No dia 24 de dezembro, a polícia gaúcha foi acionada e fez contato com uma mulher que aguardava sozinha e dentro do carro, no aeroporto de Erechim, por seu suposto noivo, Brad Pitt. Os vídeos que já circulam na internet mostram os policiais abordando a vítima do golpe em seu carro, à noite, argumentando que eles já estariam conversando há aproximadamente dois meses e que haviam combinado que ela iria buscá-lo e que então se casariam em seguida na região. À medida que o diálogo avança, a mulher argumenta que fez chamadas de vídeo com o ator e que por isso estava certa de estar falando com ele, embora tivesse sido avisada de que estaria caindo num golpe.
Tais tipos de golpe não são novidade e ainda assim seguem ocorrendo. Por quê? Nas redes sociais, os comentários feitos no vídeo são de deboche, ironia e apenas alguns com pena da pobre mulher esperançosa. É fácil incorrer no julgamento imediato: o que faria essa mulher ter acreditado nisso? Imaginar que o ator viria ao seu encontro no interior do Rio Grande do Sul e que se casaria com ela. Ingenuidade? Insanidade? Burrice?
Realmente é difícil imaginar-se caindo num golpe desses. Ao mesmo tempo em que é triste imaginar a evolução desses golpes e o tipo de tecnologia em franca evolução sendo usada para o mal dessa forma, enganando e iludindo pessoas frágeis. Mas alguém não é frágil em algum ponto?
Há uma vulnerabilidade antiga que nos atravessa: a fome de sermos vistos como únicos. Não apenas amados, mas escolhidos. Acreditar no absurdo, nesse caso, não me parece ser simplesmente ignorância, mas sim um ato de esperança mal direcionada. O golpe não começou no dinheiro, começou no afeto. Antes do prejuízo material, que por sorte não chegou a ocorrer, houve o lucro emocional: alguém a escutava, alguém a fazia especial, alguém lhe devolvia um espelho generoso demais.
O absurdo, quando bem embalado, tem cara de milagre. Ele chega manso, prometendo exceção à regra, atalho ao pertencimento. E quem nunca quis ser exceção? Quem nunca quis que o mundo, cansado e previsível, abrisse uma porta secreta só para si?
Rimos da história porque o riso cria distância. Mas a verdade é desconfortável: não fomos enganados porque não fomos escolhidos. O aeroporto dela é o mesmo de todos nós, só muda o voo. Há quem espere um ator famoso; há quem espere reconhecimento, juventude eterna, sucesso instantâneo, amor sem risco. Mudam os nomes, permanece a espera.
No fim, ela voltou para casa sem o noivo, mas com uma lição que preferimos ignorar: não é preciso falta de inteligência para cair em armadilhas, basta só uma pitada de desamparo e altas doses de desejo. E talvez a crônica não seja sobre o golpe, nem sobre Brad Pitt, mas sobre essa delicada fragilidade que nos faz acreditar que, entre bilhões, alguém finalmente nos apontou e disse: é você.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

