Nas últimas décadas temos observado o avanço de uma nova epidemia sociocultural amplamente difundida: aquilo que se convencionou denominar “pandemia coach”. Tal fenômeno tem se caracterizado pela proliferação de autoproclamados especialistas em transformação pessoal, produtividade e sucesso profissional, ocupando espaços antes reservados à psicologia, à filosofia e às ciências do trabalho.
Embalado por discursos sedutores e promessas de resultados rápidos, o coaching dissemina a ideia de que qualquer limitação humana pode ser superada por força de vontade, disciplina e otimismo incondicional — concepção marcada por forte reducionismo e fragilidade conceitual. Assim, o que poderia aparentar um instrumento de apoio ao sujeito contemporâneo converte-se, na prática, em uma engrenagem produtora de sofrimento psíquico, ansiedade e sensação de fracasso permanente.
A “pandemia coach” acompanha a consolidação de uma cultura neoliberal que exige autoperformance constante, sustentada por um mercado de autoajuda cuja literatura reforça a crença de que o indivíduo é um projeto sempre inacabado e, portanto, permanentemente responsável por não atingir metas inatingíveis. Creio que, na verdade, a expansão do discurso coach pode ser compreendida como mecanismo de precarização do trabalho e como dispositivo ideológico do capitalismo tardio, produtor de subjetividades adoecidas. Saliento que tal crença respalda-se em reflexões de Byung-Chul Han (2010; 2015), Domenico De Masi (1999), Jean-Paul Sartre (1943), assim como de Martin Heidegger (1927), autores que em muito contribuem para a compreensão do sofrimento psíquico contemporâneo e dos modos de captura da subjetividade por mecanismos de autoexploração.
A falsa promessa de sucesso ilimitado tem transformado o coach em uma espécie de mercadoria motivacional. Esse discurso apresenta contornos messiânicos ao defender que qualquer pessoa pode alcançar êxito absoluto desde que adote a mentalidade adequada e hábitos de disciplina extrema. Tal narrativa ressoa com a concepção de sociedade do desempenho formulada por Han (2010), segundo a qual o sujeito deixa de ser explorado por forças externas e passa à autoexploração voluntária, entendendo o fracasso como responsabilidade exclusivamente individual.
Nesse contexto, o coach tem ignorado completamente fatores estruturais da vida social, como desigualdades, condições materiais, saúde física e mental e contextos familiares, deslocando a discussão do coletivo para a esfera individual. Com isso, o sucesso passa a ser interpretado como demonstração moral de competência, enquanto o fracasso é reduzido a indisciplina ou fraqueza pessoal. Ao reforçar narrativas meritocráticas e de autotransformação supostamente ilimitada, a referida pandemia sustenta uma lógica segundo a qual o indivíduo jamais é suficiente, necessitando adquirir continuamente cursos, certificações e mentorias para aproximar-se de sua “melhor versão”. Tal dinâmica opera segundo modelo semelhante à lógica publicitária e à obsolescência programada: cria-se frustração para então vender solução.
Cabe ressaltar que, no ambiente laboral, o discurso coach tem intensificado exigências já presentes na cultura corporativa: produtividade elevada, foco permanente, gestão rígida do tempo e adaptação constante. Em consonância com Han (2015), acredito que vivemos hoje em um contexto de “violência neuronal”, marcado pelo crescimento de quadros de burnout, depressão e ansiedade. O coaching não apenas se insere nesse cenário como o amplifica, ao incentivar superação infinita, disposição permanente e performatividade emocional como imperativos cotidianos.
A saúde mental deteriora-se à medida que o sujeito internaliza o mandato da otimização total. Ao reduzi-lo a uma máquina aperfeiçoável, o coaching desconsidera dimensões fundamentais da existência, como a finitude, a angústia e o cuidado, temas essenciais na ontologia heideggeriana (HEIDEGGER, 1927). Da mesma forma, ao incentivar narrativas de autossuperação contínua, aproxima-se da “má-fé” descrita por Sartre (1943), na qual o indivíduo enganará a si mesmo para fugir das contradições inerentes à existência humana.
Para De Masi (1999), por sua vez, sociedades saudáveis deveriam equilibrar trabalho, lazer e contemplação, entendidos como elementos centrais do chamado “ócio criativo”. Todavia, o discurso coach demoniza o ócio, interpretando-o como inimigo da produtividade. Destrói assim uma das bases da saúde mental: o direito ao descanso, ao silêncio e à desconexão.
Observa-se, ainda, uma idealização do “trabalhador invencível”: resiliente, motivado, disponível e incansável. Tal figura nega a realidade da vida emocional, marcada por limites e fragilidades. Ao promover essa narrativa, o coaching contribui para a formação de subjetividades esgotadas, que buscam corresponder às expectativas não humanas e se tornam dependentes de validação externa. Além disso, o coach corporativo tem operado como uma espécie de dispositivo ideológico voltado à normalização da precarização. Logo, jornadas extenuantes tornam-se “desafios”; salários insuficientes convertem-se em “estímulos de superação”; e a falta de estabilidade é reinterpretada como “oportunidade de reinvenção profissional”. Ou seja, a subjetividade passa a ser instrumentalizada como capital emocional, reduzindo o sujeito a um mero recurso operacional — fenômeno já antecipado por Heidegger (1927) ao discutir o domínio da racionalidade técnica.
Por fim, a abominação do ócio, reforçada pela lógica coach, aprofunda a alienação contemporânea. Neste aspecto, Heidegger (1927) sustenta que o ser humano necessita de abertura ao mundo, o que só ocorre quando há espaço para o pensar meditativo, não submetido à urgência produtivista. O predomínio da produtividade contínua, portanto, significa a vitória da técnica sobre o ser.
Em síntese, a chamada “pandemia coach” tem se consolidado como fenômeno sintomático de uma época marcada pela exaustão, autoexploração e culto à performance. Seu discurso reforça ideais neoliberais ao transformar indivíduos em empreendedores de si mesmos e ao culpabilizá-los por todo tipo de sofrimento ou insucesso. Ao negar o limite humano, depreciar o ócio e reforçar a ficção do profissional invencível, o coaching contribui significativamente para a deterioração da saúde mental e para o mal-estar estrutural das sociedades contemporâneas.
Torna-se necessário, portanto, repensar as relações entre trabalho, subjetividade e sofrimento. E entendam, minha crítica à “pandemia coach” não representa uma negação do autodesenvolvimento, mas uma defesa do direito ao limite, ao descanso e à autenticidade. Acredito que, enquanto a sociedade continuar a exigir sujeitos incansáveis, o adoecimento permanecerá inevitável. Afinal, precisamos entender que saúde mental não é mercadoria, mas condição humana que só floresce em contextos em que exista espaço para o ser – e não apenas para o fazer.
Referências:
DE MASI, Domenico. O ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 1999.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015. (Obra original publicada em 2010).
HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: neoliberalismo e novas técnicas de poder. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.
HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2012. (Obra original publicada em 1927).
SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada. Petrópolis: Vozes, 2018. (Obra original publicada em 1943).
Epitacio Nunes de Souza Neto é psicólogo, psicoterapeuta e professor universitário. Possui doutorado em Psicologia Cognitiva pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Doutorado em Psicologia pela Universidad del Salvador (USAL) de Buenos Aires, Argentina. Possui também mestrado em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
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