O Brasil e o mundo atravessam uma mudança profunda na forma como compreendemos a maturidade. As gerações nascidas nas décadas de 1950 e 1960, que hoje se aproximam ou já ultrapassaram os 60 anos, não se enquadram mais no estereótipo tradicional de “idosos”. São pessoas que chegaram à longevidade com saúde, autonomia, domínio de tecnologia e uma disposição genuína para continuar aprendendo, trabalhando e participando ativamente da sociedade. Essa transformação não é anedótica, mas sustentada por dados consistentes: a população brasileira está envelhecendo rapidamente, e o IBGE projeta que, até 2030, teremos mais idosos do que crianças. Mas não se trata apenas de quantidade; trata-se de uma mudança qualitativa no modo de viver a maturidade.
Essa geração redefiniu a relação com o trabalho. Muitos continuam atuando por escolha, motivados pela realização pessoal, pela capacidade técnica acumulada e pela convicção de que ainda têm muito a contribuir. Outros empreendem, fazem transições de carreira, participam de mentorias e mantêm uma vida profissional ativa, mesmo após a aposentadoria formal. O mercado corporativo, no entanto, ainda não absorveu plenamente essa realidade. A percepção de que inovação é atributo exclusivo dos jovens e de que a experiência estaria necessariamente presa a modelos ultrapassados não encontra respaldo nos estudos internacionais. Relatórios da OIT e análises do Fórum Econômico Mundial evidenciam que equipes intergeracionais produzem melhores resultados, inovam mais e enfrentam desafios complexos com maior eficácia. A idade, por si só, não determina capacidade de adaptação; o que diferencia essas pessoas é a disposição permanente para aprender e se reinventar.
Outro mito que cai por terra é o da resistência tecnológica. A disseminação dos smartphones, das redes sociais e das ferramentas digitais aproximou gerações e ampliou o acesso à informação. Os profissionais 60+ participam de cursos online, trabalham remotamente, utilizam aplicativos para mobilidade, finanças e comunicação com a mesma naturalidade que as gerações mais jovens. A tecnologia deixou de ser barreira e passou a ser ponte, reforçando a autonomia e combatendo estigmas que insistem em rotular esse público como “desatualizado”.
Estamos diante de uma etapa da vida que ainda busca um nome definitivo. Não é mais a velhice no sentido tradicional, tampouco uma extensão da meia-idade. É uma fase em que vigor físico, maturidade emocional e liberdade de escolha se encontram. Muitos retomam projetos antigos, iniciam novos estudos, viajam, empreendem e constroem redes de convivência que fortalecem saúde mental e bem-estar. Trata-se de uma maturidade ativa, consciente e plenamente integrada ao seu tempo, muito distante da ideia de passividade que por décadas pautou o imaginário social.
Esse fenômeno impõe desafios importantes para empresas, gestores públicos e instituições. Precisamos de políticas corporativas que valorizem profissionais mais velhos não como mão de obra suplementar, mas como parte estratégica das equipes. É fundamental construir ambientes que combatam o etarismo, que reconheçam a experiência como ativo e que invistam em capacitação continuada, porque longevidade produtiva não é mais tendência, é realidade demográfica. O futuro do trabalho será, necessariamente, intergeracional, e ignorar isso significa renunciar a um enorme potencial humano.
O Brasil precisa abandonar a percepção de que envelhecer significa recolhimento. Estamos diante de gerações que envelhecem com autonomia, propósito e disposição para continuar contribuindo. Como presidente do Sindicato dos Administradores do Rio Grande do Sul, defendo que essa nova maturidade seja reconhecida, valorizada e incorporada ao planejamento das organizações. Não se trata de olhar para trás com nostalgia, mas de olhar para frente com lucidez. A sociedade só tem a ganhar quando permite que as pessoas sigam vivendo e trabalhando de forma plena, independentemente da idade.
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Foto da capa: Reprodução TV Brasil / Agência Brasil

