O ano é 2105.
A terra se recompôs após a Terceira Guerra Mundial, voltando aos níveis pré-industriais e pré-aquecimento global.
Quase todos os homens morreram. Não por causa da guerra em si, mas por um vírus mutante oriundo de um laboratório de pesquisa de remédios para disfunção erétil.
O vírus que iniciou a pandemia atacava apenas os cromossomos XYF, presentes nos conhecidos Homens Misóginos de Ego Frágil.
Mulheres usuárias de canetas emagrecedoras de cérebro também foram atingidas e não resistiram, diminuindo a população mundial para 1/4 dos habitantes registrados no ano de 2026.
Alguns homens, no entanto, eram imunes por possuírem atividade cerebral coerente e comportamento social empático e engajado.
A pandemia ganhou o nome de Meteoro Evoluído, pela sua capacidade de extinguir a espécie seletivamente.
Aos poucos, o planeta virou um matriarcado, mas livre de misandria – as mulheres não fizeram com os homens o que os homens fizeram durante séculos com as mulheres, e os respeitaram como iguais, assim como as suas diferenças.
As competições movidas a testosterona não existiam mais, e a remuneração de atletas era igual, independente do sexo ou orientação sexual.
A educação, saúde e dignidade viraram prioridade, e a vida se tornou igualitária, com distribuição de renda obrigatória para o excedente de quem atingisse o teto de riqueza acordado entre todas as nações.
A natureza se recuperou e o relógio do juízo final retrocedeu.
As religiões arrecadatórias foram abolidas e cada um podia acreditar no que quisesse, sem que organizações utilizassem a fé para obter poder ou dinheiro.
As escolas ensinavam história sem o ponto de vista dos vencedores, e o mundo passou a ser visto como um só: sem raça, cultura, etnia ou região geográfica superior.
A consciência chegou ao nível mais elevado já registrado na história da humanidade, e o bem comum se sobrepôs aos bens individuais.
As casas eram arrumadas em conjunto por todos os membros da família, que, independente do sexo, dividiam tarefas e secavam a pia após lavar a louça.
A leitura não era obrigatória, pois todos queriam ler o tempo todo, enquanto os dispositivos eletrônicos eram utilizados apenas para facilitar tarefas diárias burocráticas.
As redes sociais foram regulamentadas e perderam o status de entretenimento para disseminar apenas conhecimento – real e verificado.
A beleza foi libertada e não estava mais restrita a estereótipos. Todas e todos eram o que eram e o que desejavam, de verdade, ser. Sem sacrifícios, sem sofrimento, sem necessidade de aprovação.
O repovoamento masculino foi rápido e, devido às experiências sociais negativas anteriores, qualquer nascimento era acompanhado de educação inclusiva e treinamento de humanidade.
O planeta vivia o seu momento de glória, com todo mundo escovando os dentes antes de dormir e levando seu casaquinho antes de sair porque poderia esfriar.
Acordei rindo e super feliz com meu sonho, achando que um dia isso tudo pode realmente acontecer.
Fiz meu café no meio da bagunça que meu marido deixou na cozinha, e saí correndo pra deixar as crianças no colégio, ir pro trabalho, voltar pra fazer a janta, enquanto leio que mais uma mulher foi morta por rejeitar um colega de trabalho com quem ela não queria se relacionar.
Agora não consigo parar de pensar: vem logo, Meteoro Evoluído!!!
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Foto da Capa: Gerada por IA.

