A COP 30 está aí! Dentre os debates, avança um plano conjunto para substituição de energias fósseis. Países de distintos continentes iniciam o desenho do passo a passo para se substituir o queimar derivados de restos mortais dos dinossauros pelo fornecer calor ou movimento gerados por fontes alternativas.
Então, quando se discutem novas formas de energia, novas maneiras de se mobilizar forças propulsoras, acho que devemos voltar a atenção para uma das maneiras mais profícuas de emissão de capacidades e que, assim como todas as outras que não emitem fumaça, sofrem pesadas injúrias: o calor humano.
Obviamente, podem contestar que essa proposta é plenamente inviável na perspectiva econômica: não tem como investir (e especular) capital em sua promoção, consequentemente, não tem a mínima promessa de lucro; podem até, em alegada sensibilidade social, acusar que ela nem sequer gera emprego. Certamente dirão que não serve para sustentar os milhões de kilowatts necessários aos incontornáveis datacenters, que jamais ferveria a água de uma caldeira, que nunca conseguiria fazer girar pistões em motor nenhum. E que seu uso frequente é um desserviço a toda cadeia de produção e comércio responsável pela circulação de manufaturados que vão de cobertores Paraíba ao mais sofisticado emissor térmico alemão.
Em defesa da referida proposta, inicialmente, registre-se que ninguém aquece a si mesmo com seu próprio calor emitido: o calor que nosso corpo emana só serve para aquecer outrem, é uma emissão de onda altruísta por natureza. Contestando toda a indústria de alta ou baixa tecnologia de emissão térmica, afirmo que o calor humano é a melhor maneira de aquecer outra pessoa. E que todas as outras emissões geradas são apenas processos paliativos de aceleração das partículas do ar diante da eficácia abrasadora de uma pessoa a quem se abrace ou a quem se enrosque no friozinho.
Em relação à precisão de se viabilizar a força motriz demandada para se conectar ao universo digital, argumento que, de alguma forma, sempre é possível viver a maior parte do tempo apenas naquele pedaço do mundo composto por coisas tangíveis e concretas; além do que, dentro desse universo de coisas reais, também não estamos condenados a vagar tentando satisfazer as indigências gestadas pelo empreendimento do capital via as produções desse mesmo engenho. Neste sentido, uma das grandes utilidades da quentura da gente é ser inútil perante as ambições de qualquer racionalidade instrumental.
Assim, em meio à semana da trigésima vez que se dá a Conferência das Partes no âmbito da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, na qual se tenta um primeiro plano para substituir aquelas formas de geração de força que enfraqueceram o meio ambiente, é bom não perder o engendramento daquela outra potência sem a qual não poderemos encarar, enquanto humanidade em conjunto, os desafios enfrentados por nosso espaço vital: o calor humano.
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Foto da Capa: COP 30 / Tânia Rêgo / Agência Brasil

