“O que sinto
é do vinho
ou do teu carinho?”
Mario Pirata
Já desconfiávamos de que aquela seria a tua última dança, ao menos fora de nós. Estavas um tanto combalido para ficar de pé e mesmo falar para o público. Estava na cara do teu corpo que, apesar disso, ainda andava com a tua exuberância pelo espaço Alice, onde lançavas Cio Macio (Libretos), teu mais recente livro, não o último: inéditos ficaram no teu grande legado. Mas falávamos do corpo e sabíamos, desde o Bandeira (que líamos juntos), o quanto, ao contrário da alma, um corpo não mente. Por isso, aquela tua lentidão verdadeira, a voz medindo frases, as pernas medindo passos, embora falando e andando ainda.
Mas sabemos pela poesia que a coisa nunca é bem assim. E, quando recomeçaste a recitar, a voz saiu inteira, e eras o mesmo brincadeiro de sempre, ao lado dos poetas e dos músicos que tanto aprenderam contigo. Fazias cada palavra crescer na brincadeira com as outras palavras. Só não se pode fazer poesia o tempo inteiro, é preciso descansar do que não é poético. Cada um guardava ali o teu legado, enquanto exalava a força dos haicais que lançavas, mas era muito maior. Me ensinaste tudo o que importa e o que mais importa é a poesia. O resto, mesmo importante, vem sendo acessório, mesmo que seja preciso pagar a pesada moeda, como aprendeste com aquele outro Mário.
E com quem eu aprendi a pontuação? A imagem? O ritmo? Tudo. Que a poesia deve ocupar as ruas, porque vem delas, sem que deixe os livros, rua e poesia encarnadas na mesma alma poética… E, ainda mais importante, o estado poético de estar no mundo… E, ainda mais importante do que o mais importante, sonhar por um mundo mais justo. Foste o professor de uma geração de poetas, nem sempre reconhecido por isso, mas isso é próprio da poesia, feita para reconhecer-nos e, não necessariamente, ser reconhecida.
Lá pelas tantas, o incidente. Havia terminado o recital coletivo para ti, o livro estava lançado para sempre, e te recolheste para o canto do recinto, onde ocupaste o descanso da cadeira ao canto, um pouco adiante da entrada. Ficamos mais para o centro, éramos meia dúzia, contando histórias tuas e algumas piadas para distrair a indesejada. Achei o cúmulo aquele apartheid em plena tarde que, afinal, era tua. Por isso, fui te buscar e te trouxe pelo ombro (quantas vezes havias me trazido, especialmente nos anos 80), arrastando a cadeira para estares perto de nós.
Passaste a ouvir as histórias e ainda contaste alguma nova ou antiga, sem desprezar a piada pouco correta, mas terna do fanho. Ali ainda estavas com a prosódia perfeita, o olhar que cativa, a capacidade de transfundir o que mais importa e o que mais importa é sempre da (des)ordem da poesia. Tolice a minha, já não era para estares ali, mas na cadeira perto da entrada – ou saída -, quase pronto para partir. Eu reincidia na inconformidade com a morte, essa mania dos poetas que posso ter herdado de ti e que nos força a desprezar a prosa dos descansos.
Então, voltaste para o teu canto, perto da entrada, como quem já precisasse sair. E ficamos de ti meio apartados, Clô, Pedro, Rafael, Ricardo, Santiago, outro músico e outro poeta cujos nomes não lembro. Mais atinados do que eu, eles sabiam que era preciso respeitar a tua partida e que todos têm o direito de descansar, especialmente depois de uma vida incansavelmente dedicada a semear sementes de poesia nos cantos mais áridos do caminho. E tudo o que a nossa prosa triste poderia agora era expressar o desejo de que tenhas um bom descanso.
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Foto da Capa: Acervo do Autor.

