Depois do encontro cheio de afeto, boas conversas e troca de livros com os parceiros da plataforma Sler, onde trocamos livros, reafirmo que é estimulante ver o movimento da cena literária gaúcha.
Segundo Maria Rosa Fontebasso, o livro de contos “A Mesa da Sala” (Editora Literarte, 2025), lançado na 71ª Feira do Livro de Porto Alegre, só foi possível porque muitas pessoas estimularam e acompanharam o seu percurso, algumas de maneira muito especial. A publicação nasceu na Oficina Permanente da Baubo, on-line, na qual ela entrou em 2022 com o desejo de compartilhar seus escritos entre pessoas que gostam de ler e escrever. As trocas do grupo foram de um aprendizado incrível e a competência e afetividade de Caroline Joanello e Júlia Dantas, que coordenavam os encontros e assinam o prefácio, foram decisivas para que a publicação acontecesse. Elas afirmam: “Na mitologia romana, as Parcas controlam nosso destino tecendo o fio da vida. E se às mãos humanas fosse dado um novelinho? É o que parece ter acontecido neste livro de contos: aqui Maria Rosa Fontebasso entrelaça, como o bordado de uma toalha antiga para comemorações especiais que nunca chegam, histórias de uma família que parecem saídas da matéria da realidade”.
Cada conto mostra personagens que sofrem como todos nós e encaram a vida a partir de suas identidades. Maria Rosa nasceu na Itália e sua família veio para o Brasil na década de 1950. Viveu em Caxias do Sul até 1968, quando se mudou para Porto Alegre. Foi professora do Estado e depois em cursos de formação de professores na universidade. Após a aposentadoria, passou a se dedicar à escrita literária. Participou de oficinas e do Curso de Formação de Escritores pela Editora Metamorfose. Publicou a novela “O jogo da memória”, além de contos em antologias, algumas bilíngues, português/italiano. Assina o blog Cadernos da Maria Rosa, onde publica suas crônicas.
“Não se borda senão um ponto por vez”
“A Mesa da Sala” traz um mosaico de contos que mostram um grupo familiar que tem raízes em uma região de colonização italiana no RS – a imigração, os conflitos, as mudanças sociais, as responsabilidades com os mais velhos, a criação dos filhos, o divórcio e o luto. Mostra a vida como ela é e suas nuances, sem julgamentos morais. O certo e o errado estão presentes, se confundem e, às vezes, trocam de posição. E o cotidiano segue mostrando a complexidade das relações, tecida por laços de sangue, casamento, convívio e separações. As histórias são de épocas diferentes, têm personagens diversos e o pano de fundo é a formação do país, “com a sombra da ditadura militar, o crescimento urbano, a industrialização do estado e o êxodo rural”. Marcada por esses episódios significativos nas nossas vidas, Maria Rosa fala das pequenas tragédias e vitórias do cotidiano, mostrando como “nossos mundinhos particulares estão entrelaçados com o coletivo”. E assim acompanhamos a formação dessa família e aprendemos “que não se borda senão um ponto por vez. Talvez por isso as deusas do destino tenham sempre um aspecto tão tranquilo: não cedem à pressa, pois que o destino da humanidade é delicado”.
Ao folhear o livro e ir lendo com calma me identifiquei com o que Júlia e Caroline escreveram no prefácio: “Maria Rosa conduz o texto com elegância, economia e sutileza, com uma mão firme e carinhosa, nos levando, aos poucos, a entender a complexidade do desenho desse bordado. Dá vontade de tirar a toalha do armário e estendê-la sobre a mesa apenas para observar o seu padrão, de longe, de perto e de longe mais uma vez”.
E quem sabe, então, sentar à mesa da sala, aquela que muitas vezes é reservada só para as visitas, ficar bem à vontade e conversar sem fronteiras e sem medo sobre o entrelaçamento das nossas vidas, nossas experiências, desafios, alegrias, limites, sofrimentos, chegadas e partidas. “A Mesa da Sala” me trouxe lembranças incríveis da infância e da adolescência!

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Foto da Capa: Gerada por IA.

