Qualquer estreia posta o iniciante nas bordas do cume que pode se tornar ou o cadafalso do fracasso ou o pódio do êxito.
O centenário Teatro Santa Isabel estava apinhado: do salão aos quatro níveis de galerias, mais de uma centena de olhares miravam o palco: era a apresentação da Orquestra Criança Cidadã.
Atuando há praticamente duas décadas, o projeto acolhe gratuitamente cerca de quatro centenas de jovens, dos 06 aos 21 anos, com núcleos em três cidades distintas (Recife, Ipojuca, Igarassu); seus integrantes (a maioria oriundos das áreas socialmente menos favorecidas), além da formação musical, recebem atendimento pedagógico e de saúde, contando ainda com refeições, fardamento e escola de construção e reparo para instrumentos de corda e arco. A filarmônica foi uma idealização do magistrado João Targino, tendo início num dos bairros mais violentos da capital: o Coque.
A noite teve início com a execução da Sinfonia Inacabada de Schubert. A bravura do espetáculo propiciado por aquela juventude foi uma dessas ações que (na conjuntura recente do mundo) nos ajudam a não perder a fé na humanidade dos humanos. A composição seguinte foi o Concertino para Trombone e Orquestra, Op. 4, de Ferdinand David.
Precisamos falar sobre o trombone… Diferente da esmagadora maioria dos dispositivos, que têm em seu corpo alguma referência para a emissão de uma nota (o teclado do piano é o modelo icônico), este não tem chave em seu torso que facilite o posicionamento para essa ou aquela emanação; distinto do trompete, tuba e clarinete, ele não tem teclas: nada que remeta à comodidade das três cifras dedilhadas ao se aprender o “Parabéns para você” em qualquer violão amigável. A escala é executada pela conjunção do sopro no bocal com o ajuste de varas deslizantes, o executor conta apenas com sua capacidade de audição e sua habilidade de posicionar os finos canos metálicos.
Assim, para qualquer ser humano que teve dificuldade na performance do “Parabéns…”, o trombone será um engenho impossível.
Finda a Inacabada, o maestro, José Accioly, introduz a próxima obra e explana o contexto da execução: o conjunto musical estava debutando ali, em seu primeiro grande concerto, a classe dos metais, e esse momento inaugural seria marcado por uma apresentação solo: um solo de trombone. Na sequência, apresenta o artista que desempenhará a façanha: um rapaz negro e altivo formado pela orquestra.
O garoto mal sai da coxia e toda a plateia estala em aplausos. Não bastando o peso da expectativa que tais apoios evidenciavam, o regente (ele também emocionado) lembra ao solista (e à centena de corações e ouvidos atentos) que, dali em diante, mais de oitenta músicos (seus exímios colegas) estarão sob sua guia.
Após mais uma sessão de aplausos, ocupando o centro do tablado e de todas as atenções da imperial casa, o neófito, concentrado, aguarda o condutor iniciar o concerto.
Inacabáveis segundos…
Nestes instantes, acredito, me encontrei mais aflito que o solitário executante. As lembranças me reinstalaram nos cumes que bordearam meus fracassos e êxitos: me vi desde o recital de poesia no primário às semanais expectativas quanto à recepção às coisas que escrevo aqui…
Accioly enceta o movimento, as cordas abrem a peça, os demais instrumentos as acompanham em polifônica harmonia; concluído o introito, num sutil gesto de corpo, o regente convoca o solista ao desempenho. O rapaz insufla o complexo aparelho, liderando a cena.
Concluída a tríade de partes que compõe o Concertino, executado o solo final acompanhado pela orquestra, o eco do último acorde ainda reverberava quando a plateia irrompe em ovação.
Me atrasei nos aplausos. Quando comecei as palmas, as pessoas que me acompanhavam já aclamavam de pé. Pois, me detive um pouco mais na fantasia de meus sucessos futuros, convocado pelo exemplo do moço Matheus Alexsando Costa, e no íntimo desfrutei do Direito Humano ao que é belo e bom, propiciado pela juvenil excelência musical da Orquestra Criança Cidadã.
Todos os textos de André Fersil estão AQUI.
Foto da Capa: Orquestra Criança Cidadã / Divulgação

