto da Capa: Freepik

