Há algumas semanas circulou pelas redes sociais a foto de uma jovem desaparecida em Porto Alegre. Vista pela última vez no dia tal, no lugar tal, pedindo qualquer tipo de informação sobre a jovem. A comoção se espalha com alta velocidade. Dentro da minha bolha, várias pessoas compartilharam o post original, também carregado de comentários solidarizando-se com a família e torcendo pelo aparecimento da garota. Em tempos tão hostis e violentos, especialmente às mulheres, logicamente a preocupação não é exagerada.
Alguns dias se passaram até que vi um post com a feliz notícia de que ela fora encontrada. A postagem era do pai da jovem. Então eu resolvi ler os comentários, que me assustaram e entristeceram a ponto de estar falando sobre isso por aqui. Dentre vários comemorando que a menina foi encontrada bem (e essa era toda a informação oferecida), vários deles perguntavam o que tinha acontecido, qual foi a “história” do desaparecimento. Então, à medida que os retornos vinham no sentido de a família agradecer o apoio e os compartilhamentos e pedir privacidade no momento, começaram a surgir comentários num tom muito mais não amigável (para ser sutil).
— Pedem ajuda e, depois que a encontram, a família quer privacidade?
— Na hora de pedir ajuda vale tudo e depois não querem contar o que aconteceu?
Então as pessoas ajudam (não todas, mas muitas) porque querem saber da história mais do que pela ajuda em si? O que se deseja é estar por dentro do que aconteceu, da fofoca, da possível tragédia? Apenas saber que uma jovem desaparecida reapareceu e está bem não deveria ser o suficiente? Não em tempos em que a narrativa parece distorcida. Onde queremos viver por dentro dos fatos ainda mais do que meramente saber tudo sobre eles. Talvez o acesso desenfreado à tecnologia tenha nos trazido essa sequela, dentre tantas outras: a demanda pelo acesso quase que imediato, transmitido ao vivo, é uma necessidade e um imperativo de veracidade. Se não estou vendo, não tenho como saber se de fato está ocorrendo.
Essa sede pelo saber do outro, da intimidade do outro, não vem de hoje. Freud já falava de uma pulsão escópica, que se resume de forma simplória na questão do olhar e ser olhado, o espiar pela fechadura o mistério que se passa na intimidade do quarto dos pais e da qual eu estou de fora. Queremos espiar tudo – os big brother estão aí há anos para nos provar que essa pulsão se “bem” explorada, dá dinheiro.
Mas, no caso da menina desaparecida e felizmente encontrada, dá tristeza. Logicamente somos seres curiosos, por que não dizer até fofoqueiros. Mas demandar saber a história por trás de um desfecho que por sorte foi feliz deveria bastar na situação em questão. Mas parece que tem momentos em que a vida fica parecendo um grande seriado de streaming que queremos maratonar para ocupar nossos dias. Esse potencial acontecimento trágico não o foi, e isso por vezes parece até trazer um desapontamento (espera-se que mais da ordem do inconsciente), porque todos queremos uma grande tragédia, um acontecimento digno de comoção. Mas será que já não estamos tendo o suficiente? Só ajudar já não basta mais se eu não fizer parte da história oculta?
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Foto da Capa: Gerada por IA.

