As palavras me movem, me inspiram, me fazem pensar. E quando chegam vestidas de poema, ampliam o meu olhar em busca do diverso, da luz, do amor e da liberdade – de olhares não viciados, não domesticados, não contaminados. Olhares compridos e simples que se encantam com uma poesia “cheia de desperdícios”, como a de Manoel de Barros, sem saber a razão. E nem precisa. Basta usufruir.
“Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.”
(O apanhador de desperdícios, do livro Memórias Inventadas – A Infância).
Vivo buscando esse olhar em poemas, pequenas frases, textos e ações para que a vida cotidiana seja mais amável, democrática e plural. Para não desistir. E para me encher de leveza e esperança. Quando fico sabendo de uma família homofóbica e preconceituosa que torna insustentável a relação com o filho/filha diferente, meu mundo desaba um tanto. Assim como quando me deparo com o abuso de poder, com atitudes racistas, que humilham as pessoas, porque me dou conta, mais uma vez, que uma boa camada da sociedade em que vivemos é intolerante. Muitos jovens, que lutam pela sua verdade e identidade, são cruelmente estigmatizados. E, muitas vezes, pela cor da pele, pela orientação sexual, pela origem e pela condição social, negam a eles uma vida digna. São punidos por todos os lados, emocionalmente, socialmente e economicamente. Volto, então, à poesia em busca de um abrigo e sou abraçada pela linguagem simples e popular do nosso poeta das esquinas esquisitas.
“Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!”
(Poeminha do Contra, de Mario Quintana)
Levanto a cabeça. Sigo firme. E lembro que temos o escritor mineiro Murilo Mendes, que resumiu, com a simplicidade da poesia, o lamentável cotidiano do fazer político, tão distante do que é humanidade, em “Linhas Paralelas”.
“Um presidente resolve
Construir uma boa escola
Numa vila bem distante.
Mas ninguém vai nessa escola:
Não tem estradas pra lá.
Depois ele resolveu
Construir uma estrada boa
Numa outra vila do Estado.
Ninguém se muda pra lá,
Porque lá não tem escola.”
E já que falei em racismo e estou acabando de ler “A Contagem dos Sonhos”, romance mais recente de Chimamanda Ngozi Adichie, a premiada autora de “Americanah” e “Sejamos todos feministas”, um breve comentário. Encontrei em anotações antigas, feitas depois da leitura de uma reportagem na revista Carta Capital em 15/11/2016, a resposta que ela deu ao jornalista R. Emmet Tyrell, editor-chefe da revista ‘American Spectator’, no programa BBC Newsnight. Ele negava que Donald Trump fosse racista, tentando minimizar a crítica da escritora, que afirmou: “Me desculpe, mas se você é um homem branco, você não pode definir o que é racismo. Isso não é sobre a sua opinião, o racismo é objetivamente real e Donald Trump tem reforçado essa realidade”. Atualíssimo, não?
É o primeiro livro dela que leio e esta anotação me surpreendeu porque reafirma o destempero de Trump e o status de uma das escritoras mais fascinantes, dinâmicas e ousadas da cena literária hoje.
E volto à poesia, lembrando agora o “Poema de Sete Faces”, de Carlos Drummond de Andrade.
“Mundo mundo vasto mundo,
Se eu me chamasse Raimundo
Seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
Mais vasto é meu coração.”
Muito li este poema, que diz mais – “Quando nasci um anjo torto / Desses que vivem na sombra / Disse: Vai Carlos, ser gauche na vida”. Versos que inspiraram o título do meu livro “E fomos ser gauche na vida”.
Todos os textos de Lelei Teixeira estão AQUI.
Foto da Capa: Gerada por IA.

