Pode haver infinitas janelas para se observar um fenômeno humano, logo aberto a diferentes pontos de vista. Aqui utilizamos o que ao nosso parece o mais fundamental para a vida: o número de mortos. Oficialmente, eles e elas são cem, entre civis e militares, no sequestro do Ditador Nicolas Maduro que, por sua vez, teria executado mais de oito mil durante o seu governo.
Não cometeríamos o disparate de comparar mortos, em número ou nacionalidade. Um único bastaria para acusar o mal-estar civilizatório. Mas, ainda contando, observamos uma polarização carregada de teor ideológico nas posições diante do conflito. Aproximadamente metade do mundo atenta ao assunto apoia, basicamente, a intervenção americana, enquanto a outra metade é predominantemente contra.
Agora já não estamos mais nos números e, sim, no terreno nebuloso da interpretação. Parece evidente que metade do mundo não se choca com a morte de cem civis ou militares, e a outra metade, com mais de 8.000. Aprofundando a interpretação e sua subjetividade, podemos concluir que o mundo inteiro se mostra conivente com assassinatos decorrentes de contrariedades, seja diante de um regime ou de outro. Pode morrer quem não se submete a uma ditadura de esquerda ou quem se defende de uma invasão imperialista.
Neste caso, é possível pensar que o tresloucado Donald Trump e seu governo constituem-se em serial killers, bem como Nicolas Maduro e sua turma, não excluindo o mundo inteiro, conivente com um lado ou outro. Em O Alienista, romance de Machado de Assis, Simão Bacamarte precisaria rever os seus critérios diagnósticos, caso contrário a população inteira deveria ser internada por graves problemas psiquiátricos.
Sim, a nossa análise confirma que há graves problemas mentais na população inteira, apontando para um mal-estar mais amplo, descrito por grandes estudiosos da vida psíquica, como Freud, ou da história do pensamento, como Steiner. Os dois, há décadas, diagnosticaram a falência da civilização e a vitória da barbárie. É o que testemunhamos ainda hoje, quando os dois lados deste e de outros conflitos não conseguem evitar massacres. Ou seja, não houve Shakespeare nem Goethe nem Joyce suficientes para deter os impulsos assassinos dentro de cada um de nós. Ou, como disse o romancista Bellow para o seu colega Roth, a arte salva, mas sempre haverá lacunas. Sem tergiversação, essas podem ser descritas como verdadeiros rombos de um fracassado projeto de civilização.
Enquanto finalizava o texto que começou falando em janelas, olhei para a do meu escritório. Uma orquídea, plantada por um vizinho, acabava de nascer no tronco de um ipê. A flor não deverá ser suficiente para deter a barbárie do mundo ou para o seu Zardin, que a plantou, voltar hoje do hospital, onde se recupera de uma infecção resistente. Mas precisamos acreditar nela, menos assustados como Freud ou Steiner, e mais esperançosos como Drummond, o poeta que narrou o surgimento de uma rosa, no meio de um asfalto tórrido, como quem saudava a sobrevivência de um único homem ou flor.
Todos os textos de Celso Gutfreind estão AQUI.
Foto da Capa: Freepik

